As visões de futuro de cada época nos dizem mais sobre a época do que a sua história. Nos filmes de ficção científica e nas histórias em quadrinhos da década de 30, quando ainda se acreditava nas cidades como laboratórios da técnica de viver juntos, o futuro era um pouco como o que vemos no Japão. Como uma projeção otimista dos padrões tecnológicos daquela época, a modernidade japonesa acaba aparecendo uma coisa meio ingênua, uma espécie de nostalgia do futuro. No Japão estamos de volta ao futuro imaginado nos anos em que se supunha que a técnica resolveria o principal desafio do século, a possibilidade do convívio civilizado na multidão. Com o tempo nos convencemos que as grandes cidades fatalmente se transformariam em megalópoles ingovernáveis e depois em ruínas. Mas Tóquio tem o tamanho dos nossos piores pesadelos urbanos e é uma cidade limpa e funcional. O cartunista Santiago, que já tinha estado lá, definira a cidade assim para nós: de repente, quando você menos espera, passa um trem por cima da sua cabeça. Mas é um silencioso trem de maquete, de filme de ficção científica de sessenta anos atrás. A quantidade de automóveis na rua é impressionante, mas o trânsito parece organizado e fluente. Os bancos dos táxis são forrados com tecido rendado e todos os motoristas usam luvas brancas. E não se ouve uma buzina! O futuro era muito melhor antigamente.
Nossa guia se chama Yuriko. Já morou no Rio de Janeiro e, por coincidência, foi a guia do Santiago quando ele esteve em Tóquio para receber um dos seus tantos prêmios internacionais. Yuriko nos pega nos hotel e nos leva até a sede de Japan Foundation, onde recebemos um programa detalhado da nossa visita. Ficaremos mais alguns dias em Tóquio, depois voaremos para Hiroshima e voltaremos a Tóquio de trem-bala, parando em Kurashiki, Kobe e Kyoto.
No dia seguinte, Yuriko nos leva para conhecer um vulcão em Odawara, perto de Tóquio. O vulcão está apenas dormindo, ainda respira e ronca e, como acontece com todo mundo, expele gases durante o sono. Uma das atrações do local é a possibilidade de cozinhar ovos nos diversos pontos em que a ebulição do vulcão chega à superfície como vapor. Passo. Mal posso imaginar o que a combinação de colesterol e enxofre farão com minhas artérias. Do vulcão descemos em bondinhos suspensos até o lago Ashi, por cima de uma floresta que o outono recém começou a colorir de amarelos e vermelhos. Compartilhamos nosso bondinho com uma família japonesa, e subitamente um dos japoneses faz um som de surpresa e prazer e aponta, entusiasmado: avistou alguma coisa no meio da bruma distante. Grande agitação na família. Tento descobrir o que ele viu e, aos poucos, vou discernindo o contorno de uma montanha dentro da bruma. É o monte Fuji. Aparentemente nossos companheiros de descida nunca tinham visto antes, ao vivo, este símbolo de permanência e unidade do país. Sentimo-nos também um pouco abençoados pela visão.






