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Gente das Águas
não-ficção/livro de Agnes Mariano
 
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Editora Plus, Porto Alegre (RS) · 22/7/2009 · 49 votos · nenhum

Editora: Editora Plus
Lançamento: 30/6/2009
Preço médio: Gratuito, sob licença Creative Commons
Estamos tão acostumados com a equação jornais = notícias, que esquecemos como o mundo não pode ser resumido, sempre, em 200 palavras. Para nos recordar como o bom jornalismo é um testemunho permanente do mundo, e de nós mesmos, que a Editora Plus traz aos leitores Agnes Mariano, jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade Federal da Bahia e doutoranda em Comunicação na Universidade de São Paulo.

Nesse livro, a autora reúne quatro grandes reportagens, uma reportagem especial e dois perfis, sobre a história e histórias da Bahia e do litoral baiano, acompanhadas de inúmeras fotos das praias, das pessoas e das paisagens. São perfis de pessoas como Dona Francisquinha, que com suas vidas simpless, árduas, construíram famílias, identidades e a cidade de Salvador. O livro fala por si mesmo:

Perfil: Contadora de histórias

Nascida e criada numa pequena colina de Itapuã de onde se vê o mar, quando Francisca Passos, a “Dona Francisquinha”, começa a lembrar de tudo o que viveu, nos convida a uma deliciosa viagem no tempo, por um lugarejo distante onde só se via mar, areia, lendas e poesia. Conhece cada cenário e cada história com a intimidade de quem, além de ter participado de tudo, também se tornou uma pesquisadora diletante. Quando fala em escolas, “até em faculdade já me levaram”, ou mostra os tesouros que reuniu nesses anos - livros, fotos, reportagens e objetos -, ela nos convence de que tantas histórias bonitas não merecem mesmo ser esquecidas.
“Aqui todo mundo vivia da pesca. A praia, além da areia, era um tapete verde: salsa, cheia de flor. Tanto que foi por acaso que um pescador da rede de xaréu achou a pedra de São Tomé. Deu esse nome porque era véspera do dia dele, 20 de dezembro de 1602. E aí construíram a cruz e a capela de palha. A cruz está lá até hoje, só mudou o nome, pra Piatã. Tinha a festa todo ano, a gente ficava a noite toda: fazia a fogueira, as senhoras rezando, as meninas dançando, as crianças brincando e os homens no samba. Foi a primeira festa de Itapuã. Ainda vou lá todo ano, a gente reza e acende a fogueira. Enquanto eu estiver viva, a tradição não acaba”, diz ela. A tal cruz a que ela se refere hoje fica em meio às barracas da Praia de Piatã.

Ganhadeiras
“Minha mãe era ganhadeira. Você sabe o que é isso?”. Para explicar, Dona Francisquinha recita uma poesia antiga “que ninguém sabe quem fez”: “Nascida na Praia de Itapuã, comprando peixe barato, pescado pela manhã / Somos velhas ganhadeiras que veio negociar / Trazendo pouco dinheiro para o peixe encontrar / Nós compramos e assamos e tornamos a vender / O dinheiro que ganhamos não chega para comer / Adeus que já me retiro / Adeus que já vou embora / Adeus até outra hora”. A venda era feita no Mercado de Santa Bárbara, na Baixa dos Sapateiros, para onde as ganhadeiras iam andando, conta ela.
Enquanto a mãe ia vender o peixe, ela ficava em casa tomando conta dos irmãos e do bisavô. “Aqui na rua só tinha três casas de telha, o resto era de palha. Minha mãe sempre dizia pra eu fechar a porta, mas sabe o que era a porta? Um pano que amarrava em dois pregos”, conta ela, rindo.
No chão das casas, o costume era colocar areia alva da praia e folhas de pitanga: “Chão de tijolo só tinha na escola. Foi em 1926 que eu fui pro colégio público. Fazia com capricho, queria ser professora. Lia tudo, até papel velho. Naquele tempo não tinha nada aqui, nem jornal, nem livro. Os pais da gente diziam que tinha que tratar bem a professora porque ninguém queria vir pra cá. Então cada semana uma mãe lavava a roupa da professora, um pai dava o peixe, se alguém fazia farinha, separava a parte da professora. Os alunos varriam a escola, carregavam água, ganhavam 'bolo' e ainda queriam bem a ela, não era como hoje não”.
Sobre o seu sonho de ser ser professora, as colegas sempre caçoavam - “Só se for do cabo da vassora” - sem imaginar que um dia Dona Francisquinha seria convidada de honra em muitas escolas de Salvador, para contar as suas histórias. Naquele tempo, ela nem conhecia Salvador: “Só ouvia falar, minhas colegas diziam pra eu ir na cidade, ver o bonde, que era bonito como quê”. Os primeiros veranistas chegavam “de carroça, pela praia, porque não tinha estrada”. Quando o primeiro posto de saúde de Itapuã foi inaugurado, Dona Francisquinha empregou-se lá, como auxiliar de enfermagem: “E lá mesmo me aposentei”.

tags: Porto Alegre RS literatura bahia salvador historia jornalismo reportagem
 
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