Lygia, querida, não estou em Atenas (que um diplomata disse ser a Barra do Piraí com a Acrópole) mas no fundo de um poço de chateação e dores chamado herpes zoster, ou cobreiro. E estou nele desde 18 de abril… Dia 19 não tive forças para mandar a você uma palavra de ternura, era bolhas por todo o lado esquerdo do rosto, e uma hemorragia do ouvido esquerdo também. Miséria corporal que se arrasta até agora, entre médicos, benzedeiras e desânimos. Dou conta do serviço do jornal por honra da firma, porém a vontade é de apagar a luz, fechar os olhos, ficar inerte, na condição de pau ou de pedra.
Perdoe a má disposição de espírito. Te quero muito e espero dias melhores para pensar em você como num bálsamo, numa estrela, num raio de sol. Aguardo a Disciplina do Amor como um presente do céu. Todo o carinho do
Carlos
Rio, 17.V.80
(escrito num cartão postal de Atenas, Vista da Acrópole)
carlos drummond de andrade (c) graña drummond
Mais cartas…
A hora do cansaço
Amiga amada
Carlos desenha Carlos
Carlos desenha Lygia
Deste jardim selvagem
Lygia caríssima
Lygia muito do coração
Lygia querida e lembrada
Lygia querida
Lygia sempre querida
Procuro Lygia
Que me acode à cabeça e ao coração
Rio, Natal
Uma notícia irrompe desta árvore
Você sabia que a lua






