O cavalo Santorín

O Peru nunca se distinguiu pela qualidade de seus cavalos de corrida. Pratica um futebol razoável – que teve uma de suas melhores fases com o técnico brasileiro Didi, ex-campeão mundial e célebre criador da “folha-seca”. Todo mundo que acompanha o futebol já ouviu falar em Cubillas, um dos melhores jogadores peruanos, que até a última Copa ainda integrava a seleção de seu país. Mas o ponto alto do esporte peruano é sem dúvida sua seleção feminina de vôlei. Nas corridas, não, nas corridas o Peru nunca se destacou.

Isso explica, pelo menos em parte, o entusiasmo que se armou em torno do cavalo Santorín. Recém-chegado a Lima, com a alma malferida pela derrota da Unidade Popular no Chile e o massacre promovido por Pinochet, não tinha ânimo para acompanhar a vida esportiva do país. Mirava nas bancas os jornais de esporte e via freqüentemente manchetes que falavam de Pelé. Foi assim que, pela primeira vez, dei com o nome de Santorín, que em breve iria ocupar a primeira pagina, não só dos jornais esportivos, mas de todos os outros jornais. Foi quando o levaram para disputar um grande prêmio na Califórnia.

Desde o embarque do cavalo num avião de carga da força aérea peruana até seus treinos em território estrangeiro, tudo foi entusiasticamente coberto pela imprensa e pela televisão. Em todos os lugares só se falava em Santorín. E era indisfarçável o orgulho com que os peruanos a ele se referiam, como se se tratasse de uma glória equivalente à de Mariátegui ou César Vallejo. Até o general Velazco Alvarado, presidente da República, foi instigado a se manifestar quanto ao fato. Enfim, anunciou-se que uma cadeia nacional de rádio e televisão transmitiria para todo o país a corrida do próximo domingo. Mas, no sábado, o Peru estremeceu: Santorín estava gripado! Comoção nacional, boataria, queda na bolsa de valores. Mas uma reportagem, que a televisão transmitiu diretamente da Califórnia, devolveu o Peru à tranqüilidade: Santorin não estava gripado, nunca estivera gripado e, pelo contrário, superara-se no treino daquela tarde, confirmando sua condição de favorito para a corrida do dia seguinte.

Chegou o dia seguinte. Ruas enfeitadas, foguetes, o país inteiro parou para acompanhar a carreira do único cavalo peruano que alcançara tal nível de celebridade. Não pude furtar-me a essa onda de patriotismo esportivo e, às quatro da tarde, estava eu lá, diante da televisão, para testemunhar a performance de Santorín.

Foi dada a partida, os cavalos deixam a gride de largada e o locutor irradia: “Santorín, que largou na dianteira, continua liderando a corrida.” De fato, já os cavalos contornavam a primeira curva do hipódromo e lá estava Santorín, herói peruano, símbolo naquele momento de todas as aspirações e frustrações de um pequeno e pobre país, a liderar a disputa. Ele até parecia consciente do papel que representava ali, tal era o seu esforço para manter-se à frente dos outros animais, e confesso que meu coração bateu forte, meus olhos se molharam e passei a torcer pela vitória de Santorín, pela alegria do povo peruano, que tanto sofrimento tem conhecido ao longo de sua história. “Vai, Santorín!” E a voz do locutor: “Santorín agora está em segundo lugar, mas não desiste e persegue seu contendor.” Meu empenho cresceu: “Dale, Santorín, vamos Santorín!” E o locutor: “Santorín cai para terceiro… agora cai para quarto.” Senti que o desânimo queria me dobrar, gritei, como se o cavalo Santorín, tão longe, pudesse me ouvir através do vídeo. E o locutor: “Santorín agora está em quinto lugar… aproximam-se do término…” Parei de gritar. “Cruzam a faixa final… Santorín em sexto e último lugar.” Um enorme silêncio pairou então sobre a cidade de Lima. Na semana seguinte, outra manchete: “Surge um novo campeão das pistas: Cocodrilo!”