(In: Gullar, Ferreira. Indagações de Hoje. Rio de Janeiro, José Olympio, 1989)
Para Homero, a realidade se explicava nos termos da mitologia grega como, para Dante, ela se explicava nos termos da teologia católica. O poeta moderno, sem mitologia e sem teologia não habita o Parnaso nem se sente tocado pela graça: caminha no chão de asfalto da cidade e tenta transformar em canto a matéria vulgar do cotidiana. Ao que parece, um mundo povoado de deuses ou iluminado pela teologia é mais propício ao trabalho do poeta do que o nosso, onde pedra é pedra e pau é pau. Mas a verdade é que nem Homero nem Dante, em que pese a sua grandeza, oferecem-nos a poesia capaz de nos reconciliar com o nosso destino de animal humano do século XX. Homero nos emociona ainda, mas como um poeta da velha Grécia pré-helênica, porque assim o lemos, rendidos à sua voz que canta de urna distância de 27 séculos. Em seus poemas, história e mito se confundem, e a ação como a paixão de seus heróis são para nós os arquétipos da aventura humana. Já o mesmo não se pode dizer de Dante, cuja Divina comédia é o produto de uma visão de mundo hierática que sobrepõe a moral religiosa aos prazeres da vida e nos oferece como prêmio da virtude um paraíso onde a beatitude se confunde com a imobilidade. Se Homero nos sugere o começo da História, Dante nos aponta para o fim dela. Enquanto Homero nos mostra homens e deuses em ação – lutando, intrigando, vingando-se -, Dante nos mostra o passado e o julga. O arcaísmo de Homero nos comove, o de Dante nos incomoda: o que sustenta a Divina comédia é o seu belo discurso literário. O conteúdo edificante desse discurso envelheceu mais que o de Homero e, não obstante, está mais perto de nós pelo comprometimento político que é já uma injunção dos novos tempos.
A mensagem edificante da poesia já está em Horácio, como em Virgílio, passa por Dante e se prolonga até o século XIX, quando a ela se contrapõe o satanismo dos poetas malditos, expresso principalmente em Lesfieurs du mal, de Baudelaire, e em Les chants de Maldoror, de Isidore Ducasse ou Conde de Lautréamont. Estes poetas se colocam no pólo oposto ao de Dante e, se algum contato ainda mantêm com a Divina Comédia, é com o primeiro canto que descreve o Inferno. Mas é uma relação que se estabelece pelo contraditório, já que a sua visão do mal nada tem a ver com a do poeta florentino: o mal não é por eles condenado mas exaltado ou pelo menos tratado como matéria fascinante. O satanismo não caracterizará a poesia moderna daí por diante, mas assinalará um gesto de inconformismo radical contra a tradição do poeta bem-comportado. E essa rebelião não se limita ao abandono da mensagem edificante; vai além, quebrando os limites em que o convencionalismo burguês fechara a capacidade do homem de apreender e expressar os seus sentimentos e a própria realidade. O satanismo – que é a negação exacerbada das virtudes que a moral católica exaltara e a burguesia adotara por conveniência – não escapa, porém, ao maniqueísmo que contrapõe o Bem e o Mal, conforme a simbologia da Igreja. O crescimento da civilização industrial, o acelerado progresso tecnológico e científico determinarão a obsolescência de Satã e dos serafins, empurrando o homem moderno a buscar nas condicionantes objetivas da vida social ou nas profundezas do inconsciente as causas de seu comportamento. A pesquisa e a análise vão tomando o lugar dos dogmas religiosos; das teorias fantasiosas e da superstição. É fato que isso não se dá de maneira integral nem sem ambigüidades, mas essa é certamente a tendência predominante que caracteriza a sociedade ocidental a partir do século XVIII, recrudesce na segunda metade do século XIX e se amplia e aprofunda no curso do século atual. Resta observar que essa transformação é tanto mais contundente porque se expressa na mudança do próprio habitat humano, alterando radicalmente a vida das pessoas. O sinal mais evidente da revolução que se iniciava era o crescimento acelerado das cidades, cujos habitantes passavam a se contar por milhões. Os poetas não se mantêm infensos a essas mudanças e, muito pelo contrário, estão entre os primeiros a reagirem a elas e a tentar expressá-las. São conhecidos os textos e poemas em que Poe, Baudelaire e Lautréamont refletem a presença do fenômeno novo que era então a multidão urbana; fenômeno novo e assustador que punha subitamente em xeque o próprio indivíduo como ser diferenciado e autônomo: em face da massa humana que enche as ruas de Londres ou Paris, o homem sensível, cioso de sua individualidade, sente a ameaça concreta do anonimato e, mais que isso, sente-se reassimilido pela multidão, como parte insignificante da espécie que agora se faz visível e tangível. A busca da estranheza, da extravagância, do satânico, que caracteriza os chamados poetas malditos, pode ser explicada também como uma reação à cidade superpopulosa, à presença da massa urbana, da qual o indivíduo-poeta quer se diferenciar. Essa terá sido uma das primeiras conseqüências desse novo fenômeno urbano sobre a literatura e que, na verdade, continuou e continua a influir sobre ela, já como seu público potencial, já como um público inalcançável que lhe questiona a razão de ser. Assim é que, em contraposição aos poetas que, buscando a diferenciação, isolaram-se na extravagância ou no hermetismo, outros procurariam fazer da multidão urbana e do cotidiano da grande cidade matéria de seus poemas. E essa será a linha mais constante no diversificado curso da poesia contemporânea.
Pode-se dizer, então, que, em comparação com Horácio, Virgílio ou Dante, o poeta moderno trabalha mais próximo da realidade? Que o que diferencia a poesia do século XX com respeito a toda a poesia anterior é essa proximidade do mundo concreto? Poderíamos responder que sim, mas seria uma resposta simplificadora. A questão é mais complexa. De fato, o poeta moderno apreende o mundo através de um sistema de conhecimento diferente daquele de que se valia, por exemplo, Horácio ou Virgílio. Mas, o fato de que o sistema de conhecimento greco-romano se apoiava em elementos mitológicos não significa que aqueles poetas se mantivessem alheios à realidade de seu tempo nem que sua poesia se realizava desligada das contingências pessoais, nacionais e até mesmo políticas, e sim, apenas, que esses fatores se traduziam para eles de maneira diversa da que se traduzem para nós. A diferença é, no entanto, significativa, uma vez que altera a própria natureza do mundo percebido e determina um relacionamento novo do poeta com a vida e conseqüentemente com a poesia. O mundo não é mais material hoje do que era antigamente, mas a sua materialidade nos é muito mais presente à experiência, porque a nossa cultura se funda na investigação positiva da natureza, na descoberta das leis que a regem e no desenvolvimento de uma tecnologia que a transforma e mesmo a violenta em escala nunca vista antes. Noutras palavras, enquanto para Horácio a realidade se decifrava em termos mitológicos, para o poeta de hoje ela se decifra em termos científicos e, ainda que o poeta não faça dessa decifração a sua resposta à existência, não pode ignorá-la. É justo dizer até que a rejeição da explicação científica – e mesmo a rejeição da realidade objetiva conformada pela ciência e pela técnica – determinou uma das principais vertentes da poesia moderna: o surrealismo. De qualquer modo, é a força do conhecimento científico que determinará o recuo da explicação religiosa, ao mesmo tempo que o desenvolvimento da economia capitalista, mudando drasticamente o sistema de vida, abalará os valores tradicionais em que se apoiava a sociedade. Já de há muito o poeta perdera a sua condição de eleito dos deuses, criador das leis e fundador das cidades, mas ainda conservava parte dessa mística na medida mesmo em que se identificava com a visão religiosa, que lhe convinha preservar. Visto desse ângulo, o satanismo é a rebelião do poeta que, ameaçado na sua condição de eleito, se volta contra Deus e o próprio homem. É uma revolta sem futuro, como o demonstra a própria experiência de Isidore Ducasse. Depois de Les chants de Maldoror, em que o inconformismo se confunde com a perversão de todos os valores estabelecidos, escreve o prefácio às Poesias, que é a negação da revolta e a exaltação – não sem ironia, é verdade – do conformismo: “Substituo a melancolia pela coragem, a dúvida pela certeza, o desespero pela esperança, a maldade pela bondade, a lamentação pelo dever, o ceticismo pela fé, os sofismas pela frieza da calma e o orgulho pela modéstia”. Essa oscilação radical de Ducasse revela o beco sem saída do satanismo, que nega a visão teológica sem dela se libertar. Exemplo realmente revolucionário, novo, moderno, quem nos dá é o poeta norte-americano Walt Whitman, cujos poemas revelam um novo comportamento e uma nova relação do homem com o mundo e com os outros homens. Ele diz: “Nenhuma polegada, nem a partícula de uma polegada de meu corpo, é vil”. Ele canta o seu próprio corpo livre de pecado; exalta o sexo e encara a morte como um mero momento do processo da vida, infinitamente criadora; canta a natureza no que ela tem de sensual, vivo, estimulante. Na sua poesia sentimos a presença do mundo real, limpo de fantasmas e miasmas, enquanto, com sadia fraternidade, o posa envolve em seu abraço as pessoas todas. Estamos longe do individualismo romântico, que curte o sofrimento e cultiva o marginalismo como indício de genialidade. A linguagem de Whitman não tem a densidade perturbadora da de Baudelaire ou Rimbaud, mas é clara, desenvolta, livre da metrificação acadêmica e dos caprichos rebuscados de estilo. Ele é o poeta de uma nação jovem, identificado com o progresso material e com a democracia. A sua visão de mundo é, de certo modo, produto do capitalismo norte-americano nascente, mas que lhe permite desvencilhar-se dos preconceitos morais e culturais com que os poetas da velha Europa terão que se debater ainda por muitas décadas. E é curioso que dois dos maiores inovadores da poesia européia, Baudelaire e Mallarmé, encontram identidade não com Whitman, mas com outro poeta norte-americano: Edgard Allan Poe que, ao contrário daquele, continua preso à visão sadomasoquista com que o cristianismo permeou todo o pensamento ocidental.
O interesse de Baudelaire e Mallarmé por Edgar Poe não tem nada de casual. A razão desse interesse é que, como neles, em Poe se encontra, só que de modo mais explícito, a polarização do velho e do novo, da visão romântica e da necessidade de racionalizar a experiência, tendência que se acentua no pensamento ocidental desde os Enciclopedistas. Essa contradição é muito característica de uma cultura que, se por uni lado desenvolve o conhecimento objetivo, por outro estimula o individualismo e põe à mostra o mundo complexo da subjetividade. O Romantismo possibilita a exploração desse território interior e libera os impulsos incontroláveis que dormem nele. É a necessidade de controlar os impulsos subjetivos que gera, por vezes, uma tendência à racionalização esquemática tal como se verifica na célebre “A filosofia da composição”, de Poe. Ele escolhe seu próprio poema “O corvo” como exemplo da teoria que expõe e na qual se propõe “demonstrar claramente que nenhum detalhe de sua composição pode ser explicado pelo acaso ou pela intuição, que a obra se desenvolveu, passo a passo, visando a seu acabamento com a precisão e o rigor lógico de uma equação matemática”. A simples leitura desse texto é suficiente para demonstrar que nada se passou como o poeta pretende nos fazer crer e que se trata de racionalização a posteriori que mistura uma visão inovadora do fenômeno poético com formulações que beiram o ridículo.
Não obstante, esse esforço demonstrado por Poe para fazer do poema um produto consciente corresponde a uma necessidade nova da poesia, que o futuro confirmará. Ela encontrará em Paul Valéry sua formulação plena e, a partir dele, firma-se como uma das principais linhas de desenvolvimento da poesia do século XX, em contraposição à outra, derivada de Rimbaud e Lautréamont, que encontra a sua manifestação mais exacerbada no automatismo psíquico dos surrealistas. Mas essas duas posições extremadas são na verdade respostas radicais à nova condição de vida gerada pela sociedade moderna que se caracteriza, de um lado, pela progressiva racionalização do processo produtivo e, de outro, pela alienação do indivíduo num mundo massificado e reificado que tudo transforma em mercadoria. Esse mundo reificado – que substitui a relação entre as pessoas pela relação entre as coisas – apresenta-se contraditoriamente material e irreal, porque oculta a força criadora do trabalho humano para apresentá-la, na forma de mercadoria, como valor de troca, abstrato e impessoal. Foi essa mesma realidade que gerou, nos poetas, a necessidade de recuperar o sentido do real, pela rejeição do intelectualismo e do formalismo como condição para apreender o fenômeno concreto da vida. Daí a extraordinária significação da poesia de Walt Whitman, que recupera no poema a experiência sadia e complexa da vida, muito embora numa época em que a produção capitalista e a sociedade ainda não tinham chegado ao seu nível mais alto de desenvolvimento e alienação.
O nosso é um mundo prosaico, que muito pouco tem a ver com o mundo mitológico em que viveram os poetas do passado remoto. Já Marx observara um século atrás: “A concepção da natureza e das relações sociais, que se acha no fundo da imaginação grega, e por conseguinte da arte grega, é por acaso compatível com as máquinas automáticas, as estradas de ferro, as locomotivas e o telégrafo elétrico? Que representa Plutão ao lado de Roberts & Cia., Júpiter dos pára-raios e Hermes do crédito mobiliário?”. O apego à tradição, tanto no plano formal quanto temático, que caracterizava a poesia do passado até o século XIX, não tem mais cabimento numa sociedade que muda a cada dia e cada vez mais aceleradamente. A sociedade de massa, que ameaça submergir o indivíduo no anonimato, estimula o individualismo e a originalidade a qualquer preço. Tais fatores teriam que determinar o comportamento dos poetas e afastá-los das concepções do passado. O abandono das formas clássicas – das estrofes regulares, do verso metrificado e rimado – não resultou de mero capricho mas de uma exigência da própria vida. A poesia grega e a latina falavam uma língua diversa da prosa, refletindo a condição do poeta ligado à corte e a condição da cultura apropriada por uma elite econômica e intelectual. Na sociedade moderna, o sistema de produção e o crescimento das cidades obrigaram à democratização do conhecimento que, se não chega a todos e em igual nível, gerou o consumidor massivo de arte e literatura, que o escritor não pode ignorar. A linguagem da poesia confunde-se então com a prosa, do mesmo modo que o poeta confunde-se com o homem da rua e já não pode neva deseja reivindicar para si a condição de eleito dos deuses.
Num mundo sem deuses, o homem é responsável por seu próprio destino e por cada um de seus atos. A solução dos problemas agora depende exclusivamente de sua capacidade de compreender a realidade e de atuar sobre ela. Não há milagres: o homem cria a sua própria vida, produzindo e reproduzindo os meios de manter-se vivo como indivíduo e como espécie. Dividido em classe e nações presas a interesses contraditórios, ele atenta contra si mesmo e contra a natureza, mistifica-se e aliena-se em conceitos e preconceitos que o levam à produção de armas mortíferas capazes hoje de destruir a própria humanidade. Mas nenhum deus o salvará: só ele mesmo, na medida em que tome consciência do que deve ser feito e se una para fazêlo, poderá impedir a eclosão do apocalipse. Este é o mundo em que vivemos, banal e delirante, mas onde se torna cada dia mais clara a necessidade de despertar e cultivar o que há de humano no homem. Os poetas podem ajudar nisso. E não por mistificar a realidade mas, pelo contrário, por revelá-la na sua verdade, que é prosaica e, ao mesmo tempo, fascinante. O poeta sonha no concreto o sonho de todos. Ele sabe que a poesia brota da banalidade do mesmo modo que o poema nasce da linguagem comum. Está na tua boca, na minha boca, a palavra que eventualmente se converterá em beleza. Ou não.
[Comunicação lida no VIII Congresso Nacional de Estudos de Lingüística e Literatura, realizado no Rio de Janeiro, em 27 de dezembro de 1982.]






