Com A Coleira do Cão, o sr. Rubem Fonseca vence brilhantemente a prova do segundo livro, muito mais perigosa e repleta de ciladas que a do primeiro. (…) Se figurarmos os nossos autores de hoje em seus lugares respectivos na escada da glória, nada mais fácil do que perceber que, com o sr. Rubem Fonseca, a literatura brasileira ganhou um dos seus escritores mais importantes, pois é evidente que ele se inscreve não somente entre os que têm ou podem ter um eventual interesse por si mesmo, no interior dos seus limites individuais, mas, também, entre os que acrescentam alguma coisa ao gênero que praticam. O sr. Rubem Fonseca renova o conto, não em tais ou tais aspectos da técnica literária, facilmente identificáveis e catalogáveis no glossário da crítica e da nova crítica, mas na totalidade do seu universo próprio. O conto do sr. Rubem Fonseca é, antes de mais nada, uma atmosfera, um mundo particular; mas esse mundo é o mundo. É o mundo hipostasiado sob as espécies da cidade do Rio de Janeiro e seus habitantes, com a sua maneira característica de pensar, de falar, de agir, de sofrer ou de resistir ao sofrimento. “A Força Humana”, por exemplo, não é apenas um dos melhores contos brasileiros até hoje escritos; é, também, um dos melhores contos da literatura universal. Eu não diria o mesmo de “A Opção”, ainda que apresente todas as qualidades de “escrita” peculiares ao autor; falta-lhe, entretanto, “alguma coisa” para ser um conto, quer dizer, para ser algo mais do que um exercício de literatura. É o que existe de sobre, ao contrário, em “Madona”, que bem mereceria o nome de “conto do Rio de Janeiro”, escrito com fidelidade psicológica e lingüística quase inconcebível, cheio de achados felizes, extravasante de imaginação e malícia, respondendo, em certo sentido, mais à imagem que a cidade se faz de si mesma do que àquilo que é na realidade.
Como toda grande obra de arte, os melhores contos do sr. Rubem Fonseca são uma unidade, um bloco único, resistindo, por isso mesmo, às citações exemplificativas. “A Força Humana” ou “Madona” adquirem significação somente quando lidos na sua totalidade, eu diria na sua luz própria. De qualquer forma, e apenas para documentar de certa maneira o estilo do autor, eis a cena do jogo de bola na praia (“Madona”): “Eu queria ganhar a partida. Vamos pra cabeça, disse para Ricardo. Mas o jogo não era mole, não. Luís jogava fino. O toque de bola dele era uma coisa de doido, dava a impressão, pela virada do pulso que a bola ia para frente, reta, mas enviesava e pingava rente à rede, no meu lado. Comecei a ficar nervoso, a perder saques. Brigava com Ricardo: te atira, dizia eu, você parece uma camélia; não que eu jamais tivesse visto uma camélia, é aquela história de dar dois suspiros e depois morrer. Nossos corpos brilhavam de suor. Eu estava cansado pra burro e os outros também estavam: quando alguém caía no chão abria os braços e ficava estendido alguns segundos, mas a batida era tão feroz que por menor que fosse o tempo que o sujeito ficasse estendido já dava para aliviar um pouco a falta de ar, a dor no baço, o tropel do coração. Comecei a sentir a partida perdida quando estava 10 x 10. Eles fizeram quatro pontos em seguida aí nós pegamos a vantagem e eu fui para o saque, resolvido a apelar para a ignorância…”
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