manhãzinha as abelhas iam colher o pólen e minha
irmã ia colher as flores: lá achou o elmo de louça, entre
os capins mas, criança, pensou que se tratasse dum
caco de astro. Trouxe-o, e ele veio cheio de pólen
como uma corola. Ao vê-lo julguei ver uma xícara de
porcelana bordada que começasse a virar ostra ou
mesmo um fragmento de urinol imperial. Era um elmo.
Expliquei-lhe que o elmo e o fumo são da mesma ida-
de. Ela sorria ouvindo e, levantando-se, pôs dentro
dele as flores que deixara sobre a cadeira e colocou-o
como um jarro no centro da mesa. Havia ao lado um
relógio-despertador, com seus ponteiros e seus núme-
ros sobre o alvo mostrador de esmalte – uma flor du-
rável. O melhor lugar para um relógio – lhe disse – é
no meio dum canteiro de açucenas.
só uma semana mais tarde reparei que aquele elmo
era na verdade um crânio – o que restava do esqueleto
de um homem ou, pelo menos, o que dele se achara até
então. Fui até o jardim, que fica ao lado da casa, e co-
mecei a busca minuciosa dos restos mortais do desco-
nhecido. O dia era claro e a terra do jardim estava seca
e solta, apunhalada de, caules marrons de roseiras, de
violetas, de açucenas, hortênsias, jasmins, cravos-de-
defunto, lírios, rosmaninhos, miosótis, papoulas,
amores-perfeitos, magnólias, alecrins, perpétuas, dálias
príncipes-negros, sempre-vivas, angélicas, lilases,
brincos-de-princesa, boas-noites, boninas e girassóis.
Era tudo visível. De joelhos no solo fofo e esquivo,
procurava com os dedos entre as folhas caídas, es-
piando entre as flores paradas no ar, planetárias, e cujo
sol (oculto) bem podia ser aquela caveira de osso de
louça posta feito jarro em nossa varanda. Nada encon-
trei. À tardinha prossegui na busca até que a noite che-
gou. Em vão. Na terça-feira voltei à pesquisa do jar-
dim. Em vão. Na quarta, em vão. Na quinta, em vão.
Na sexta, em vão. No sábado, em vão. No domingo
(belo e rico), em vão. De novo na segunda-feira, em
vão. Na terça, em vão. Na quarta, em vão. Quinta, em
vão. Sexta, em vão. Sábado, no vão de uns capins,
achei um anel, alvo como prata.
Aproximando-o dos olhos, para melhor verificá-lo,
percebi que dentro dele qualquer coisa pulsava; como
um relógio. Procurei, nele, por onde abri-lo. Em vão.
Um relógio sem mostrador, parecia-me esquisito de-
mais. Escutei-o, atentamente: tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic parou!
fiquei atônito um segundo:
meu relógio de pulso, em meu
pulso, marcava meio-dia em ponto, e estava parado.
Esbocei um sorriso de compreensão ao meu Mido Mul-
tifort Automatic. No círculo astronômico do mostrador
branco a agulha negra em que se solveram os dois pon-
teiros apontava enigmática para a altura silente vertigi-
nosa do verão. Verão – eu disse – ainda verão – eu
disse – Verão – eu disse – e o vocábulo se fundiu à
agulha do astro
o sol
era no alto uma coroa esplendendo
exatamente sobre a minha cabeça
meio
dia
a escuridão da claridade, o segredo do
ouro que reunia tudo em meu redor. O jardim com suas
folhas abertas e fixas. Olhei a açucena: ela moveu as
pétalas, abriu-se, surgiu de dentro um mostrador de re-
lógio, e a zoada de seu mecanismo foi se instalando na-
quele espaço aceso tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
Olhei o crisantemo:
a corola girou, lenta, girou e dois ponteiros
azuis brotaram-lhe do cálice; parou a flor: sobre o mos-
trador de ouro os ponteiros marcavam meio-dia tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
meu olhar acompanhava todas as metamor-
foses, e já dezenas de flores se transformaram
relogioflor negros
relogioflor rubros
relogiofior verdes
relogioflor níquel
relogioflor azuis
relogioflor lilases
relogiofior amarelos
relogioflor prata
relogioflor marrom
relogiofior água
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic relogioflor ouro relogioflor platina
relogio flor tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic relogioflor íris re-
logioflor lírio tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic relogioflor flor
relogioflor hidrogênio relogiofl tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic tic
TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC
TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC TIC
Relogiofiorverderelogioflorrubrorelogioflornegrorelogio
florpratarelogioflorazulreloTICTICTICTICTICTICTIC
TICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTIC
TICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTICTIC
TICTICTICTICTIC
atordoado afastei-me até o terraço a al-
guns metros do jardim; a esta distância a zoada era su-
portável. Acendi um cigarro e fiquei a fumá-lo, recos-
tado a uma coluna, o pé contra a parede. O jardim zu-
nia como se ocupado por um exército de bichos metáli-
cos.
Dormi mal aquela noite, pois no mais retirado
quarto da casa chegava a trepidação do jardim. Vim
para a janela curtir minha insônia. Lá na escuridão do
quintal, o jardim batia freneticamente. E assim noites e
noites e noites e noites.
Veio o inverno. Os relógios vicejavam estrelados
em suas corolas de cor. Pelos algarismos coloridos os
ponteiros
negros azuis rubros
assinalavam as múltiplas e surpreendentes
ordens do tempo
O verão voltou com um vento áspero soprando. As
pétalas se desprendiam. O sol amarelecia a folhagem.
O jardim ia calando, cansavam-se um a um os seus
múltiplos relógios. Enferrujavam.
Da janela do quarto, vi o primeiro que se abriu
como um estojo e despediu no vento uma carga de se-
mentes. Outros se abriram. O quintal se povoava de
grãos esvoaçantes. Uma brisa mais forte lançou uma
centena deles contra meu rosto e me encheu o quarto.
Uma semana, e o jardim parecia morto. Das hastes
pendiam os relógios envelhecidos, abertos como bocas
de ferrugem, vazios. Os mostradores coloridos mofa-
vam, desbotavam. Caminhei entre eles, examinando-
os, quando uma zoada débil
tic tic tic
tic (interrompeu) tic tic
Detive-me atento para
localizá-la… Era um pequeno relogioflor níquel que
permanecia fechado e ainda funcionando penosamente.
Toquei-o: trabalhou um instante e parou de novo. Tem-
tei abri-lo – impossível. Doía-me vê-lo assim engui-
çado e cheio de sementes. Bem, só um relojoeiro daria
jeito na situação. Saí atrás de um catálogo telefônico.
Mas viajei para a Europa e me esqueci. Certa ma-
nhã, na Praça de São Marcos, desvendei o mistério do
crânio. Tinha sido urinol de uma das filhas de Carlos
Magno; depois, capacete de um dos mais valentes sol-
dados do rei, apaixonado da moça; fora também crânio
de herói, e, antes, muito antes, almofariz de Osíris;
peça de ritual na Trácia, o Santo Graal, taça de festim,
coroa imperial, tigela, jarra, ilíaco de inseto, píxide,
dentadura postiça, corola de flor interplanetária e cin-
zeiro. Hoje é, de novo, urinol. Amanhã terá outro
nome e outra glória, talvez. Eu mesmo já o faço
minha escarradeira, já o encho de hortênsias, já nele mijo e
defeco. Já o contemplo a um canto inútil e esplendente.
Ou tomo-o nas mãos e o escuto, e ele soa como um bú-
zio. O mar, porém, que ecoa nele é outro. É um mar
que nunca vi, cujo nome não conheço, que não imagino
e que prefiro não inventar.






