Uma existência sem bússola – De José Onofre. Gazeta Mercantil, 15/8/97

Rubem Fonseca reapresenta seu laconismo em novela e contos

Os escritores têm uma certa aura que os diferencia dos profissionais de outras áreas culturais, sejam músicos, artistas plásticos, cantores ou bailarinos. A aura envolve ficcionistas e poetas, sem discriminar, de Stephen King a Saul Bellow. Mas não nasce deles e nem lhes pertence, não importando se ganharam muitos prêmios ou ficaram milionários. É o olhar dos outros que lhes dá isto. Porque eles detêm uma capacidade singular de elaborar a palavra e isto os torna mágicos, diferentes dos que lidam com a palavra como uma ferramenta do dia-a-dia, rude, pragmática, enganosa, algo esquivo que some nos momentos essenciais, algo que não dominam. A maioria das pessoas vive um casamento difícil com a própria língua, que não raro se torna um obstáculo a ambições, sonhos e promessas, enquanto o escritor – na perfeita definição de Luis Fernando Verissimo – “é um gigolô das palavras”. Nem todos, claro, têm o dom, o talento e a persistência para lidar com esta matéria-prima que parece feita de espuma.

Língua

A grande maioria, quando as coisas se desarrumam em casa ou no trabalho, perde um ponto de apoio essencial e se vê diante de “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, uma situação confusa que tende a espalhar para a outra base e resumir sua vida numa tensão que administra uma crise. Nem é necessário que isto aconteça, de fato. Basta que alguns sinais erráticos e mal interpretados por pensamentos imperfeitos ocupem o imaginário e sejam alimentados por vastas emoções. Incapazes de elaborar a crise que inventaram, passam a conviver com ela, como convivem com um casamento amargo por eles mesmo temperado. São prisioneiros que não conseguem entender por que estão presos e que sabem que a chave da cela está com eles, mas não conseguem localizar. Estes são os personagens e o público de Rubem Fonseca. Sem bússola na existência, vivem por coincidência, esperam que um acidente da sorte mude seu rumo, embora não saibam para onde querem ir.

Rubem Fonseca, quando publicou “Os prisioneiros”, seu primeiro livro de contos, em 1963, já era um escritor pronto, em pleno controle da linguagem e com um estilo próprio diferente da literatura que se praticava no Brasil. Estava com 38 anos e nos 34 anos seguintes publicaria oito livros de contos e sete romances. Os dois últimos, lançados simultaneamente, dentro de um caixa, pela Companhia das Letras, são a novela “E do Meio do Mundo Prostituto só Amores guardei ao meu Charuto” e os sete contos de “Histórias de Amor”.

A novela reúne personagens de dois romances anteriores, o advogado Mandrake – de “A Grande Arte” – e o escritor Gustavo Flávio – de “Bufo & Spallanzani” – com assassinatos, charutos e vinhos portugueses. Como no romance e nos contos que têm Mandrake como protagonista, a possível dramaticidade da história é bem coberta pela ironia do narrador, o próprio Mandrake, cético quanto à natureza humana e cínico quanto à sua própria, que trata de afastar seu cliente da prisão, usando tudo e todos que conhece. É um caso bom para ele: Gustavo Flávio é um legítimo apreciador de charutos, generoso em distribuí-los e ortodoxo no consumi-los. A novela consiste numa série de depoimentos dos principais personagens a Madrake. Chegando ao fim dos depoimentos, o assassino aparece. Mas isto não interessa, apesar do aparente interesse de todos em chegar ao criminoso. A tumultuada vida amorosa do escritor Gustavo Flávio e o depoimento de várias mulheres envolvidas com ele mostram um Rio de Janeiro de frívolos endinheirados, a caçada sexual, a competição pela duvidosa glória do sucesso literário, a corrupção entranhada, a hipocrisia correndo solta e a absoluta falta de valores e sentimentos fortes, as facilidades transformando tudo o que é desejado em tédio; são coisas mais reveladoras do que a identificação do assassino. Não apenas porque montado em cima de depoimentos – o livro é gente falando, quase todo o tempo. São depoimentos, conversas, telefonemas, gravações, recordações. As pessoas gostam de se ouvir, não relutam em fazer comentários seja lá pelo que for. Narcisistas, exibicionistas, auto-referentes, são prisioneiros do próprio ego, dando a impressão de que a premissa do convívio é de que, se a generosidade não for bem compensada, não vale a pena ser generoso.

Os sete contos de “Histórias de Amor” não têm Mandrake nem um arremedo do humor cético de Mandrake. São histórias rudes sobre o amor, na verdade sobre as formas que o amor assume em situações e lugares onde não parece haver lugar para ele. É como na frase de Jean Anouilh, na epígrafe do livro: “Há o amor, é claro. E há a vida, sua inimiga”. Assim como a entendeu corretamente Rubem Fonseca, a vida não tem, no seu avanço turbulento, o objetivo de destruir o amor, mas este não tem forças para detê-la e é esmagado. O amor pode assumir a forma que desejar, mas ele só atinge a escala humana. A vida prossegue em sua marcha inexorável, que não reconhece o amor como essencial ao seu avanço.

Cotidiano

O primeiro conto, “Betsy”, é o mais curto mas descreve com impecável exatidão a agonia de Betsy, acompanhada até último minuto por aquele de quem fora companheira por 18 anos. “Cidade de Deus” é o amor frustrado gerando um sentimento de vingança que não se detém diante de nenhum nível de brutalidade. “Família”, como os anteriores, busca a neutralidade, um texto elaborado para sumir diante da história narrada, o fim de uma família em que apenas os fatos se impusessem. “O Anjo da Guarda” é narrado pelo próprio, um matador que finge ser o protetor de uma mulher mas tem um contrato para matá-la.

A narrativa na primeira pessoa não altera o clima impessoal dos outros contos porque o narrador é ainda mais lacônico que o próprio Rubem. “Viagem de Núpcias” é a história de Maurício e Adriana, vizinhos e companheiros de infância, que se casam e iniciam uma lua-de-mel cara, medíocre e tediosa. Vão descobrir que o amor tem estranhos caminhos. “O Amor de Jesus no Coração” é um conto sobre policiais e não um conto policial. Menina de 12 anos é encontrada morta na Barra da Tijuca; os detetives Leitão e Guedes vão cuidar do caso. E “Carpe Diem”, o conto mais longo, é a velha situação de dois amantes que não suportam mais andar escondidos e resolvem liquidar seus parceiros. Rubem Fonseca está em casa em histórias como esta.

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