Delicadezas

Já fomos a três festas de rua desde que chegamos aqui. Uma numa praça ao lado de uma Igreja Ortodoxa Armênia, na Segunda Avenida. Outra ao longo da Terceira Avenida, entre as ruas 14 e 34, 20 quadras de estandes com comidas de todos os tipos, jogos e pequenos palcos para apresentações musicais por amadores. E inventamos de ir num sábado à noite à festa de San Gennaro, na Little Italy. Acabamos não vendo nada, porque a multidão era tamanha que nossa única preocupação era não perder as crianças.

A festa de San Gennaro, santo padroeiro da colônia italiana, é a mais antiga da cidade. Lá você encontra os italianos fazendo na calçada o que eles fazem melhor do que ninguém, comida e barulho. Pretendemos voltar antes que a festa acabe. Alguns pedaços de pizza e calzones vistos de passagem, enquanto a turba nos carregava, nos chamam de volta. Na festa dos armênios, havia estandes de comida grega e até filipina. A música ia da valsa ao jazz, passando por danças folclóricas armênias e polonesas. Na Terceira Avenida, a mistura era maior ainda e jovens porto-riquenhos dançavam salsa em frente a estandes de comida chinesa sob o olhar de senhoras italianas sentadas em cadeiras no meio-fio. Na festa dos armênios, o padre, às vezes, saía da igreja e dava uma volta na praça para ver como estavam se comportando seus paroquianos.

Quer dizer, precisei vir a Nova York para redescobrir a quermesse.

O Tom Jobim dizia que Nova York é a cidade das grosserias e das delicadezas. Referia-se aos groceries e às delicatessens. Grocery stores são simplesmente armazéns que vendem tudo. Delicatessens vendem tudo e mais alguma coisa. Sanduíches prontos, por exemplo, entre eles monstros como os hero sandwiches – feitos com pão de um metro e cheios de divina porcaria -, e coisas tradicionalmente judias, como o sanduíche de pastrami com pão de centeio. O pastrami é um tipo de carne em conserva, ou curtida, ou coisa parecida. Delicioso. Não sei de onde vem a palavra delicatessen, mas uma tradução bem poderia ser “quebra-galho”. Recorremos à delicatessen aqui perto de casa para tudo, até para troco para o ônibus, que só aceita a quantia da passagem contada. As delicatessen costumavam ser todas de judeus, mas isso faz tempo. Essa aqui perto é de uma família de origem misteriosa. Não descobrimos ainda se são hindus ou latino-americanos, e a pronúncia não ajuda. Um dia teremos a revelação: vieram da Paraíba. Tudo é possível em Nova York.

As fronteiras entre Chinatown e Little Italy são difusas. Os dois bairros se misturam e em certas ruas letreiros em chinês e fachadas de coisas como Luigi’s ou a loja maçônica Filhos da Itália se intercalam. Os chineses estão se expandindo. Só os italianos pobres ainda moram na Little Italy. Mas a convivência é pacífica. Em mais de um estande da festa de San Gennaro, além dos pedaços de pizza, havia espetinhos de porco caramelado.

Na Segunda Avenida tem um restaurante que, para mim, define Nova York e sua bendita promiscuidade. “Goldberg’s Pizzeria”.