Overdose

Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e Zero Hora, 8/7/90.

Para quem, como eu, gosta, uma Copa do Mundo equivale a receber futebol na veia todos os dias durante um mês. É futebol no ar e nas conversas, futebol no café, no almoço e no jantar, futebol nos sonhos e até – se bem que, nesta Copa, pouco – futebol em campo. Quem tem gosto pela discussão teórica, esta forma de jogar futebol que se distingue da outra por ser muito mais arriscada, também estava num paraíso de saciedade absoluta. Como, para os brasileiros, esta era uma Copa que provaria ou condenaria várias teses, nunca se discutiu tanto futebol como aqui. Se nossos jogadores tivessem jogado com metade da convicção com que nossos comentaristas defendiam seus pontos de vista… não adiantaria muito, ainda acertariam na trave. Mas o fato é que tivemos um mês de futebol e de teses em poções ilimitadas, com a conseqüência inevitável de um sentimento de overdose. Só o enfaro explica que eu chegasse ao fim torcendo por uma final Argentina x Inglaterra, pelo encontro na decisão dos dois times que pior começaram e que, portanto, não representam nada além de sua capacidade de auto-superação. Nenhum deles redime qualquer tese. Eu sei, eu sei, o Bilardo tem um esquema e se mantém fiel a ele – e, pelo menos em copas do mundo, vitorioso -, mas ninguém poderá dizer, da Argentina, que é o seu sistema que vence jogos. Na Argentina dá certo tudo que não é esquema. Carisma, coração, caráter ou falta dele (e, claro, talento), todas estas coisas que vêm antes, depois ou em vez da teoria. E o melhor adversário da Argentina para um apoteótico final antiteses seria a simples e esforçada Inglaterra que, segundo alguns, inventou o futebol e depois se viu desobrigada de fazer qualquer coisa para melhorá-lo. Deu a Alemanha. Pena. A Alemanha salvará a Copa das Teses da simetria perversa de um final entre dois times sem idéias. Mas vou torcer pela Argentina.

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Os italianos ficaram naquela situação de quem não agüenta mais a festa e quer ir dormir mas não pode. Eles são os anfitriões, a festa é deles. Não podem fazer como os outros derrotados, dar boa-noite e ir para casa. Estão em casa. Precisam ficar acordados e solícitos, até o último chato. E depois ainda limpar os cinzeiros.

Apesar de tudo, foi uma boa festa. Já se disse que tudo que torna os italianos intoleráveis é justamente o que os torna admiráveis. Se a organização da Copa tivesse sido escandinava teríamos todo o direito de reclamar. Certamente não viemos à Itália para sermos tratados nordicamente. A bagunça faz parte do charme italiano, ainda mais quando ela é claramente um artifício, uma desculpa para que qualquer pretensão à sofisticação tecnológica seja abandonada e tudo se resolva não pela eficiência e pela lógica, que não têm graça, mas pela conversa. Quando tem que recorrer à simpatia, a Itália é imbatível.