Romano não acredita em fila. Para comprar entradas num cinema, por exemplo, forma-se uma aglomeração na frente do guichê e pouco a pouco, com paciência e discretos empurrões, cada um vai conseguindo a sua vez. É o que se poderia chamar de técnica do bolo solidário. Não há o menor sentido de prioridade ou justiça – chega primeiro ao guichê não quem chegou primeiro ao bolo, mas quem abriu seu caminho com mais decisão – mas também não há briga. Persiste um tácito acordo de que o jeito de avançar na vida é este mesmo, uma mistura de egoísmo persistente e tolerância com o egoísmo dos outros. E ninguém perde o bom humor. Nos filmes mais procurados eles não esperam o fim de uma sessão antes de entrar para a próxima. O filme ainda não terminou e já estão ocupando poltronas vazias ou corredores, muitas vezes desfazendo-se de agasalhos e falando alto como se ainda estivessem na sala de espera.
Esta bagunça consentida seria apenas pitoresca se não se estendesse assustadoramente ao trânsito. Roma deve certamente ter um dos índices mais altos de carros por habitante do mundo, e eles também coexistem num plano peculiar em que as regras se refazem de acordo com a conveniência de cada momento, e a necessidade de um só é limitada pela boa ou má vontade do quem vem atrás. Ou seja, é o caos. Eppur, se muove. É um trânsito doido e difícil, mas você acaba descobrindo como movimentar-se nele – desde que deixe em casa o superego, a timidez e sua capacidade de se surpreender. Tudo pode acontecer e geralmente acontece. Quando, no bolo que se forma diante de um sinal fechado, você pensa que não há espaço a seu lado para mais nada, pode ter certeza que um Fiat 500, o Cascudo Maledeto, se intrometerá por ali e ficará esperando o instante de cortar simpaticamente a sua frente.
Não há lugar para estacionar em Roma, e o resultado é que os romanos estacionam de qualquer maneira. Em cima da calçada, em fila dupla, em fila tripla, em qualquer brecha. No fim dá tudo certo, ou tão errado, que funciona. No trânsito romano ou você enlouquece logo ou se adapta, e a maneira de se adaptar é enlouquecer aos poucos. Como no caso da aglomeração para comprar entradas, a bagunça vai criando suas próprias leis e soluções. Afinal, toda grande cidade é ao mesmo tempo uma experiência do irracional e uma lição de convívio. Os romanos parecem ter inventado um novo conceito de urbanidade, o da irracionalidade levada ao extremo para melhor propiciar o convívio. E ninguém perde o bom humor.
Outra coisa. Com toda a sua loucura, no trânsito romano o pedestre ainda tem prioridade. Pedestre atravessando a rua sobre a faixa de segurança faz parar tudo. Até Fiat 500.






