Depois do cinismo (11/5/99)

O contrário do antiamericanismo primário é um pró-americanismo inocente que aceita todas as presunções dos Estados Unidos a seu próprio respeito. Em matéria de política internacional, isso inclui concordar que os americanos têm uma missão no mundo, de inspiração divina e portanto indiscutível. Todos os povos cultivam seus mitos de excepcionalidade, mas é inédita, na História, essa pretensão americana a ser uma potência moral, que só devo contas à sua própria noção de superioridade e manifesto destino evangelizador. Inédito também é o grau de submissão da periferia aos mitos autocongratulatórios da metrópole. Faltou a Roma uma boa indústria da informação e do entretenimento para garantir a adesão incondicional das mentes da sua época, e o seu domínio eterno. Roma era os Estados Unidos sem a ética protestante e sem o Jack Valenti.

Não são a hipocrisia americana e o seu sucesso entre pró-americanos ingênuos que assustam. A hipocrisia pelo menos é uma coisa sensata. Pode-se discutir como adultos o interesse econômico disfarçado de cruzada moral e as razões de império por trás do salvacionismo e das frases pias. Ou o salvacionismo seletivo, que concentra a indignação e as bombas num demônio providencial e esquece causas menos convenientes. Nada mais antigo e compreensível. Assusta mesmo é quando nem os americanos nem os seus defensores estão sendo cínicos. Quando acreditam mesmo que sua missão especial na Terra dá aos Estados Unidos o direto de usarem a força para fins que desafiam, muitas vezes, não só a lei internacional como o bom senso, pois como podem os fins de uma potência incomum serem julgados pela lei ou o senso comum?

Só essa isenção tácita dada aos Estados Unidos para exercerem seu ineditismo no mundo, para serem Roma e os bárbaros ao mesmo tempo e evangelizarem os outros à sua imagem a foguetaços, explica a inacreditável guerra na Iugoslávia. Até certo ponto, é uma guerra lógica, ou que serve a diversas lógicas, desde o interesse americano em manter o controle de uma Europa unida, através da Otan, até a vontade de países como a França e a Rússia de ressurgirem da sua irrelevância política e diplomática passando pelo enternecedor entusiasmo de escoteiro de Tony Blair pela guerra. Sem falar na lógica terrível dos Bálcãs e das suas etnias furiosas. Mas quando termina a lógica, e as razões cínicas, fica a licença dada aos americanos para serem o que eles se imaginam e cumprirem a sua missão, mesmo que algumas bombas humanitárias errem o alvo. E ninguém pode dizer que eles não pedem desculpas.