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Deixaram-nos descansando no hotel no primeiro dia, na correta suposição de que alguns dos nossos neurônios ainda sobrevoavam o Pacífico e só chegariam no dia seguinte, quando começaria a programação oficial. Mas já na primeira noite, mesmo com metade do cérebro funcionando, Lúcia e eu saímos para conhecer a Ginza por nossa conta.

Se há um momento mágico em qualquer viagem é aquele em que se sai do hotel para dar os primeiros passos numa cidade ainda desconhecida. Claro que não se sai para qualquer lado. O viajante precavido já se muniu de um mapa, mesmo que seja o mapa rudimentar que a maioria dos hotéis fornece junto com a chave para ter certeza que o hóspede encontrará seu caminho de volta, pelo menos para pagar a conta. Também é conveniente se informar sobre o lado que tem movimento e o lado que o estrangeiro não deve freqüentar, porque não tem graça ou tem perigo. Já descobri que tenho uma alma de navegador. Gosto de me orientar sozinho e, ao contrário da Lúcia, considero uma derrota ter que pedir direções. Nas vezes em que precisei pedir foi porque os mapas me traíram ou o sol e as estrelas não estavam onde deviam estar. Mas em Tóquio, ainda sob os efeitos da viagem, sem saber se os pontos cardeais eram os mesmos no Japão, já que estávamos de cabeça para baixo, sucumbi. Devidamente instruídos pelo porteiro do hotel – “Ginza that way!” – saímos destemidamente para a noite.

Ginza é o Times Square multiplicado por dez, sem a sordidez daquela encruzilhada em Nova York. Mais tarde descobriríamos que o que parecia ser o centrão inquestionável de Tóquio era apenas um dos seus muitos centros, e até perdia em luzes e movimentação para bairros como Roppongi e Shinjuku. Mas, como primeiro impacto, nos bastava.

Os anúncios luminosos têm algo de irreal, de cenário. São exatamente isso, a arte cinética do comércio, mas no caso de Tóquio eles têm uma intensidade tal, e são em tal quantidade, que parecem falsos, uma representação de iluminação feérica numa representação de centro moderno. Temos a sensação de andar dentro da maquete de uma fantasia urbana – hipotética grande cidade com todos os luminosos que pode suportar -, mas é uma maquete em tamanho natural.

Não caminhamos muito naquela primeira noite. Não lembro se chegamos a nos aventurar em algum restaurante da Ginza. Acho que comemos algo sensatamente ocidental no hotel mesmo, para o qual voltamos guiados pelo meu apurado senso de direção. Ou, está bem, apenas refazendo o caminho da ida.