Literatura – de Assis Brasil. Jornal do Brasil, 18/10/63.

Ontem lamentávamos a escassez de bons livros de ficção durante este ano. Podemos agora destacar o volume de contos de um estreante, Rubem Fonseca (Os Prisioneiros – Edições GRD – 63), no nível de qualidade dos poucos lançamentos. Sua presença como criador, com algo de originalidade, leva-nos a destacá-lo com entusiasmo. A própria conformação de sua técnica, múltipla, independente, mostra-nos um escritor de recursos vários, desde os de estilo aos de invenção. Podemos aproximar Rubem Fonseca, para melhor estudarmos o seu aparecimento, de Ivan Ângelo (Duas Faces), outro estreante de qualidade. Fizemos essa aproximação por sentirmos que Rubem Fonseca, como o outro autor, domina com inteira liberdade o seu instrumento de expressão. O que Ivan Ângelo tem de cerebral, de técnico, em Rubem Fonseca é vivência, riqueza de detalhes e dados tirados mais do mundo interior, da fábula da imaginação. Como Ivan Ângelo, o autor de Os Prisioneiros domina a linguagem de seu mundo – mais versátil na apreensão desse mesmo mundo, mais incisivo na crítica desse mundo, mais cruel e mais profundo.

A aproximação dos dois contistas deve-se também a um certo intelectualismo que localizamos em ambos. O de Ivan Ângelo é um intelectualismo formal, algo medido e meticuloso; o de Rubem Fonseca é um intelectualismo afetivo, algo de sátira e drama. Nenhum dos dois, no entanto, é prejudicado pelo que podemos chamar de acessório da criação: aquilo que o escritor adquire, observa e adota para retocar o seu mundo. Em sendo mais rica a imaginação, seus contos por vezes sugerem o espaço de uma narrativa mais longa, como é o caso de O Inimigo, e seus recursos são sem dúvida alguma mais novelescos do que os de Ivan Ângelo; talvez por este ser mais introspectivo, mais monocórdio.

De fato Rubem Fonseca é um narrador mais extrovertido, mais episódico; domina bem o diálogo (às vezes seus contos – muito bem conformados em seu espaço – são peças em um ato). O trabalho que dá título ao volume poderia ser transposto para o palco sem modificações, e cultivando a ação externa nunca cai nos lugares-comuns do academismo literário. Não resolve as situações com os costumeiros recursos. Da morbidez de um Kafka à sátira de um Thurber, seu mundo se identifica não bem por influência literária, mas por aquela aproximação que une os artistas e faz de sua sensibilidade o historiador da condição humana.

Entre os doze trabalhos de Rubem Fonseca, enfeixados em Os Prisioneiros, podemos destacar Duzentos e Vinte e Cinco Gramas, pelo teor dramático, pelo seu desenvolvimento, pelo mistério dos personagens; destaque-se que uma de suas grandes qualidades reside exatamente em manter um certo halo de mistério, o que aproxima Rubem Fonseca de um tipo de literatura fantástica, encabeçada por Poe, e o afasta – em sendo um narrador episódico – daqueles narradores que são mais repórteres do que criadores. Em suma: Os Prisioneiros é um livro que se recomenda e ficamos satisfeitos em apontá-lo como um dos bons lançamentos do corrente ano.

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