Meu caro Rubem,
Como sabe, roubei-lhe uma personagem por algum tempo. Na verdade não roubei, porque uma personagem daquelas não se rouba; toma-se de empréstimo. Só lhe contei mais tarde, e através da Bia, sua filha, porque eu temi – como sempre acontece – que me julgasse apenas mais um preguiçoso das nossas letras comuns. Os leitores não conhecem a história e conto-a rapidamente.
Eu estava a escrever um livro (depois publicado como Crime Capital, em 2001) e deparei-me com um problema de matemática; um daqueles que acontece quando um autor se julga numa espécie de encruzilhada, e que tinha a ver com a falta de um personagem. Vejamos: tudo se passava entre os jardins de Serralves e os bairros daquela burguesia deliciosa do Porto, e eu tinha assassinado, já, três personagens (até ao fim do livro, eu teria ainda de lidar com um outro homicídio). O meu pobre detetive, o sr. inspetor Jaime Ramos, precisava de um comparsa à altura para o ajudar no seu trabalho. Por mais que eu quisesse, o personagem que eu imaginava não era meu – era seu. Só a sua personagem, Mandrake, o de A Grande Arte, naturalmente, seria capaz de entrar no livro e sair dele sem se perder e sem se trair. Roubei. Um escritor rouba muito. Rouba histórias e rouba frases, que ouve aqui e ali, que lê aqui e ali, mas tem de ter cuidado com as personagens, porque elas dependem de um génio, de um talento e de um poder que se assemelha ao dos trovões que caem ribombando sobre as nossas vidas e nunca mais as abandonam, até ficarmos surdos. O terceiro dos cadáveres precisava de um detetive brasileiro e eu não tinha nenhum à mão; no Rio visitei Mandrake e perguntei: “Você acha que o Rubem se vai importar?” “É capaz”, ele muito sério, um panatela escuro e curto entre os dedos, naquelas mesinhas altas do Jobi, ao fim de vários chopes. “Você sabe como são os escritores”, voltou Mandrake, “por isso recomendo que não lhe diga nada. Por mim estou disponível, A Bíblia e a Bengala só vai sair daqui a quatro anos, até lá estou livre.” Eu fiz ainda várias perguntas, se Bebel era como você a desenhava, se Berta Bronstein voltara ao apartamento dele, se Wexler estava bem de saúde, se a gata Elizabeth ainda comia sardinha fresca, se Ada estava feliz (ah, Ada e Wexler). “Tem uma condição”, pediu ele. “Qual?” “Não cai na armadilha de me pôr a fumar um Pimentel. Não há mais, e é uma mania dele. Só dele e do Ruy Guerra.” “Prometido”, eu sabendo que talvez fosse mentira.
No fim, você não ficou zangado, Rubem. A falar verdade, não podia; porque Mandrake, tirando o nome, pertence a todos os seus leitores, se bem que só você o conheça verdadeiramente. Mandrake não nos representa a todos – mas só aos melhores, e em todas as suas variantes: romântico, melancólico, malandro, cafajeste, inteligente, divertido, frio, abandonado, livre, solitário, distraído, um dos personagens mais conseguidos da literatura da nossa língua.
Mandrake salvou-me, bem vistas as coisas; ao longo do livro, o meu pobre detetive de vez em quando olhava o brasileiro bem nos olhos e dizia: “Eu sabia que você ia dizer isso.” “Porquê?” “Eu li algures”, ele explicava, sem compreender bem o que se passava. Mentira. Mais tarde, vasculhando nos seus papéis (guardados em três caixas de Punch churchills), durante uma das suas viagens, verifiquei que o meu Jaime Ramos, um transmontano cético, dissimulado e desiludido, tinha muitas anotações sobre os seus livros e sobre Mandrake e suas artimanhas, hábitos, e truques pessoais. Eu aprendi consigo, Rubem. Meu Jaime Ramos, apesar da idade e do facto de pertencer àquele mundo de montanhas, neblinas entre as florestas de Trás-os-Montes, chuva nas ruas do Porto, apesar disso, ele estudara Mandrake e aprendera a enganar-me, fazendo-me julgar que era obra minha.
Francisco José Viegas
Escritor português, autor de Um crime capital (2011), entre outros livros.
[O texto Carta a Rubem Fonseca sobre um certo roubo foi publicado originalmente Jornal de Letras, de Lisboa.]






