Ufu é a capital de Ifi, a nação mais rica de que a História tem notícia. Naturalmente, Ufu é a mais vasta cidade que os homens já construíram, e continua a crescer. Seu núcleo é constituído de vários núcleos menores, divididos em centenas de avenidas vastíssimas, a tal ponto que ninguém nunca percorreu qualquer delas de uma ponta a outra, muito embora os habitantes de Ufu quase nunca andem a pé; passam boa parte de sua vida em ônibus, trens subterrâneos, automóveis ou helicópteros.
Ufu tem uma história, ainda que seus habitantes não se lembrem disso, tão absorvidos estão por sua vida atual. Em determinado ponto da cidade, existe um prédio onde funciona o Museu de Ufu. É verdade que, dado o crescimento da cidade, os serviços do museu estão quase integralmente voltados para a tarefa impossível de registrar seu presente velocíssimo: aparelhos eletrônicos trabalham sem cessar fotografando documentos novos, computando dados e buscando uma ordem capaz de guardar os vestígios materiais da História, que voa alucinadamente para o olvido. Mas, em algum canto do museu, pode-se encontrar uma gravura de Ufu, quando ela era uma cidade de apenas um milhão de habitantes, há cinqüenta anos – o que em termos de Ufu equivale a um tempo remotíssimo. Alguns documentos mais velhos revelarão que a cidade não chega a ter dois séculos de existência e que, debaixo da primeira casa, havia apenas o chão material, sem mito e sem memória.
Os fundadores de Ufu vieram de outro continente e trouxeram consigo rudimentos de técnica que, na nova região, tomaram grande importância e se desenvolveram. Em breve, Ufu oferecia condições de vida tão acima das outras cidades do país que as pessoas das mais diversas regiões eram atraídas para ela. O aumento da população se acelerou e com isso Ufu teve de acelerar também seu ritmo de crescimento. As novas técnicas permitiam a produção em massa de objetos de uso e a construção rápida de edifícios que passaram de três para cinco pavimentos, depois para dez, vinte, cinqüenta, duzentos, trezentos pavimentos. A cidade crescia vertical e horizontalmente, numa aceleração constante.
As cidades mais próximas foram absorvidas por Ufu, tornaram-se subúrbios dela. Ufu continuava a se espraiar. As terras cultiváveis da periferia desapareceram sob as avenidas que se estendiam, cobrindo-as de asfalto e concreto. Os alimentos para a população vinham de regiões cada vez mais distantes, por ferrovias que, de Ufu, partiam em todas as direções. Algumas cidades, situadas a milhares de quilômetros, foram assassinadas por Ufu, que as transformou em granjas gigantescas para a produção de cereais, carne de boi e ovelha, ovos e aves, que ela consumia vorazmente. Seus habitantes foram aos poucos mudando-se para Ufu, onde havia mais trabalho e mais alimento do que em qualquer outra parte. E Ufu crescia.
Nos dois últimos anos Afá, Efé, Ofó, Aná, Ené, Eni, Onó e Onu, seguindo o destino de Atá, Eté, Eti, Etó, Etu, Itá, Ité, lti, Itó, Utu, Ará, Eré, Iri, Oró e Uru (para ficar apenas nessas) também se tornaram uma minúscula parte da gigantesca metrópole. Mas mesmo as cidades de outros países, do outro lado do oceano, já sentem a presença de Ufu, que delas compra tudo o que é matéria-prima e alimento, e lhes manda em troca objetos fabricados pelas indústrias ufuenses: botões, giletes, revólveres, apitos, rádios, televisores, ventiladores, refrigeradores, interruptores, liqüidificadores, tratores, panelas, aviões, gomas de mascar, refrigerantes, pregos, computadores, martelos, facas, filmes, videogames e milhares de outros produtos que os habitantes dessas cidades longínquas sequer supunham existir nem muito menos julgavam deles necessitar. Através das necessidades novas que cria, Ufu vai instilando sua presença em todas as regiões e prendendo as cidades em sua teia de aço e dinheiro. Todas as pessoas de todas as cidades do mundo sonham viver em Ufu e, se para lá não conseguem ir de vez, gastam as economias em viagens de turismo. Depois voltam, cada qual com uma visão diferente da megalópole, que não se rende a nenhuma definição. Outros nem voltam, nem se tem notícia deles: morreram atropelados nas ruas de trânsito intenso, ou perderam-se nas avenidas sem fim. Os que voltam trazem em geral uma inconfessada mágoa no coração: a Ufu que conheceram era muito diferente daquela de que lhes falavam e sabem que, uma semana depois, quando chegarem em casa, falarão de uma Ufu que já não existe mais, uma vez que ela se transforma veloz e incessantemente. E como se não tivessem ido lá.
Tampouco os que vivem em Ufu têm dela uma visão total e definida. Muitas pessoas, que residem em vastos edifícios-cidade, jamais saíram deles: ali nasceram, ali estudaram, ali se empregaram, casaram, procriaram. Alguns conhecem, além do seu edifício-cidade, um ou dois mais. São exceções aqueles que conhecem mais de uma rua ou duas, por onde passam a caminho da loja, do escritório ou da farmácia onde trabalham. Mesmo os que são obrigados a percorrer grandes distâncias, o fazem em geral em trens subterrâneos: conhecem os dois extremos da viagem. Da janela do apartamento, a centenas de metros do chão, o habitante de Ufu divisa um panorama infinito de edificios, ruas, avenidas, praças, torres, que se perde no horizonte à sua volta. A possibilidade de caminhar por todas aquelas ruas, ou mesmo chegar além delas, está excluída. A maioria dos ufuenses jamais viu o chão de terra do planeta. Também os animais e as plantas não fazem parte de sua experiência. Acreditam que o sol nasce e se põe sobre os tetos de Ufu.
Seria engano, entretanto, pensar que todos os habitantes de Ufu têm a mesma visão da cidade. Os que moram nos andares mais baixos – e muitos deles jamais subiram aos andares de cima – têm diante de si apenas as vastas fachadas de outros edifícios. Vêem aquela rua sem fim estender-se, como uma muralha, para um lado e para outro e não fazem idéia do número infinito de ruas iguais àquela que se sucedem à frente e atrás da sua; para estes, Ufu é apenas a sua rua. É certo que o rádio e a televisão lhes trazem notícia de fatos que ocorrem noutros pontos da cidade, mas a tendência geral é pensar que tudo aquilo é mera ficção. Tanto mais que os programas tratam de problemas que já foram ultrapassados pelos habitantes da rua ou que ainda não chegaram a se pôr para eles, já que a vastidão de Ufu e seu crescimento desordenado estabelecem uma espécie de descontinuidade histórica entre os vários setores da cidade. Há, por exemplo, modas adotadas em determinado bairro ou rua que só chegam a outros anos depois, ou não chegam nunca; certos objetos de uso tornam-se obsoletos, e são substituídos por outros mais modernos, antes de alcançarem os demais pontos de Ufu. Mas todos esses setores e bairros e todas essas vidas colaboram, mesmo sem o saberem, no desenvolvimento da megalópole, cuja vitalidade se manifesta sobretudo em sua periferia.
Paira, não obstante, sobre essa poderosa cidade uma grave ameaça. O seu desenvolvimento condena-a a se desenvolver mais e mais, à custa do extermínio das outras cidades do país, cujos habitantes fogem para Ufu. Alguns estudiosos, que já perceberam o perigo, convenceram o governo a constituir uma comissão para planejar o crescimento da cidade e, se possível, controlá-lo. O fato, porém, é que essa comissão levará anos para colher e analisar todos os dados necessários ao planejamento de Ufu, e até lá esses dados não mais corresponderão à realidade.
O urbanista Finordt Gaiws, que integrava essa comissão, afirmou ser impossível chegar-se a qualquer resultado positivo. Foi dado como louco e internado numa clínica especializada. Lá escreveu um livro, geralmente considerado “mera profecia pessimista no gênero de Huxley e Orwell, cujo propósito antecipatório a História provou ser falso”.
O livro de Gaiws termina afirmando que Ufu se estenderá por todo o continente, depois pelos outros continentes, até ocupar totalmente a superfície do planeta. Quando isso ocorrer – afirma ele – não terá mais nenhuma chance de sobrevivência, Morrerá como o câncer morre, depois de tomar inteiramente o organismo em que se instalou. E conclui: “destruamos Ufu antes que ela nos destrua a todos”. Só que ninguém sabe como fazer isso.






