Um

Don Francisco de Goya Lucientes estava me esperando no aeroporto de Barajas, em Madrid. Colocara-se atrás do homem que segurava um papel com o meu nome, para não se enganar de recém-chegado. Não precisava. Eu o teria reconhecido. Pelos seus auto-retratos, e porque ele era a única pessoa no aeroporto que estava mortal há 168 anos. Parecia ótimo, para um morto. Não estendeu a mão para me cumprimentar. Quis me poupar do vexame de ser visto apertando a mão do ar.

Também não precisava ter se preocupado. No mesmo avião da Varig que nos trouxera, a Lúcia e eu, do Rio a Madrid naquele início de outubro de 1996, viajavam o Romário e sua mulher e nada desviaria a atenção de todo mundo no aeroporto de cima do casal. Nem um encontro com um fantasma. Mesmo assim, Goya e eu nos cumprimentamos com discretos acenos de cabeça. Depois ele fez
sinal de que nos esperaria no carro.

O homem que segurava o papel com meu nome era don Jesús Torrijos, motorista do ayuntamento de Madrid que nos acompanharia durante toda a visita. Um espanhol prototípico, retaco, com a cara e a barriga de um daqueles velhos toureiros que comentam o estilo do touro no ouvido do matador. Sua função conosco seria mais ou menos parecida. Além de ficar à nossa disposição como motorista, Jesús se revelaria um acompanhante atencioso e um valioso conselheiro. Dias antes ele recebera, no mesmo aeroporto, o Joaquim e a Iria. Não tínhamos nenhum programa preestabelecido. Nosso único compromisso era “estar” em Madrid, e para isso podíamos contar com a sua simpática ajuda. “Jesus é o nosso guia”, diria o Joaquim, sempre que surgia uma dúvida sobre que direção tomar durante a nossa estada. Nunca nos arrependemos dessa simples fé.

Os fantasmas, felizmente, não guardam as seqüelas da vida. Goya ficou completamente surdo aos 46 anos, mas seu fantasma não só ouvia tudo que eu dizia como parecia entender perfeitamente meu parco espanhol. Nossa conversa imaginária começou no carro, no caminho do aeroporto para o hotel. Expliquei que o fato de estarem comemorando os 250 anos do seu nascimento com diversos eventos em Madrid era uma das razões para eu estar ali, e de tê-lo convocado para me acompanhar. Ele dispensou meu pedido de desculpa pelo incômodo com um gesto. Estava acostumado a ser evocado por admiradores em visita a Madrid. Era um fantasma cada vez mais solicitado, à medida que sua vida movimentada e sua obra revolucionária despertavam novas curiosidades. Lembrei-me que havia uma controvérsia a respeito da sua cabeça. Não há certeza de que ela esteja junto com os seus outros restos mortais na igreja de San Antonio de la Florida. Goya morreu no exílio, em Bordeaux, na França, em 1828. Seus restos foram trazidos para Madrid em 1880 e só foram levados para seu destino final em 1919. Em algum ponto desse trajeto a cabeça teria desaparecido. Outros dizem que Goya teria pedido a amigos que depois de sua morte sua cabeça fosse enterrada em Madrid junto com um pé da duquesa de Alba, supostamente seu grande amor. Hesitei, depois decidi que não seria educado perguntar sobre a duquesa e seu pé, ou agradecê-lo por ter juntado cabeça e corpo só para me receber. Ainda não tínhamos tanta intimidade.

Não, respondo ao sr. Jesús, não é a primeira vez que viemos a Madrid. Minha primeira vez foi em 1959, com meus pais. Ficou uma impressão difusa de avenidas largas e belos parques e a lembrança do nosso hotel, perto do Museu do Prado, a principal atração da cidade para o meu pai, então na sua primeira visita à Europa. Um dia caminhei do hotel até o estádio do Real Madrid para ver jogar o lendário time que tinha o francês Koppa, o argentino Di Stefano, o húngaro Puskas e o espanhol Gento no mesmo ataque. Depois eu contaria isso ao sr. Jesús e ele faria o gesto circular com a mão virada para cima usado internacionalmente para descrever a excelência que transcende as palavras. Mas ele não simpatiza nem com o Real Madrid nem com o Atlético, que dividem a torcida da cidade. Diplomata, diz que torce pelo time amador do seu bairro, e prefere as touradas.

Voltei a Madrid pela primeira vez em 71, com a Lúcia. Nosso hotel era no centro. Chegamos num sábado à noite. Lembro que esperamos mais de cinco minutos na beira da calçada até podermos atravessar a multidão em movimento para chegar com as malas à porta do hotel. Agora é outono mas ainda não faz frio e prevejo que um dos espetáculos que nos espera em Madrid é o simpático hábito mediterrâneo de conviver na rua e de usá-la como uma extensão da sala de visitas. Naquele remoto sábado de 25 anos atrás, parecia que toda a população da cidade tinha decidido passar pela frente do nosso hotel ao mesmo tempo.

Qual é a população atual? Contando toda a chamada Comunidad Autónoma de Madrid, perto de 5 milhões de pessoas, nos informa o sr. Jesús.

“Quando vim de Zaragoza a Madrid pela primeira vez, tinha 17 anos” conta Goya, olhando pela janela do carro que agora alcança os arredores da cidade. “A população então era de uns 150.000 e isto aqui, claro, era tudo campo.” Ele faz uma careta quando passamos por um exemplo particularmente doloroso de arquitetura contemporânea, depois continua. “Vim tentar ganhar um dos prêmios de pintura da Real Academia de Bellas Artes de San Fernando. Uma bolsa para estudar em Roma. Não ganhei”. Pergunto em que ano foi isso. “1763”, responde. Depois, vendo que eu me esforço para situar a data, acrescenta: “Bach morreu em 50, Napoleão nasceu em 69”. Certo.

Madrid fica no centro geográfico da Espanha. Com seus 646 metros acima do nível do mar, é a capital mais alta da Europa. O ar da cidade é famosamente limpo mas as temperaturas são extremas. Há um dito popular madrileno que fala em “nove meses de inverno e três meses de inferno”. Deve ser exagero espanhol, mas as melhores épocas para visitar a cidade são a primavera e o outono. Mesmo no outono, como agora, impressiona a secura do ar. Sinto a secura nos lábios. Nas quase duas semanas em que conviveremos em Madrid não serão poucas as vezes em que Iria e eu compartilharemos o seu batom de cor neutra.

O aeroporto de Barajas fica a nordeste de Madrid. Entramos na cidade “por cima”. O sr. Jesús nos aponta lugares de interesse turístico, mas o fantasma do Goya fala ao mesmo tempo. “Quando vim definitivamente para Madrid, em 1774, a cidade estava sendo transformada por Carlos III. Estava ficando com a cara que tem agora. Foi ele que construiu as fontes das Cibeles e de Netuno e o Jardim Botânico e muito dos edifícios públicos mais bonitos que ainda estão aí, e renovou o casario urbano. Era um déspota esclarecido, e ajudou muito a arte também. Foi graças a ele que nos mudamos para Madrid, eu e minha mulher María Josefa. Vim trabalhar para a Fábrica de Tapetes de Santa Bárbara, uma das tantas manufacturas reales patrocinadas pela coroa, que queria desenvolver a indústria. Eles me contrataram para fazer pinturas que depois eram reproduzidas nos tapetes. Consegui o emprego através do meu cunhado, Francisco Bayeu, pintor com muita influência na corte.”

Goya transformou-se num dos favoritos da corte e dos salões de Madrid. Sempre me intrigou o contraste entre esse seu começo, quando retratou como ninguém a frivolidade da aristocracia espanhola da época, e o que viria depois, as terríveis gravuras de uma humanidade tornada monstruosa pelo “sono da razão”, e as pinturas sombrias da sua velhice. A vida, a doença e a desilusão política explicariam a mudança de Goya, mas eu desconfiava que o contraste sempre estivera com ele, e fazia dele um espanhol simbólico. Ou pelo menos suficientemente simbólico para uma rápida sociologia de turista. Por isso eu o convocara. Ele concordou que nas suas pinturas pastorais, nas cenas das fêtes galantes e da doce vida da corte, já havia o seu toque grave, nem que fosse só na deformação de um rosto ou no peso de uma mancha, e que nisso ele divergia do academicismo do cunhado Bayeu, com quem discutia bastante. Mas a idéia de que poderia me ajudar a entender os contrastes da alma espanhola – luz e sombra, festa e tragédia, a alegria e o drama unidos na mesma plasticidade – apenas o fez sorrir. Não deu para ver na cara do fantasma o que o divertia mais. Eu o considerá-lo uma síntese do seu povo ou alguém achar que podia entender a alma espanhola com tão pouco trabalho.

Há controvérsias, mas é quase certo que o nome “Madrid” vem do árabe Mayrit, que quer dizer rica em águas, uma referência à abundância de água subterrânea na região e aos muitos rios e riachos que desaguavam no outrora caudaloso Manzanares. A maioria desses cursos d’água desapareceu sob terra ou asfalto e o Manzanares perdeu muito da sua majestade, tanto que se tornou objeto de um grande anedotário madrileno. Fazer pouco do Manzanares é uma tradição da cidade e algumas frases sobre el aprendiz de río ficaram famosas, como a do embaixador alemão que o chamou de “o melhor rio da Europa” pois podia ser navegado com carruagem e cavalo. Contam que quando Alexandre Dumas visitou Madrid, pediu um copo d’água, tomou a metade, e determinou que despejassem o resto no Manzanares, que precisava mais da água do que ele. E Lope de Vega, convidado a dar sua opinião sobre a inauguração de uma ponte sobre o rio teria dito: “Não vou dar uma opinião, e sim um conselho: que a cidade de Madrid, das duas uma, ou compre um rio ou venda a ponte”. Mas o Manzanares já foi grande, e nas suas margens viviam os primeiros habitantes da região, no Paleolítico. Há vestígios de celtas, visigodos e romanos que também viveram na área, mas Madrid começou mesmo com a construção pelos árabes, no século IX, da fortaleza de Margerit, para dominar o vale dos Manzanares e a região entre a serra de Guadarrama e a cidade de Toledo. No final do século XI Alfonso VI tomou posse da cidade para os cristãos e no século XIV, quando o rei Fernando IV convocou pela primeira vez a corte entre as suas muralhas, ela passou a chamar-se Matrit. Em 1561 foi transformada em capital, com a transferência da corte imperial de Toledo para o que já era então Madrid pelo rei Felipe II. E quatrocentos e trinta e cinco anos depois disso chegamos ao hotel Grand Versalles, na Calle Covarubias, onde ficaremos hospedados durante as próximas duas semanas. Don Jesús pergunta se precisaremos dele aquela noite. Respondemos que não. Nos reuniremos com Joaquim e Iria, jantaremos perto do hotel e dormiremos cedo. Afinal, mesmo com os bons tratos da Varig, acabamos de atravessar um oceano. Don Jesús nos deseja uma boa estada madrilena e vai embora, depois de combinar a hora em que nos buscará, pela manhã. Goya sobe conosco para o quarto.