Lygia, sempre querida:
Você se livrou da sua gripe em Lindoia? Espero que sim. Me assustou um pouco você dizer que seus pulmões não são brilhantes. Excesso de cigarro, talvez? Olhe bem isso, nada de exigir demais do irmão-corpo, e também nada de embalá-lo com a ilusão de fumar, que vai destruindo devagar o edifício da gente.
Ando descrente dos médicos e agora só confio no Dr. Tempo, na Dra. Paciência e na reza de você ao quase beato Anchieta; menos pelo beato do que por você, amiga-irmã do fundo do coração. Vou me adaptando à convivência com essa nevralgia do trigêmio, resultante do herpes, e penso que Maria Julieta suporta coisas muito maiores e mais trágicas, com a possível resistência, que tem momentos de queda, mas depois se apruma e se reteza. É a vida!
Estou muito curioso de ver a sua Disciplina do Amor, cujos trechos por mim conhecidos são notáveis de concisão e força. Há de ser um livro duro, cortante, massacrante, que a gente ama com amor doloroso. Não sei até que ponto seu filho terá razão, aconselhando a identificação nominal com a personagem do diário. Não há mal em que você assuma, como ele disse, mas também uma verdade eternamente válida em arte é que eu sou outro. E esse outro tem o nome dele, que não é necessariamente o meu. Por mim (mas não quero influenciar nada, examino apenas teoricamente a questão) eu poria o nome inventado, justamente para dar idéia de invenção a uma obra literária. Podemos confessar tudo, até o que não confessamos a nós mesmos, pelo recurso da transposição artística. Quem não sabe que Machado de Assis foi um assassino e um violador nato, apesar de nunca o haver sido senão através de seres imaginários? O que há de perversidade naquele velho! E tão respeitável cá fora, o bandido… Ele assaltava casas, fazia de vampiro de almas, destruía, desmoralizava os melhores sentimentos… e foi um digno fundador da Academia de Letras!
Repito, os fragmentos são admiráveis. Que venha depressa o livro. E que todos dois tenhamos saúde, se não for a ideal, pelo menos a razoável, você com os seus pulmões livres de qualquer agressão, eu com o meu herpezinho atípico, sempre pertos um do outro, sempre fraternos, sempre amorosos de puro amor.
Beijos, saudades do
Carlos
carlos drummond de andrade (c) graña drummond
www.carlosdrummond.com.br
Mais cartas…
A hora do cansaço
Amiga amada
Carlos desenha Carlos
Carlos desenha Lygia
Deste jardim selvagem
Lygia caríssima
Lygia muito do coração
Lygia querida e lembrada
Lygia querida não estou em Atenas
Lygia querida
Procuro Lygia
Que me acode à cabeça e ao coração
Rio, Natal
Uma notícia irrompe desta árvore
Você sabia que a lua







