Trecho de O caso Morel

“Veja quantos tons de luz. Nunca vi um pôr-do-sol assim”, Joana. “Que pena que eu esteja cansado.”
Deitei a cabeça sobre a sua barriga. O intestino dela emitiu um som fino.

“Põe o demônio no meu corpo”, disse Joana. “Você não quer colocar o demônio no meu corpo?”

“Depois.”

“Agora, agora.”

“Deixa eu ver o céu.”

“Agora, preguiçoso, egoísta. Arranja um pedaço de pau desses aí e bate em mim até o demônio entrar no meu corpo.”

“Depois.”

“Agora, agora.”

Apanhei a bolsa e tirei as duas garrafas de vinho tinto.

“Você quer vinho?”, perguntei.

“Não.”

Bebi enquanto Joana me xingava de todos os nomes sujos.

“Por favor”, ela pediu.

“Não tem nada aqui para eu bater em você”, eu disse.

“Eu estou morta. Levanta e me dá uma porção de pontapés.”

“Você não quer vinho?”

“Não!”, Joana gritou, impaciente, rolando no chão.

Levantei-me, fui até onde estava a bolsa, a uns dois metros de distância, apanhei pão para comer com o vinho.

Dei um pontapé em Joana. Ela riu.

Continuei dando pontapés nela, enquanto ela ria e eu olhava o pôr-do-sol. Era uma coisa linda, indescritível.

Joana parou de rir.

Deitei ao lado dela.

Senti o rosto dela úmido de sangue.

“Viu o que você me fez fazer?”

Joana não respondeu.