“Vultos aparecem na tela escura, pouco nítidos, mas logo percebe-se que uma mulher luta para se livrar de um agressor maior e mais forte. Ela não pede ajuda, apenas dá um gemido rouco quando recebe a primeira punhalada no seio”.
Estas duas primeiras frases de “O Selvagem da Ópera”, de Rubem Fonseca (ed. Companhia das Letras), não deixam dúvidas. Estamos diante da descrição, ou proposta, de um filme que começa com esta cena, assustadora, mas que não passa talvez da imagem de um pesadelo recorrente de Carlos Gomes. Saberemos muito adiante, na página ou cena 174, que Carlos rememora em suas noites de mau sono a cena desgraçadamente verídica do pai enciumado matando nhá Biana, sua mãe. Mas isso não vem ao caso.
Encerrada sua abertura cinematográfica, o espetáculo prossegue adotando um ritmo de pura biografia escrita: “O patriarca da família Gomes, Manuel Gomes da Graça, o Maneco músico, escrivão, alfaiate, casou-se várias vezes e teve inúmeros filhos, mas apenas Carlos e João Pedro são da mesma mãe”.
Pouco depois, movimentando-se de propósito entre a câmera e a caneta antes de chegar à fusão desejada, o autor escreve todo um capítulo intitulado “Isto é um filme”, que começa assim: “Este é um texto sobre a vida do músico Carlos Gomes, que servirá de base para um filme de longa-metragem. Quantas pessoas em nosso país sabem realmente quem é Carlos Gomes? (…) Ao fazer minha pesquisa verifiquei que são muitos os livros sobre o maestro (…) além de centenas de cartas e documentos. (…) Isto é um filme, ou melhor, o texto de um filme que tem como pano de fundo a ópera”.
O capítulo “Isto é um filme” é o único que suspende totalmente nossa crença de estar assistindo a um filme. A menos que seja parte integrante do filme e que o próprio Zé Rubem Fonseca apareça na tela recitando o texto de “Isto é um filme”. Seria um bom momento na tela.
Um dia, quando visitávamos a Sorbonne (refiro-me a um grupo de escritores brasileiros que estava em Paris para o Salon du Livre), fomos convidados, cada um de nós, a dar num palco nossas impressões. Rubem Fonseca, ao chegar sua vez, executou, diante de um auditório cansado de ouvir mau francês, um breve e animado número de “music-hall”. Dançou, sapateou. Foi o único de nós a receber sinceros aplausos
“O Selvagem da Ópera” é um livro-filme ou um livro-ópera, script ou libreto. Um simples livro sobre um músico é difícil de aceitar. O velho Wagner sonhava com aquilo que chamou “Gesamkunstwerk”, ou obra de arte unificada, que seria o trabalho criador amalgamando poesia, teatro, artes visuais e música. Sobretudo, em se tratando de Wagner, música.
O sonho de Wagner, que terá dado um primeiro sinal de vida em 1926 quando a Vitaphone fez um filme vagamente sonoro de “I Pagliacci”, afirma-se no cinema de hoje com a maior desenvoltura. Um “biografilme” como o de Rubem Fonseca já devia estar sendo rodado. Estão vivos na sua trama tanto o Brasil operístico do Segundo Reinado como a sonora Itália do período áureo de Verdi, Wagner (“Lohengrin” vaiado no Scala) e Giacomo Puccini.
Carlos, em febril atividade criadora, tomava então muito vinho e descobria o ópio, o láudano, que lhe agravava o pesadelo crônico, a cena inicial e leitmotiv de uma vida inteira. Com Puccini ele compartilhou uma amante, a diva Haricléia Derclée, que, se não chegou a interpretar a “Fosca” de Carlos, foi, em compensação, a criadora do papel-título da “Tosca”, de Giacomo.
E não vamos, no meio de tantas evocações capitosas da Belle Époque, esquecer que “O Selvagem da Ópera” divulgará a música tão pouco conhecida de Carlos Gomes, de quem o povo brasileiro só saberia cantarolar, ou assobiar, um trecho de protofonia do “Guarani” que serviu durante antes de prefixo musical à “Hora do Brasil” e de citação numa espevitada marchinha carnavalesca de Lamartine Babo.
Só de ópera o maestro campineiro, “caipira e caipora”, como se designava melancólico, nos deixou “A noite do Castelo”, “Joana de Flanders”, “Salvador Rosa”, “Maria Tudor”, “O Escravo”, “Fosca” e, finalmente, “O Guarani”. Além de tudo isso, o maestro deixou um punhado de canções, de hinos de composições várias. E é quase, hoje em dia, como se só tivesse composto “O Guarani”. Ou a protofonia de “O Guarani”.
Em busca da música
Quando Walter Pater escreveu, num de seus estudos sobre a Renascença, que todas as artes aspiram à condição de música, prestou à música a maior e mais justa das homenagens. A era eletrônica não retirou nada da justeza – ou da tristeza, para os não-músicos – da observação de Pater. Mas passou a permitir que a arte de escrever e a de filmar absorvam a da criação musical. Quase na carne, como um transplante de órgão, um enxerto, ou pelo menos na pele, feito uma tatuagem.
Aliás, uma amorosa filha de Carlos Gomes, dona Ítala Gomes Vaz de Carvalho, escreveu sua “A Vida de Carlos Gomes” sentindo, há mais de meio século, falta de um filme sobre o pai. O livro de Ítala foi publicado pela editora A Noite em 1935, um ano antes do centenário do nascimento de Carlos Gomes. Apesar da ingenuidade e da piedade filial com que foi escrito, o livro tem seu encanto, além de ser informativo, de trazer ilustrações fotográficas e reproduzir peças de música.
Dona Ítala reproduz, por exemplo, duas das músicas que Carlos escreveu ainda em São Paulo, antes de sair para o Rio e depois para a Itália. São um “Hymno Acadêmico” e uma canção linda, que se ouve até hoje, de tempos em tempos, e ninguém sabe de quem é. Tem o nome de “Quem Sabe?”, que é o título da letra de Bittencourt Sampaio, mas ninguém sabe que seu nome é esse.
O que se conhece são as primeiras palavras da letra, transmutadas em puro mel musical por Carlos: “Tão longe de mim distante/ onde irá, onde irá meu pensamento?”. Tal como foi gravada por Lenita Bruno num antigo disco de modinhas imperiais, “Tão Longe de Mim” é irresistível.
Mas me afastei do assunto. Eu queria apresentar dona Ítala pressentindo o filme que deve sair de “O Selvagem da Ópera”. Houve uma festa para D. Pedro II em Milão, e um mágico projetou numa parede branca sombras que imitavam cenas do “Rigoleto” e do “Guarani”, o que levou Ítala a escrever depois:
“Fôra como uma antevisão do cinema sonoro de nossos dias, e a venerada figura do imperador enchia a sala com sua imagem bondosa”…Eu sugeriria a Rubem Fonseca que seu filme, colorido, é claro, vibrantemente colorido, contivesse citações do livro de Ítala, em preto-e-branco.
Uma última observação. Carlos Gomes é tão massacrado pela vida – pelo pesadelo, pelos selvagens acessos de fúria, pelo orgulho e, sobretudo, a vida inteira, pelas dívidas, em todos os climas, em todas as moedas – que quase nos parece, como pessoa, intratável, meio antipático. Mas deve ser falsa essa impressão.
Quem contou com a fiel e incansável amizade de homens como Nabuco, Taunay e Rebouças merece pelo menos nosso total respeito. Penso sobretudo em André Rebouças, que esqueceu os próprios sofrimentos para cuidar dos ferimentos do amigo. O grande engenheiro e publicista Rebouças era negro e de uma dignidade pessoal absoluta. Não era súdito e sim amigo de D. Pedro. Mas foi súdito de um amigo desamparado como Carlos Gomes.
Ítala já dá um lugar especial a esse amigo no seu pequeno livro sobre o pai. Mas Rubem Fonseca, sem pedir licença ao leitor-espectador, sem maiores explicações, encerra seu livro-filme com a cena de Rebouças saltando do alto de um penedo para a morte.
Estamos, para este final, na Ilha da Madeira, onde Rebouças se exilara e onde se suicidou. Aos seus pés, a flor que o fascinava na ilha e que descreveu no seu “Diário”, a strelitzia, que fulgura na tela no instante em que o corpo de Rebouças inicia sua trajetória rumo às pedras e ao mar. Acredito que esse último momento, quando filmado, vá além da imagem e acabe em música, uma áspera música própria.
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