Zona norte, zona sul

Aconteceu o seguinte: Vânia finalmente cedeu e concordou em se encontrar com Rogério num apartamento em Copacabana. Mas insistiu na segurança absoluta. Ninguém poderia vê-la chegar ou sair do prédio. Se o seu marido descobrisse, se o seu marido sequer desconfiasse… Rogério jurou que ninguém a veria.

- A rua tem pouco movimento. O porteiro é pago por mim para não enxergar nada. Os vizinhos de um lado só estão em casa de noite. Os vizinhos do outro lado da rua nunca aparecem. Acho até que o apartamento está vazio. Não tem perigo. Confia em mim.

Combinaram a Operação Encontro – ou a Operação Até Que Enfim, como a chamou Rogério – minuciosamente. Ela diria ao marido que iria a Copacabana fazer compras. Contando o tempo de ida e volta ao Grajaú, de ônibus, eles teriam duas horas inteiras. Das seis às oito. Ela chegaria ao prédio sozinha, de óculos escuros e lenço na cabeça, e subiria ao seu apartamento. Ele estaria esperando. Certo? Vânia ainda hesitou.

- Ai, meu Deus. O Antônio. As crianças… Se alguém descobrir.

Ninguém ia descobrir. Ninguém ia vê-la. Teriam duas horas maravilhosas. Longe do mundo, longe dos olhos e das línguas do Grajaú. Vânia suspirou e cedeu. Seis horas, então.

Às seis horas, Vânia bateu na porta do apartamento de Rogério. Além dos óculos escuros e do lenço na cabeça, usava a gola do casaco virada para cima e uma manta tapando o nariz e a boca. Todos tinham se virado na rua para olhar aquela mulher tão agasalhada, apesar do calor, e esforçando-se para não ser notada.

Ela estava nervosa. “Ai meu Deus! Se o Antônio sabe…”

Rogério a acalmou. Levou-a para o quarto. Começaram a tirar a roupa. Nisso, ouviram um rebuliço no corredor. Gritos, correria. Vânia arregalou os olhos.

- É o Antônio!

- Não pode ser. Calma. Vou ver o que é.

Rogério já estava no meio da sala, de cuecas, quando ouviu baterem na porta. Com violência. Hesitou. Não podia ser o marido. Impossível. E aquela barulheira… Só se ele tivesse trazido todo o Grajaú com ele. Uma expedição punitiva pela honra do bairro. Vou ser linchado, pensou Rogério. Desmembrado pela classe média. Um mártir da nova moral. O primeiro santo pagão da Zona Sul… E então, entre batidas mais fortes na porta, ouviu:

- Abra! É a polícia! Abra senão arrombamos a porta!

Rogério abriu a porta. Foi jogado contra a parede por uma avalancha de homens armados de metralhadora, aos gritos. “Revistem tudo. Vejam na cozinha! Rápido!” Rogério gritou mais alto. Queria saber do que se tratava. O inspetor disse que tinham invadido o apartamento do Gatão, ao lado do seu, mas ele conseguira fugir pela área de serviço. Estava ali. E eles o pegariam. Gatão, o bandido mais procurado do Rio. Desta vez não escaparia.

Os policiais que entraram no quarto abriram a porta de um armário e encontraram Vânia, seminua e apavorada.

- Aqui está ele! – gritou um policial, exaltado, antes de se dar conta que não era o Gatão, era uma mulher, e soltá-la.

Vânia saiu correndo do quarto. Atravessou gritando a sala sem saber se tapava o rosto ou os seios. Entrou na cozinha e caiu nos braços do Gatão.

Quando Rogério e o inspetor irromperam na cozinha atrás dela, Gatão a segurava pelas costas e tinha a ponta de uma faca encostada na sua garganta.

- Mais um passo e eu furo! Mais um passo e eu furo!

O inspetor fez um gesto para deter os policiais que entravam na cozinha. Falou:

- Certo, Gatão. Certo. Não fura a dona. Vamos conversar.

Gatão mandou todo mundo sair da cozinha. Se comunicaria com eles por intermédio de Vânia. Enfiou a cabeça de Vânia pela porta entreaberta da cozinha e mandou que dissesse que ele exigia um carro para sair dali. Senão a degolaria. Vânia gaguejou. Não conseguia falar. Rogério disse:

- Calma, Vânia. Calma. Confia em mim.

Vânia finalmente conseguiu transmitir a exigência do bandido. O inspetor mandou dizer que estava certo. Providenciaria o carro. Mas precisava de tempo. Chegaram fotógrafos e repórteres. Quando Gatão empurrou a cabeça de Vânia para fora da cozinha outra vez, já havia uma equipe da TV com câmara portátil e refletores dentro do apartamento.

- E-ele di-diz que espera cinco minutos e s-só! – disse Vânia, apertando os olhos por causa dos refletores.

O repórter da TV colocou um microfone perto da sua boca. Gatão puxou Vânia para dentro da cozinha. Os repórteres entrevistaram Rogério. Quem era a moça? “Uma amiga…” Namorada? “Mais ou menos”.

O inspetor mandou dizer ao Gatão que o carro estava pronto. Gatão saiu da cozinha com um braço em torno da cintura nua de Vânia e com a faca no seu pescoço. Se alguém se mexesse, ele furava.

- Calma, Vânia. Calma. Confia em mim – disse Rogério. Tinha os olhos arregalados.

Gatão desceu com Vânia pela escada. A câmara da TV seguiu atrás. Na rua havia uma multidão. Um policial ia na frente afastando os curiosos.

- Para trás, senão ele fura a dona!

- É o Gatão! É o Gatão. Esse ninguém pega.

Gatão entrou com Vânia no carro. Mandou que o carro arrancasse.

* * *

No Grajaú, as crianças gritaram:

- Papai, olha a mamãe na televisão!

* * *

Em algum ponto do Estado do Rio, Gatão mandou que o carro parasse. Deu ordens ao chofer para apagar os faróis, esperar 15 minutos e depois dar o fora. Senão ele furava a Vânia. Desceu com Vânia do carro e a puxou através de um matagal na escuridão.

- Eles nunca vão me pegar. Nunca. Vou desaparecer.

Quando Gatão largou o pulso de Vânia e disse que ela estava livre e que arranjasse uma maneira de voltar para casa, Vânia pensou no Antônio, pensou no Grajaú, e suplicou:

- Me leva com você! Me leva com você!

Hoje vive com Gatão em Rezende e jamais o trai. Aprendeu sua lição.

* * *

Ou então: Vânia só chegou em casa no outro dia de manhã. Pronta para tudo. Pronta para morrer. Merecia tudo que o Antônio faria com ela. Na calçada, em frente à sua casa, ouviu o comentário de uma vizinha:

- Aí, hein, Vânia? Na televisão.

As crianças vieram correndo, excitadas:

- Mamãe! Você apareceu na televisão!

E atrás das crianças veio o Antônio, orgulhoso, sorridente.

- Na televisão, hein? Sim senhora. Parecia a Dina Sfat!