O empenho social em si não é uma categoria estética, assim como os dados da realidade imediata não garantem sozinhos a qualidade de uma obra de arte. São matéria que pode compor tanto uma reportagem quanto um romance, um relatório ou um poema, uma obra genial ou medíocre. São contextos que só ganham significação artística quando passam a texto, isto é, quando de meras referências passam a signos estéticos. Mas, quando se dá essa misteriosa passagem, ela pode não só diferenciar, por exemplo, uma notícia de um conto, como possibilitar construir uma obra de arte e às vezes até uma pequena obra-prima, como acaba de acontecer com o último livro de contos de Rubem Fonseca. Feliz ano novo é, do ponto de vista temático, uma coletânea de faits divers da vida diária: mesquinhas ocorrências, histórias sem glória e sem heroísmo que nos jornais ganhariam um canto das páginas policiais. Pessoas deserdadas pela sociedade ou destruídas pelo cotidiano, aparentemente casos patológicos de desvio de comportamento. Aparentemente, pois na verdade o que inquieta no livro é que esse mundo marginal distante se vai aos poucos revelando como nosso próprio mundo, onde os desvios são cada vez mais a norma.
Mas esses significados não são ainda os elementos que fazem deles um grande livro, embora já tragam o mérito de se apresentaram sem aquela pressurosa obviedade que procura dizer: “atenção, estamos tratando da violência”. A principal qualidade está na transformação artística que o autor consegue operar ao nível da linguagem, de uma linguagem que pode ser, como é, comparada à cinematográfica, mas não por se pensar que ela pretenda ser “visual” e sim pelo que tem de cinestésica, metonímica e sintática.
Diante da forte carga emocional dos conteúdos que utilizou, Rubem Fonseca corria o risco de cair na armadilha de uma forma acomodada, ou forma que se satisfizesse na função subalterna de carregadora. Para fugir desse perigo, havia as tentações demagógicas de um experimentalismo gratuito e formal. Ele conseguiu o mais difícil: questionar. E questiona e recria a linguagem, mas sem aquele radicalismo drop-out que acaba fazendo dessa destruição uma nova retórica rapidamente desgastável e consumida. Sua linguagem rejeita o tipo de acomodação que leva certos escritores a lutar contra as estruturas sociais valendo-se das mais anacrônicas convenções literárias e não cai no happening autodestrutivo.
Graças a isso, Rubem Fonseca consegue recolher os ingredientes que compõem o contexto do homem moderno – suas angústias e frustrações – e dar-lhes uma transcendência simbólica que não se encontra nos relatos naturalistas da imprensa, com toda sua precisão de detalhes e verossimilhança. Diariamente os jornais expõem ocorrências semelhantes à que informa, por exemplo, o primeiro conto, que dá título ao livro. No entanto, Feliz ano novo parece ter saído de uma antologia de melhores contos contemporâneos.
Das primeiras linhas, que vão funcionar como sugestão e estímulo, até a saudação final, carregada ao mesmo tempo de esperança e ameaça, tudo se resolve através de uma estrutura dramática que se limita à ação e aos diálogos sobre a ação, ambos conduzidos pelo ponto de vista do narrador, não por acaso um dos marginais, que é também a consciência crítica possível do grupo e da história. O primeiro conto é um exemplo apenas dessa série de quinze primorosas construções.
Nesse mundo de pessoas amesquinhadas pela miséria, pelo tédio ou pela falta de perspectivas, não há nem mais – como nos outros livros de Rubem Fonseca – lugar para o sexo, a não ser mecanizado (“O campeonato”). O grande personagem é a morte, presente treze vezes nos quinze contos. Mas não a morte como redenção ou preocupação metafísica. Rubem Fonseca dessoleniza a morte e a transforma em alternativa corriqueira, gratuita e lúdica, como se fosse a única forma de afirmação para uma vida sem valor. Dessacralizada, vulgarizada, posta ao alcance de todos, a morte deixa de ser tabu para se transformar em totem. Aliás, como na vida real de hoje. Por isso é que, conhecido o poder antecipatório da arte, acaba por se dar razão ao último diálogo do livro:
“- Esses escritores pensam que sabem tudo.
- Por isso que são perigosos”.
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