Lygia: “Sou uma testemunha das coisas ruins do meu tempo”, de Paulo Moreira Leite. Folha de S.Paulo, 17/6/77.

Os ratos entraram pela cozinha, fazendo um barulho muito estranho – e só quem tinha um ouvido muito apurado, como o Secretário do Bem-Estar Público e Privado, homem firme tanto na Revolução de 32 como na de 64, é que pôde perceber que alguma coisa estava acontecendo, numa casa de campo onde diversas autoridades, inclusive um técnico norte-americano, iam realizar o VII Seminário de Roedores.

Esta é a história de “O Seminário dos Ratos”, conto que dá o título ao último livro de Lygia Fagundes Telles, lançado ontem à tarde na Livraria Cultura (avenida Paulista. 2073). O Seminário não se realiza, a casa é ocupada pelos ratos – que devoram os homens deixando um único sobrevivente.

- Meu dever é testemunhar as coisas ruins do meu tempo – diz Lygia -, as boas eu deixo para Grande Hotel, Capricho, essas coisas.

“Eletrodomésticos. Eletrochoques.” Isto passa pela cabeça de Maria Emília, uma professora aposentada, 64 anos e meio, que reflete sobre a televisão, a família e a moral no conto “Senhor Diretor”. Uma garrafa de coca-cola se transforma num fálus, algumas páginas depois a professora pergunta: “não tem mais polícia nessa terra?” (…) “meus Céus, mas onde anda o Juizado de Menores?” Lygia fala sobre o livro:

- Foi duro trabalho de pesquisa, até encontrar a forma mais adequada para dizer as coisas. Para cada conto, consegui um jeito diferente. Um guarda-roupa de vários feitios.

Esta mulher, sempre uma insatisfeita com seus livros, diz que “ainda” gosta de “O Seminário dos Ratos”, que está chegando às livrarias. Depois de tanto tempo que passou com aquela disciplina dura, dormindo e acordando cedo, bebendo pouco mas fumando muito, ela gosta das histórias, fala sobre elas, explica, interpreta. Mas, daqui a alguns meses começa a botar defeito, quer mudar o começo, o meio, o fim de cada história que escreveu. Como fez com os contos de “Antes do Baile Verde”, bastante modificados na segunda edição.

“As Meninas”, por exemplo: foram três anos de esforço, duas versões escritas. Mas só quando terminou a terceira é que gostou. Agora, quase que pega para mudar algumas coisas, mas é mais difícil mexer no encadeamento de um romance, por isso desistiu. Mas só por isso:

- Escrever é um corpo-a-corpo com a palavra – diz.

Uma vez, viu uma luta de boxe numa televisão, estava em Buenos Aires para dar uma conferência (“nas fotografias eu sempre apareço falando, mas um escritor deve estar quieto”), então achou que o escritor é mesmo um lutador, “os empresários são os editores, ele precisa prosseguir mesmo quando o público não está ajudando”. Está nessa luta desde menina mesmo, desde a infância marrom e verde, terra e árvores, e gramados, numa grande casa em Sertãozinho, no interior de São Paulo, com muitos cachorros.

Já escrevia histórias em cantos dos cadernos, era uma menina que estava sempre de pé machucado, “quase selvagem, lembro de mim, com um pano enrolado no dedo”. Depois veio para São Paulo fazer o ginásio, terminou e foi fazer Educação Física porque era pré-tuberculosa. Nunca exerceu a profissão, mas se formou, gostava muito de correr, era boa no revezamento 4x400m. Também tinha uma boa cortada com o braço direito, subia na rede e batia com força no jogo de vôlei, que só abandonou ha pouco tempo, na ACM. Agora, faz ginástica todo dia.

Na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, nos anos 40, estudavam 400 rapazes e 6 moças: Irene, Isis, Isolda, Solange e Maria Aparecida. A sexta era Lygia: uma vez, escreveu “safado” num conto. Foi um escândalo: o pai chegou em casa, pegou o dicionário para lhe mostrar o que isso queria dizer.

Depois, eram as passeatas: o pessoal punha um lenço na boca (expressando a falta de liberdade) e saía pelas ruas em passeata, enfrentando cavalos, tiros e bombas da polícia do Estado Novo: no meio, lá estava Lygia. Como agora, poucos meses atrás quando foi a Brasília entregar o Manifesto dos Intelectuais ao Ministro Armando Falcão. Nessa época, o primeiro livro: Praia Viva. Não gosta nem um pouco dele:

- Eram textos muito ingênuos, eu era virgem em todos os sentidos. Foi a partir do Cacto Vermelho, que escrevi no Rio, quando já tinha me casado, que comecei a escrever mais seriamente.

Agora, muito preocupada com o autor nacional (“devemos usar todas as armas para defendê-lo dos invasores estrangeiros, caso contrário sempre seremos um país colonizado”) sempre procurando manter sua independência em relação a correntes políticas. Apesar disso, Lygia explica sua forma de ver o papel de escritor:

- Minha luta é pela palavra. Através dos textos, levo a luta de todos nós, uma luta muito antiga, defendendo e reivindicando a liberdade. É como aquela corrida de revezamento, de passar o bastão. É assim que vejo a relação entre a minha geração e a juventude de hoje.