Odon é um amontoado de casas velhas no meio de um deserto – o deserto de Uz. Um livro de leitura do curso primário, adotado há uns cinqüenta anos nas escolas da cidade, assim a descrevia: “Odon, nossa progressista cidade, fica no fértil vale de Uz, à margem do Gôni.” Na verdade, havia mais de dois ou três séculos, talvez, que essa descrição não correspondia à realidade. As cartilhas de hoje falam diferente: “Odon, nossa querida cidade, fica no deserto de Uz, onde outrora havia um fértil vale.”
Contam que um dos homens mais velhos da cidade, paralítico de nascença, ao ler isso na cartilha do neto, irrompeu em lágrimas. Segundo outra versão, o fato se deu com o pai de um aluno, que ignorava a verdadeira situação geográfica de Odon. Sem afirmar a autenticidade de qualquer das versões, confesso que, a mim mesmo, educado pela moderna edição da cartilha, aquele complemento – “onde outrora havia um fértil vale” – enche-me os olhos d’água. No tempo em que havia o rio e a terra era fecunda, Odon vivia da cultura da batata e do fumo, sobretudo. Em época mais tardia, o fumo teria sido o principal produto da povoação, como indicam as lendas e particularmente o culto de Igorki, deus do tabaco, professado por nossos ancestrais. Há mesmo quem ainda hoje endosse a opinião dos antigos, que atribuíam à vingança de Igork a decadência de Odon. “Wsx gti Duu banz snzo” (“Ele queimou os campos e proibiu a primavera de nos visitar”), diz um antigo poema, inserto nos Textos do Santo, escrito, calcula-se, há uns quatro mil anos. Igork teria se revoltado contra Odon porque seus habitantes, criando o comércio do fumo, violaram um preceito divino que proibia o uso do tabaco além do que lhe destinara Igork: “Minha carne é sonho e saúde – o ouro do ouro.” Depois de colhida a safra anual, festejava-se em louvor de Igork, e os mais velhos fumavam, em longos cachimbos, o primeiro tabaco colhido, já ressequido e aromatizado com perfume de flor. O produto da colheita era dividido entre todos, e uma parte empregada na fabricação de remédios, os únicos de que se valia a sua medicina rudimentar.
Com o desenvolvimento da agricultura, sobretudo no que diz respeito ao plantio da batata, arroz e feijão, estabeleceu-se o comércio entre Odon e as demais cidades da região. Foi uma época de progresso e euforia. O contato freqüente com o exterior trouxe inovações à vida da cidade. As artes e as letras conheceram amplo florescimento. E a resistência dos odonenses ao comércio do fumo e seus subprodutos foi finalmente vencida. A princípio, as transações se faziam clandestinamente mas, em breve, eram admitidas e praticadas por todos, com o consentimento oficial. Já a essa altura, o culto de Igork fora negligenciado e uma nova visão do mundo, menos supersticiosa e mais pragmática, tomava os espíritos. Os “remédios santos”, extraídos do tabaco, eram mesmo acusados de venenosos ou ineficazes.
Odon crescia e suas ruas se multiplicavam. Uma nova era se abria à sua frente. Foi então que “em certa tarde de sombrio calor, o rio começou a inchar e feder como um bicho morto”, dizem os Textos. “Um vento escuro e quente soprava rasteiro, torrando as ervas. Era o hálito de Igork, indignado. Os pássaros da cidade começaram a fugir, aos bandos, como lhes ordenara Igork, e foram pousar em suas torres. Os habitantes corriam, sufocados, de um lado para o outro, sem sabedoria.”
O vento soprou dois dias e duas noites, queimando as plantas e os frutos, e o rio subiu até a altura das janelas mais altas, cobrindo os campos incendiados. Sua água era escura, fria e gosmenta. O sol parou em cima dela onze dias, no seu espelho. Quando as águas baixaram, os habitantes de Odon reconheceram os seus mortos, choraram em cima deles e depois os enterraram na lama que o rio deixou. Os dias que se seguiram foram quentes e iluminados. Os homens olhavam para o céu sem pássaros. “Mesmo as galinhas e os galos, cúmplices do homem, ganharam vôo e fugiram dali”, dizem os Textos. De manhã, iam aos seus pombais verificar se as aves tinham regressado à noite. Nada. A lama deixada pela inundação começou a bulir, como se vivesse. Uma esperança se esboçava: o rio fertilizara o solo já um tanto esgotado, pensavam. Enquanto isso, as águas do rio desceram abaixo de suas margens costumeiras, e continuavam a descer. A terra fedia sob o sol duro. Da lama, não nasceram plantas e sim ratos, que encheram as ruas de Odon, invadiram as casas, roeram roupas e móveis. O povo, temendo mata-los, fugiu para os campos. Lá, não era menor o seu número. “Igork puxou o seu filho, Gôni, para si, e deixou a cidade sem água; depois sobreveio a peste dos ratos-de-Igork.” Neste ponto, certos historiadores – Wawa, por exemplo – admitem que, além da “invasão dos ratos”, teria havido então um surto de peste bubônica; já ObeGut, em sua célebre História do povo de Odon, esclarece que a palavra “zatz”, a que hoje se atribui a significação de “peste”, significava originalmente “invasão”. Assim, a tradução do texto sagrado, segundo ObeGut, deve ser: “depois sobreveio a invasão dos ratos-de-Igork”. Donde se conclui que a peste não houve; trata-se de um simples erro de exegese.
Uma terra escura e seca recobriu todo o vale de Uz. Sem rio, dispondo de uma estreita cintura de solo cultivável, Odon começou a lutar para sobreviver. Cavaram-se poços profundos, donde se obteve água para o consumo diário e para a agricultura medíocre, limitada ao plantio de legumes e frutas necessários ao abastecimento da cidade, sem possibilidade de expansão. Com os anos, cresce o número de habitantes e diminui a produção de alimentos. Grande parte da população vive dos restos dos demais, da mendicância e do crime. Os assaltos e assassinatos freqüentes põem em pânico as famílias. Até as crianças são seqüestradas e devoradas pelos párias. Odon é agora uma jaula abandonada no deserto.
O cultivo do fumo, hoje praticado pelas cidades vizinhas, que o aprenderam conosco, é a grande fonte de riqueza da região. Dawinã e Tuu são atualmente os mais importantes centros produtores do país, onde a industrialização já é uma realidade. Outras cidades menores seguem-lhes os passos, e as estradas cortam o deserto ligando-as entre si. Mas essas estradas não tocam em Odon, e os aviões passam alto sem nos perceberem. É como se um rio de ouro derramasse suas águas no deserto, mas desviasse seu curso ao se aproximar de nossa cidade.
Há alguns anos, fizemos uma nova tentativa de recuperação das terras próximas, para plantar fumo. Construímos açudes e canais de irrigação. Esperamos com ansiedade o rebentar dos primeiros brotos, mas o campo permaneceu impassível, como um homem morto, surdo ao nosso apelo. O vento carregou a areia para as valas plantadas, abandonamos os açudes cujas águas o sol chupou depois. Muitos homens não se conformaram e resolveram esperar o milagre, sem arredar pé do campo. Lá ficaram.
No último mapa do país não consta o nome de Odon. Há só uma vasta área em branco, com a denominação DESERTO DE UZ. Admiti, para me consolar, que se tratava de um lapso: o desenhista esquecera de assinalar a cidade. Mesmo assim, é impossível negar que os cartógrafos jamais esquecem de marcar cidades como Paris ou Nova York. “Tu comerás pedra se venderes a carne sagrada de Igork”, dizem os Textos. Mas por que Igork não nos deu forças para não vendê-la? Por que fez ele de tabaco a sua carne, se podia tê-la feito de urtiga ou qualquer outra erva daninha?
Nas tardes de verão, a gente ouve o rumor do rio de ouro correndo pelo deserto. Alguns perdem a cabeça e correm ao seu encontro pelas areias em fogo. O rio os afoga e abandona seus corpos no deserto. Os que voltam trazem os olhos queimados, e a língua seca e estéril como a terra de Uz. E o que dizem não se entende.






