Vida pública – Nova metafísica (26/8/98)

“Deus não joga dados com o Universo”, disse Einstein, para nos assegurar que existe um plano por trás de, literalmente, tudo, e que o comportamento da matéria é lógico e previsível. A física quântica depois revelou que a matéria é mais doida do que Einstein pensava e que o acaso rege o Universo mais do que gostaríamos de imaginar, mas fiquemos com a palavra do velho. Deus não é um jogador, o Universo não está aí para Ele jogar contra a sorte e contra Ele mesmo. Já os semideuses que controlam o capital especulativo do planeta Terra jogam com economias inteiras e podem destruir países com um lance dos seus dados, ou uma ordem dos seus computadores, em segundos.

Às vezes eles têm uma cara, e até opiniões, como o Soros, mas quase sempre são operadores anônimos, todos com 28 anos, e um poder sobre nossas vidas que o Deus de Einstein invejaria. Deus, afinal, é o ponto supremo de uma cosmogonia organizada, não importa qual seja a sua religião. Todas as igrejas – a não ser a da Alcachofra Mística, fundada anteontem, provavelmente em Brasília – têm metafísicas antigas e hierarquizadas. Todos os deuses podem tudo, mas dentro das expectativas e das tradições das suas respectivas fés. Até a onipotência tem limites.

A metafísica dos operadores, dos deuses de 28 anos, é inédita. Não tem passado nem convenções. É a destilação final de uma abstração, a do capital desassociado de qualquer coisa palpável, até do próprio dinheiro. Como o dinheiro já era a representação da representação do símbolo de um valor aleatório, o capital transformado em impulso eletrônico é uma abstração nos limites do nada – e é ele que rege as nossas vidas. Bem feito para os neoliberais, que pensavam ter liberado o mundo de uma ilusão inútil, a da viabilidade de uma sociedade solidária, e se vêem prisioneiros do invisível, de um sopro que ninguém controla, da maior abstração de todas.

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