Revista Playboy, agosto/86.
Se alguém digitasse os dados físicos do Maradona num computador e perguntasse que função ele devia desempenhar em campo, o computador provavelmente responderia “gandula”. O pequeno e quase gordo Maradona não tem corpo para o futebol. É um paradoxo. Um símbolo perfeito, portanto, para uma Copa do Mundo paradoxal. Uma grande Copa de grandes decepções. Um triunfo feito de pequenos fracassos. Foi a primeira Copa organizada e dirigida por computadores, mas a simpática ineficiência mexicana se encarregou de reduzir suas pretensões a termos mais reais, e humanos. Foi a Copa em que idéias novas e não tão novas sobre futebol total – ocupação dos espaços, jogadores polifuncionais, precedência do vigor e da organização tática sobre o brilho individual – se consagraram. Mas, dos três times que melhor representavam essas idéias, dois – União Soviética e Dinamarca – ficaram pelo caminho e a Alemanha perdeu no fim, para uma Argentina também vigorosa e organizada, mas que chegou à final porque que tinha Maradona, o anti-símbolo da Copa. O talento. O desmancha-sistemas. O duende no computador.
Paradoxo. Uma Copa cheia de decepções e que satisfez. Nem os brasileiros podem se queixar. Perdemos bonito. Fizemos, com a França, o melhor jogo da Copa, numa tarde cheia de pungência e drama. Perdemos no futebol, mas sobra o consolo de que a derrota dá mais literatura.
(…) Foi um grande jogo, o melhor da Copa. Dois times parecidos, respeitando-se mutuamente e respeitando, acima de tudo, o futebol. Não houve, que eu me lembre, um cartão amarelo durante todo o jogo. E isto que muitos em campo estavam jogando sua última oportunidade de ficar na história. De um lado, Sócrates, Júnior, depois Zico. Do outro, Platini, Giresse, Tigana. Uma geração que chegava ao fim com todas as glórias, menos a de ter vencido uma Copa do Mundo. Talvez houvesse até uma certa cumplicidade de lado a lado, um acordo tácito de que ou aquele jogo se decidia na bola, na habilidade e no fôlego, ou não significava nada. No fim foi justo que tudo se decidisse nos pênaltis. Na medida em que o futebol se resume em tentar botar uma bola dentro de um gol ou evitar que isso aconteça, o pênalti é o futebol reduzido à sua essência, ao seu esqueleto. O pênalti não tem nada a ver com o resto do jogo e, ao mesmo tempo, é a sua destilação final, a sua representação mais pura. O goleiro é a defesa e o batedor do pênalti é o ataque, eliminados todos os intermediários. Segundos e terceiros fora. No pênalti o jogador está no deserto, cara a cara com ele mesmo e com os seus últimos significados. O goleiro não existe, o goleiro é um acessório, como as traves. Ou o pênalti é mal batido ou é gol. Quando Sócrates começou a caminhar do meio do campo para a área, para bater o primeiro pênalti, estava atravessando o seu deserto. Guadalajara era nossa, mas o sol de Guadalajara era igual para todos. E pior para os com mais de 30. Zico já tinha errado o pênalti que decidiria a partida. Sócrates ainda estava em campo, apesar de não ter mais pernas nem raciocínio, porque Telê o queria em campo. Sócrates era a obstinação de Telê, era o caroço da obstinação do Telê, que já desistira de Falcão, já substituíra Júnior, mas mantivera Sócrates como quem, no fim de toda a razão, se agarra a um amuleto. Sócrates errou o pênalti. Depois Platini, outra vítima do deserto, errou o seu, escandalosamente, mas não nos adiantou nada. Júlio Cesar, que durante todos os jogos do Brasil não tivera um erro, chutou na trave. Seu único erro na Copa foi um erro definitivo. Mas ele se recupera. A próxima Seleção do Brasil certamente começará por Júlio Cesar, já. Zico, Sócrates, Platini, Falcão, Giresse, Júnior, Tigana, estes podiam muito bem se reunir – numa sombra – e trocar histórias tristes sobre a passagem do tempo e a inconstância da sorte. Foi sua última Copa.
No magnífico Museu de Antropologia da cidade do México há uma inscrição gravada numa parede, tirada dos Cantos di Huexotzingo:
“Solo asi he de irme?
Como las flores que perecieron?
Nada quedara em mi nombre?
Nada de mi fama aqui en la tierra?
Al menos flores, ai menos cantos!”
Está bem, ao menos flores e cantos. Eles mereceram. Foi um jogão. E sua passagem até chegarem ao deserto desculpa tudo. Até os pênaltis perdidos. Alem disso, nenhum ficou mais pobre com a derrota. Não chore por eles, Argentina.
(…) Ninguém ficou sem trazer alguma coisa do México, nem que fosse uma infecção intestinal. Ou lembranças. Poucos dias depois de chegar a Guadalajara, antes de começar a Copa, o Divino Fonseca, de Placar, estava parado na frente do hotel e notou que um menino o olhava com admiração. O menino aproximou-se, timidamente. Relutou um pouco, depois perguntou.
- Usted es brasileño?
O Divino disse que era. Então o menino tirou uma moeda de 1 peso do bolso, deu para o Divino e saiu correndo. De todas as histórias do carinho mexicano pelo Brasil, esta me parece a mais bonita. Talvez Guadalajara já soubesse que a nossa mágica não daria certo e estivesse tentando nos consolar. Não se volta ao passado.
Para mim ficou a lembrança do jogo Brasil e França. De Zico entrando em campo ovacionado e minutos depois errando o chute da sua vida. De Sócrates se encaminhando lentamente para a área no começo da decisão por pênaltis, rodeado por milhões de pessoas e absolutamente sozinho. Do infalível Júlio Cesar falhando, e o nosso coração batendo na trave. E ainda há quem diga que futebol é um assunto menor.






