O acontecimento literário do ano começou finalmente a acontecer: o novo romance de Rubem Fonseca está chegando dia 24 às livrarias, desta feita com a chancela da Companhia das Letras. Seu título sugere, à primeira vista, uma paródia de Milan Kundera: “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”. Não é. Mas seu sésamo está de fato no título, extraído de uma definição do sonho como “um mundo arcaico de vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. O narrador (e herói) dos romances é um cineasta cujos sonhos, estranhamente, não têm imagens, apenas idéias. Um pesadelo o engole logo nas primeiras páginas, tornando o epicentro de uma intriga alimentada pelas atribuições de uma produção cinematográfica internacional (com base numa obra do escritor russo Isaac Bábel) e por uma vertiginosa teia de crimes e perseguições, tecida por uma quadrilha de contrabandistas de pedras preciosas.
Um ponto para quem pensou em Hitchcock. Além de um herói que parece uma bricolagem dos que Hitchcock manipulou em “Janela Indiscreta”, “Intriga Internacional” e “Cortina Rasgada”, o novo e excitante thriller de Rubem Fonseca resolve alguma de suas passagens à maneira do mestre. Nenhuma de forma tão explícita como a tumultuada fuga do narrador e sua namorada de um restaurante da Zona Sul do Rio, no final do oitavo capítulo. Encurralado por um bandido, o casal provoca uma confusão no restaurante para atrair – e ser salvo – pela polícia. Não foi assim que Cary Grant livrou-se de dois bandidos durante um leilão em “Intriga Internacional”?
Hitchcock
Curiosamente, não há qualquer referência direta a Hitchcock em todo o livro. O autor compara alguns de seus personagens ao atores Sidney Greenstreet, Alexander Knox, Burt Lancaster, Richard Widmark e Charles Laughton, tira o chapéu para um dúzia de cineastas (John Huston, Orson Welles, Max Ophuls, Stanley Kubrick, Henry Hathaway, Ingmar Bergman, Istvan Szabo, Abel Gance, Eric Rohmer, Wim Wenders, Allan Dwan, Roberto Rosselini, Rainer Fassbinder) – deixando Hitchcock oculto por elipse. A homenagem a Akira Kurosawa (pág. 115) vale apenas pela a intenção, pois quem dirigiu o filme (“Harakiri”) em que o ator Tatsuya Nakadai “abre a barriga com um pedaço de bambu” não foi Kurosawa, mas Masaki Kobayashi.
Dificilmente haverá entre nós escritor mais cinéfilo do que o mineiro (de Juiz de Fora) Rubem Fonseca, 63 anos de idade, a maior parte deles vivida no Rio e, sobretudo naquelas salas escuras onde as vastas emoções e os pensamentos imperfeitos são projetados numa tela. Tinha apenas dois anos quando foi à sua primeira sessão de cinema, levado pela babá. Ela namorava o bilheteiro, o que proporcionou ao escritor uma convivência diária com as imagens em movimento.
Até hoje ela persiste. Já a usou profissionalmente, quando foi crítico da revista “Veja”, no final dos anos 60, e mais do que se suspeita em sua obra literária. Em seus contos, a influência do cinema quase que só transparece na linguagem ágil e elíptica do autor. Há um médico que se parece com Carlitos em “Os Prisioneiros”, uma frustrada ida ao cinema em “Madona”, um cartaz do filme “Bom-Dia Tristeza” em “Relatório de Carlos”, e uma acusação ao escritor de “Corações Solitários” de que teria plagiado um filme italiano – o que é pouco se comparado com as referências acumuladas em seus romances. Em “O Caso Morel”, um personagem roda filmes em super-8 e uma mulher sonha com a carreira cinematográfica. Wexler, o sócio de Mandrake em “A Grande Arte”, herdou seu nome do diretor de fotografia Haskell Wexler. Fala-se, em “Bufo & Spallanzani”, de Clara Bow e Jean Harlow, de filmes dublados, e um encontro é marcado na porta do cine Art-Palácio, em Copacabana.
Por coincidência, é da época (1927) em que a babá o viciou em cinema um dos filmes que Rubem Fonseca mais venera: “Aurora” (Sunrise), de F. W. Murnau. Páreo duro com “Cidadão Kane”, de Welles, ainda no topo das suas preferências. Murnau não é o único alemão do seu olimpo cinematográfico. Embora coloque em terceiro lugar outro filme americano (“Blade Runner”), Fassbinder ocupa o quarto com as catorze horas de “Berlin Alexanderplatz”. Zé Rubem (é assim que os amigos o tratam) a viu de uma sentada. “A maior prova de apreço que se pode dar a um filme”, justificou-se, “é assisti-lo do começo ao fim, sem interrupções. Gostou tanto da telessérie de Fassbinder (em parte, reconhece, por admirar sua fonte de inspiração, o romance de Alfred Noeblin) que incluiu a Alexanderplatz no roteiro de aventuras do seu cineasta “a clef”.
Não é qualquer fechadura que a chave entra. O cineasta de “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” nada tem a ver com qualquer um dos nossos, nem com qualquer um dos outros. Como a maioria dos narradores e protagonistas de Rubem Fonseca ele é um retrato sublimado de Zé Rubem.
Herói único
Um mesmo herói atravessa toda a ficção do nosso escritor número um. Ele só muda a profissão. E em qualquer uma – seja ele um detetive, como o “Mandrake de “A Grande Arte”, ou um escritor, como o Gustavo Flávio de “Bufo & Spallanzani” – exibe as mesmas características: é paródico, inteligente, culto, cosmopolita, cético, irreverente, pernóstico e, acima de tudo, garanhão. As mulheres caem aos seus pés como costumam cair aos pés de Philip Marlowe, o irresistível “private eye” sublimado por Raymond Chandler. Algumas morrem antes de ser seduzidas por ele. Quase sempre nas primeiras páginas. “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” não é uma exceção. A exemplo de Hitchcock, Rubem Fonseca adora se repetir.
A cisma do cineasta com os seus sonhos sem imagens é uma piada privada. Ou melhor, um paradoxo privado. Rubem Fonseca é incapaz de pensar um livro em termos de idéias e palavras. “Tudo o que escrevo”, me confessou, “aparece primeiro sob forma de imagens. Eu escrevo com a ação, os movimentos dos personagens e a disposição dos objetos em cena. Só depois é que penso no que eles vão dizer”.
Em seu novo romance, há rubricas (“pan sobre a sala”) e indicações a respeito do comportamento dos personagens que o aproximam de um roteiro cinematográfico. E freqüentes digressões sobre cinema que o avizinham do que certos críticos chamam de “ficção teórica”. Com um fascinante especialista em literatura russa, chamado Bóris Gurian, o protagonista discute as diferenças básicas entre um filme e um romance – de resto demonstradas na prática no capítulo de abertura, quando só nos parágrafos finais o leitor fica sabendo como Angélica é fisicamente (num filme, isso seria quase impossível).
Mais tarde, a uma irredutível roteirista alemã, chamada Veronika (outra homenagem a Fassbinder) o cineasta tenta vender a tese de que bons diretores também podem ser bons roteiristas. Pouco adiante, Plessner, o produtor alemão que o convidou para dirigir “Cavalaria Vermelha”, lhe pergunta: “Você não tem inveja dos escritores? Para criar um livro eles gastam apenas papel e tempo, os personagens todos trabalham de graça, fazem coisas que os atores de cinema não saberiam fazer, ou se recusariam a fazer. Produzem as cenas mais custosas gastando apenas palavras”.
O cineasta não responde. O silêncio é eloqüente. Eis uma boa razão para explicar por que, gostando tanto de cinema, Rubem Fonseca nunca se meteu a dirigir um filme. Há outra. “Aos nove anos”, ele conta, “eu ganhei uma máquina de escrever e nunca mais parei. Se me tivessem dado uma câmara, tudo talvez tivesse sido diferente”. E mais outra: o seu gosto por uma tela foi de vez saciado com a invenção do microcomputador.
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