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	<title>Portal Literal</title>
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		<title>Lembrando por lembrar</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Jun 2013 13:14:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ferreira Gullar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>

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		<description><![CDATA[De Ferreira Gullar, originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo em 16/06/2013. Li outro dia uma matéria acerca da luta da intelectualidade contra a ditadura militar e, nela, não havia qualquer referência ao Grupo Opinião, que teve papel relevante nessa luta. Não vejo qualquer má-fé nessa omissão, mesmo porque o entrevistado, por sua idade, [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>De Ferreira Gullar, originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo em 16/06/2013.</em></p>
<p>Li outro dia uma matéria acerca da luta da intelectualidade contra a ditadura militar e, nela, não havia qualquer referência ao Grupo Opinião, que teve papel relevante nessa luta.</p>
<p>Não vejo qualquer má-fé nessa omissão, mesmo porque o entrevistado, por sua idade, não poderia ter participado daquela luta, iniciada no mesmo ano do golpe, isto é, em 1964.</p>
<p>É público e notório que o primeiro espetáculo a contestar o regime militar foi o show &#8220;Opinião&#8221;, escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes e Armando Costa.</p>
<p>O espetáculo estreou em novembro daquele ano, oito meses depois do golpe, num teatro de arena improvisado, no shopping center da rua Siqueira Campos, em Copacabana. Dele nasceu o Grupo Opinião, que marcaria a vida teatral brasileira daquele período, entre outras razões por sua postura política.</p>
<p>O papel político que esse grupo desempenhou teve uma razão: o Grupo Opinião foi o novo nome do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (União Nacional de Estudantes), entidade essencialmente política, extinta por isso mesmo pelo golpe.</p>
<p>Funcionava na sede da UNE, na praia do Flamengo, incendiada por lacerdistas no dia do golpe. Parte dos membros do CPC era militante do Partido Comunista, que dava assistência à entidade. Essa ligação com o PC foi mantida pelo Grupo Opinião.</p>
<p>O êxito de bilheteria do show &#8220;Opinião&#8221; contribuiu para prestigiar o novo grupo teatral. Nos primeiros meses da ditadura, a ação da censura voltava-se mais para a imprensa em geral e só se voltou efetivamente para o teatro após a proibição de &#8220;O Berço do Herói&#8221;, de Dias Gomes.</p>
<p>A partir daí, a ação da censura foi se ampliando, o que exigia, de outro lado, a mobilização da classe teatral. Isso foi feito principalmente pelo Grupo Opinião, cujo teatro se tornou o local das reuniões e manifestações de protesto contra a censura.</p>
<p>Após o show &#8220;Opinião&#8221;, o grupo apresentou o espetáculo &#8220;Liberdade, Liberdade&#8221;, de Millôr Fernandes e Flávio Rangel, que era também uma montagem de textos e músicas, só que, neste caso, os textos eram citações de pensadores e estadistas, desde Sócrates a Voltaire e George Washington. Era difícil censurar tais figuras e, por isso mesmo, o meio escolhido pela repressão foi tentar tumultuar o espetáculo, com capangas armados.</p>
<p>Como essa tentativa foi abortada, lançaram mão, algum tempo depois, de um recurso mais drástico: puseram uma bomba na bilheteria que quase destrói o teatro inteiro. Depois disso, o público, assustado, afastou-se dali, dando-se início à falência do grupo teatral.</p>
<p>Mas isso foi um pouco mais tarde. Até ali, a classe teatral, mobilizada, passou dos manifestos e reuniões em teatros a manifestações de rua, com a presença de atores e atrizes de grande prestígio e popularidade, o que intimidava os censores. Nem por isso, conforme o caso, deixavam de mandar os policiais dissolver essas manifestações e até mesmo prender os manifestantes. Prenderam Norma Bengell.</p>
<p>Pouca gente sabe, por exemplo, que foi graças à classe teatral, com o apoio de intelectuais estudantes, que se realizou a famosa Passeata dos Cem Mil. Grupo radicais, ligados à UNE clandestina, insistiam em arrastar os manifestantes para conflitos de rua com a polícia.</p>
<p>Já o nosso grupo pretendia realizar uma manifestação de caráter massivo com o apoio da Igreja Católica e outras organizações sociais, que se opunham ao regime. A participação dessas entidades já estava sendo articulada pelo Partido Comunista e a esquerda católica.</p>
<p>Discutia-se isso no teatro Glaucio Gill, onde se haviam reunido, além da classe teatral, intelectuais de diferentes áreas. A dificuldade para chegar a um consenso decorria do fato de que a direção da UNE, na clandestinidade, não participava das discussões.</p>
<p>A muito custo, conseguiu-se um contato telefônico com Vladimir Palmeira e discutiu-se com ele a proposta em questão. Ele concordou com a proposta e deu seu apoio para a realização da manifestação pacífica e massiva.</p>
<p>A partir daí, começaram todos a mobilizar gente de diferentes setores da sociedade, inclusive sindicatos de trabalhadores, do que resultou a primeira grande manifestação de massa contra o regime militar. Uma manifestação que ficou para a história.</p>
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		<title>Um vício novo</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jun 2013 20:07:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Literal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas Zuenir]]></category>
		<category><![CDATA[Zuenir Ventura]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Zuenir Ventura, publicado originalmente no jornal O Globo, em 12/06/2013. Parodiando Tim Maia, “não jogo, não fumo e não bebo”. Mas, ao contrário do que ele dizia, não minto, pelo menos nesse quesito. Nunca pratiquei jogo de azar, não fumo há quase 20 anos e bebo com moderação. Nem desse vício novo, o do [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Por Zuenir Ventura, publicado originalmente no jornal O Globo, em 12/06/2013.</em></p>
<p>Parodiando Tim Maia, “não jogo, não fumo e não bebo”. Mas, ao contrário do que ele dizia, não minto, pelo menos nesse quesito. Nunca pratiquei jogo de azar, não fumo há quase 20 anos e bebo com moderação. Nem desse vício novo, o do celular, eu padeço.</p>
<p>Só quando viajo minha mulher bota um no meu bolso para não me perder, como já aconteceu no aeroporto de uma cidade estranha, onde fiquei à espera de alguém que iria me buscar e não foi. Não sei se é um feito ou um defeito, mas graças a isso estou livre dessa dependência apontada numa pesquisa revelada pelo repórter Sérgio Matsuura aqui no jornal.</p>
<p>Como vocês devem ter lido, estudos recentes mostram que o uso excessivo desse aparelhinho que os portugueses chamam com mais propriedade de “telemóvel” pode produzir no cérebro estragos similares aos das drogas como álcool e cocaína.</p>
<p>Como explicou um especialista, “a dependência pelas tecnologias é comportamental, as outras são químicas, mas elas causam o mesmo desgaste na ponta dos neurônios”.</p>
<p>Conheço alguns exemplos, um dos quais beirando a patologia. Os amigos brincavam com ele pelo que parecia ser apenas uma inocente mania de ficar ao telefone o tempo todo em qualquer lugar. Eu cheguei a dizer que não o encontraria mais, ia preferir telefonar, pois só assim poderíamos conversar.</p>
<p>Até que a mulher, percebendo o distúrbio, convenceu-o a recorrer a um psicanalista. A terapia funcionou durante algum tempo. Mas a última vez em que estivemos juntos percebi velhos sintomas: síndrome de abstinência, ansiedade, déficit de atenção, desinteresse pelo mundo real. No táxi, só notei que ele não ouvia o que eu dizia quando, olhando para trás, flagrei-o conectado, digitando mensagens.</p>
<p>Há viciados que não importunam. Mas há os que falam tão alto no aeroporto, no hall de um hotel ou andando na rua que nos obrigam a tomar conhecimento sem querer de seus problemas domésticos. Mas o pior tipo é aquele que no cinema liga o aparelho no silencioso, mas acende aquela luz esverdeada que impede quem está atrás de ver o filme direito.</p>
<p>Já foram detectadas lesões nas articulações dos dedos causadas pela digitação. O mais preocupante, porém, é a notícia (ou boato) de que vários casos de câncer de cérebro em jovens seriam causados pelo uso abusivo do celular.</p>
<p>É uma especulação, uma hipótese, um “ouvi dizer” sem comprovação médica, mas que serve como advertência. Como é difícil saber quando termina o uso considerado normal e começa o excessivo, recomenda-se tomar dois santos remédios: moderação e sensatez. Não têm contraindicação.</p>
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		<title>16 de junho</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jun 2013 20:01:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Fernando Veríssimo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas 2013]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal]]></category>

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		<description><![CDATA[De Luis Fernando Verissimo, originalmente publicado no jornal O Globo em 16/06/2013. &#160; Hoje, 16 de junho, é o “Bloomsday”, um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, narrado por James Joyce no seu “Ulysses”. Estive uma vez em Dublin. De certa maneira, conhecer Dublin é trair James Joyce. Stephen Dedalus, o herói autobiográfico [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>De Luis Fernando Verissimo, originalmente publicado no jornal O Globo em 16/06/2013.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, 16 de junho, é o “<em>Bloomsday</em>”, um dia na vida de Leopold Bloom em Dublin, narrado por James Joyce no seu “Ulysses”.</p>
<p>Estive uma vez em Dublin. De certa maneira, conhecer Dublin é trair James Joyce. Stephen Dedalus, o herói autobiográfico de Joyce, precisou trocar a familiaridade de Dublin pelo silêncio e a sabedoria do exílio — “<em>silence, exile and cunning</em>” — para começar a forjar, na usina da sua alma, a consciência ainda por criar da sua raça, como anunciou, com típica grandiloquência irlandesa, no final de “Retrato do artista quando jovem”. Dedalus/Joyce voltou a Dublin na memória e a transformou num lugar mítico, uma das cidades chaves da literatura moderna, em “Ulysses” e “<em>Finnegans wake</em>”.</p>
<p>Mas você não chega à Dublin transfigurada de Joyce, chega em apenas outra capital do McMundo. O Rio Lifey, mesmo com uma simbólica lua cheia em cima, é apenas um rio que divide a cidade, não é o rio recorrente da vida que passa pelo Eden e deságua em si mesmo, ou Anna Livia Plurabelle, a mulher-rio, de “<em>Finnegans wake</em>”. Nem o homem sentado ao seu lado no “<em>pub</em>” é a condição humana incorporada na última versão do Leopold Bloom. Aliás, provavelmente é um turista alemão, nada mais longe da condição humana.</p>
<p>A cidade dá a devida atenção a Joyce. Há uma estátua dele numa rua central, um centro de estudos e um museu com seu nome e um Hotel Bloom (com um previsível “Molly Bar”, em homenagem à lânguida sra. Bloom, cujo “<em>stream of consciousness</em>” em “Ulysses” fez história literária e escândalo e levou o livro a ser proibido em vários países).</p>
<p>Imagino que o dia 16 de junho em que se passa toda a ação de “Ulysses” seja comemorado de algum modo na cidade. Mas é impossível evitar a sensação de que Joyce representa para Dublin o mesmo problema que Freud representa para Viena.</p>
<p>São dois filhos complicados, com ideias e obras não facilmente reduzíveis para folhetos turísticos, e que têm pouco a ver com o espírito do lugar. Em Viena, o desconforto é maior. A Dublin mitificada de Joyce, afinal, não era um lugar lúgubre. Já Freud lembra tudo que a cidade da valsa e da torta de chocolate nem quer saber.</p>
<p>Mas a Dublin que a gente espera é a vista do exílio, o que quer dizer que chega-se lá para desconhecê-la. Depois de passar quatro dias em Dublin e gostar da sua jovialidade e alegre familiaridade, você se sente tentado a pedir desculpas a Joyce. Por confraternizar com o inimigo.</p>
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		<title>Texto e contexto</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jun 2013 19:59:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Fernando Veríssimo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas 2013]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>

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		<description><![CDATA[De Luis Fernando Verissimo, publicado originalmente no jornal O Globo em 09/06/2013. &#160; Na peça “Ricardo II”, de Shakespeare, há uma fala famosa que é muito citada como um hino patriótico à Inglaterra. Quem a diz é o duque John de Gount, tio do rei Ricardo II e pai de Henry Bolingbroke, desafeto exilado do [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>De Luis Fernando Verissimo, publicado originalmente no jornal O Globo em 09/06/2013.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na peça “Ricardo II”, de Shakespeare, há uma fala famosa que é muito citada como um hino patriótico à Inglaterra. Quem a diz é o duque John de Gount, tio do rei Ricardo II e pai de Henry Bolingbroke, desafeto exilado do rei, que acabará derrubando do trono.</p>
<p>John de Gount, à beira da morte, exalta as riquezas e as glórias do seu país (“este outro Eden”, “esta pedra preciosa posta no mar prateado”, a salvo “da inveja de terras menos felizes”, “este lote abençoado, este chão, este reino, esta Inglaterra”) num tom de entusiasmo crescente que empolga até quem não é inglês — se lido até a metade.</p>
<p>O resto da fala, raramente citada, é um lamento pelo declínio desta maravilha, cuja grandeza o rei está dilapidando. “Esta Inglaterra acostumada a conquistar, hoje é vergonhosamente derrotada por si mesma”, diz Gount, que termina desejando que “o escândalo desapareça junto com a minha vida, alegrando minha morte iminente”.</p>
<p>Já contei (umas cem vezes) que vi o Millôr Fernandes levantar uma plateia num encontro literário em Passo Fundo com a leitura de um texto de candente defesa da democracia e dos direitos humanos, e depois da ovação revelar que acabara de ler o discurso de posse do general Médici na Presidência da República, quando se inaugurava o período mais escuro da ditadura.</p>
<p>Um período em que com frequência o discurso do poder contrastava com a realidade à sua volta, e o texto era desmentido pelo contexto. A aula do Millôr foi sobre a força autônoma da retórica, capaz de mobilizar uma multidão que ignora seu contexto. Mas pior do que isto é quando o contexto é conhecido e mesmo assim as palavras compõem outra realidade, e empolgam e mobilizam do mesmo jeito.</p>
<p>A história brasileira está cheia de exemplos do triunfo da oratória bacharelista sobre a realidade do momento, do dito sem a menor relação com o feito.</p>
<p>Para ser justo com o Médici e o autor do seu discurso, é preciso reconhecer que em todo discurso de posse presidencial há um desencontro parecido entre intenção e realidade. Quem não se lembra do discurso de posse do Collor?</p>
<p>Shakespeare tem outros exemplos de textos em que uma parte se vira contra a outra, como a exaltação que vira lamento de John de Gount. O mais notório é a fala de Marco Antonio sobre o corpo de César assassinado, que começa dando razão aos assassinos e termina incitando a massa a matá-los. Em outro trecho da peça alguém diz que se deve ter muito, mas muito cuidado com os bons oradores.</p>
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		<title>Ting-ling</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jun 2013 15:30:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Fernando Veríssimo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas 2013]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal Verissimo]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Luis Fernando Verissimo, publicado originalmente no jornal Estadão em 06/06/2013. Verissimo é colunista no Estadão às quintas-feiras.   Nas casas senhoriais do Japão antigo era comum colocarem sininhos sob o assoalho dos corredores. Era impossível pisar numa taboa do chão de um corredor sem que soassem os sininhos. Conhecendo-se a violenta história do Japão [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Por Luis Fernando Verissimo, publicado originalmente no jornal Estadão em 06/06/2013.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Verissimo é colunista no Estadão às quintas-feiras.</em></p>
<p style="text-align: right;"> </p>
<p>Nas casas senhoriais do Japão antigo era comum colocarem sininhos sob o assoalho dos corredores. Era impossível pisar numa taboa do chão de um corredor sem que soassem os sininhos. Conhecendo-se a violenta história do Japão medieval, com facções em luta constante pelo poder, é fácil deduzir que os sininhos existiam para denunciar a aproximação de espiões ou assassinos. Mas o ting-ling também devia servir como alarme contra ladrões e para prevenir o flagrante de adultério. Imagine-se a senhora da casa prestes a arrancar as calças do entregador de pizzas, ou o equivalente na época, quando este levanta a cabeça e pergunta:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>- Esse som de sininhos, é do templo?</p>
<p>- Não, é o meu marido!</p>
<p>O ting-ling era uma maneira prática de evitar surpresas. Mas pode-se imaginar o grau de desconfiança de uma sociedade em permanente pavor do que vem pelo corredor. Até que se revelasse quem ou o que vinha, os sininhos poderiam significar qualquer coisa, alimentar qualquer paranoia. E qualquer tilintar poderia ser confundido com o ting-ling. Um gorjeio de passarinho, um pingo de chuva no teto, um brinde com cristais, até os inocentes sininhos do templo. E um gato solto num corredor espalharia o terror pela casa toda.</p>
<p>No Brasil de hoje desenvolvemos uma paranoia parecida. De tanto ouvir falar em roubalheira e maracutaias nos acostumamos a equacionar política e corrupção. Tudo que vem pelo corredor é suspeito, todo ting-ling é um prenúncio de escândalo. E como no Japão antigo também vivemos em permanente estado de desconfiança. Claro que a classe política é responsável pela sua própria má reputação, mas há exceções importantes. E hoje não se rouba mais do que antes &#8211; é que antes não se ficava sabendo a metade.</p>
<p>Enfim: nem tudo que tilinta é má notícia.</p>
<p>Motivo. Da série Poesia Numa Hora Dessas?!</p>
<p>&#8220;Ele em Porto Alegre</p>
<p>onde o aeroporto</p>
<p>vira e mexe</p>
<p>fecha.</p>
<p>Ela em São Paulo</p>
<p>onde tem nevoeiro</p>
<p>de janeiro a janeiro.</p>
<p>Resultado: o amor acabou.</p>
<p>Por nenhum motivo concreto</p>
<p>- por falta de teto.&#8221;</p>
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		<title>Ferreira Gullar, e a força das palavras</title>
		<link>http://www.literal.com.br/ferreira-gullar/ferreira-gullar-e-a-forca-das-palavras/</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Jun 2013 15:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Literal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Acervo de vídeos: Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevistas Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>

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		<description><![CDATA[[Ramon Mello e Heyk Pimenta] &#160; Passadas as comemorações de seus 80 anos, em 2010, Ferreira Gullar continua a atender a freqüentes pedidos de entrevistas com a mesma paciência e vigor intelectual. Numa manhã de maio de 2013, recebeu a equipe do Portal Literal  em seu apartamento em Copacabana. A única exigência do poeta: a [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>[Ramon Mello e Heyk Pimenta]</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Passadas as comemorações de seus 80 anos, em 2010, Ferreira Gullar continua a atender a freqüentes pedidos de entrevistas com a mesma paciência e vigor intelectual. Numa manhã de maio de 2013, recebeu a equipe do<strong> Portal Literal</strong>  em seu apartamento em Copacabana. A única exigência do poeta: a conversa deveria ser somente sobre poesia, especificamente sobre seu último livro de poemas, <i>Em alguma parte alguma, </i>pelo qual recebeu os<i> </i>prêmios Jabuti de Poesia e Melhor Livro do Ano, e o prêmio Moacyr Scliar de Literatura.</p>
<p>Poeta, crítico de arte, dramaturgo, tradutor, biógrafo, memorialista e ensaísta, Ferreira Gullar é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira. Naturalmente, com uma trajetória que atravessa momentos importantes da formação da nossa cultura, falou sobre muito mais do que poesia &#8211; também sobre arte e a inquietude diante da existência.</p>
<p>E, ao final do encontro, o poeta nos surpreendeu com uma emocionante leitura do poema <em>Doída Alegria</em>, dedicado a seu falecido <em>Gatinho</em>. Ficamos, assim, com o testemunho de um homem consciente da força de suas palavras: “O sentido da vida é o outro”.</p>
<p><strong>Assista ao vídeo da entrevista com Ferreira Gullar:</strong></p>
<p><iframe src="http://player.vimeo.com/video/67150602" height="281" width="500" allowfullscreen="" frameborder="0"></iframe></p>
<p><a href="http://vimeo.com/67150602">PORTAL LITERAL &#8211; FERREIRA GULLAR, 2013</a> from <a href="http://vimeo.com/user14033096">Portal Literal</a> on <a href="http://vimeo.com">Vimeo</a>.</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>Na imprensa: Verissimo e Zuenir são semifinalistas do prêmio Portugal Telecom 2013</title>
		<link>http://www.literal.com.br/zuenir-ventura/na-imprensa-verissimo-e-zuenir-sao-finalistas-do-premio-portugal-telecom-2013/</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Jun 2013 15:24:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Literal</dc:creator>
				<category><![CDATA[Destaque Principal Verissimo]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal Zuenir]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens Verissimo]]></category>
		<category><![CDATA[Reportagens Zuenir]]></category>
		<category><![CDATA[Zuenir Ventura]]></category>

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		<description><![CDATA[Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo em 03/06/2013. Prêmio Portugal Telecom divulga lista de semifinalistas  &#160; O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa anunciou nesta segunda (dia 3 de junho) seus 63 semifinalistas. Os pré-selecionados concorrem nas categorias romance, poesia e conto/crônica. No total, 450 livros foram inscritos no prêmio. Na [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Publicado originalmente no jornal <a href="http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1288914-premio-portugal-telecom-divulga-lista-de-semifinalistas.shtml">Folha de São Paulo</a> em 03/06/2013.</em></p>
<h3 style="text-align: center;">Prêmio Portugal Telecom divulga lista de semifinalistas </h3>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa anunciou nesta segunda (dia 3 de junho) seus 63 semifinalistas.</p>
<p>Os pré-selecionados concorrem nas categorias romance, poesia e conto/crônica. No total, 450 livros foram inscritos no prêmio.</p>
<p>Na categoria romance aparecem títulos como &#8220;Barba Ensopada de Sangue&#8221; (ed. Companhia Das Letras), de Daniel Galera, &#8220;Solidão Continental&#8221; (ed. Record), de João Gilberto Noll, e &#8220;O Filho de Mil Homens&#8221; (ed. Cosac Naify), de Valter Hugo Mãe, que venceu o Portugal Telecom no ano passado.</p>
<p>Na categoria poesia concorrem, entre outros, &#8220;Porventura&#8221; (Ed. Record), de Antonio Cicero, e &#8220;O Amor e Depois&#8221;, (Ed. Iluminuras), de Mariana Ianelli.</p>
<p>Já a lista de conto/crônica inclui &#8220;Diálogos Impossíveis&#8221; (Ed. Objetiva), de Luis Fernando Verissimo, e &#8220;Páginas Sem Glória&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Sérgio Sant&#8217;Anna.</p>
<p>Em setembro, um júri vai selecionar, a partir dos 63 livros divulgados agora, os 12 finalistas do prêmio &#8211;quatro para cada categoria.</p>
<p>O resultado final será anunciado em novembro. O vencedor de cada categoria vai receber R$ 50 mil.</p>
<p>Entre os três autores ganhadores será escolhido Grande Prêmio Portugal Telecom 2013, que receberá mais R$ 50 mil.</p>
<p>Confira a lista completa:</p>
<p><b>ROMANCE</b></p>
<p>&#8220;A Confissão Da Leoa&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Mia Couto</p>
<p>&#8220;A Máquina De Madeira&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Miguel Sanches Neto</p>
<p>&#8220;A Noite Das Mulheres Cantoras&#8221; (Ed. Leya), de Lídia Jorge</p>
<p>&#8220;A Sul. O Sombreiro&#8221; (Ed. Leya), de Pepetela</p>
<p>&#8220;As Visitas Que Hoje Estamos&#8221; (Ed. Iluminuras), de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira</p>
<p>&#8220;Barba Ensopada De Sangue&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Daniel Galera</p>
<p>&#8220;Big Jato&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Xico Sá</p>
<p>&#8220;Caderno De Ruminações&#8221; (Ed. Alfaguara), de Francisco J. C. Dantas</p>
<p>&#8220;Desde Que O Samba É Samba&#8221; (Ed. Planeta Do Brasil), de Paulo Lins</p>
<p>&#8220;Deus Foi Almoçar&#8221; (Ed. Planeta Do Brasil), de Ferrez</p>
<p>&#8220;Era Meu Esse Rosto&#8221; (Ed. Record), de Márcia Tiburi</p>
<p>&#8220;Estive Lá Fora&#8221; (Ed. Algaguara), de Ronaldo Correia De Brito</p>
<p>&#8220;Mar Azul&#8221; (Ed. Rocco), de Paloma Vidal</p>
<p>&#8220;O Casarão Da Rua Do Rosário&#8221; (Ed. Bertrand Brasil), de Menalton Braff</p>
<p>&#8220;O Céu Dos Suicidas&#8221; (Ed. Alfaguara), de Ricardo Lísias</p>
<p>&#8220;O Filho De Mil Homens&#8221; (Ed. Cosac Naify), de Valter Hugo Mãe</p>
<p>&#8220;O Mendigo Que Sabia De Cor Os Adágios De Erasmo De Rotterdam&#8221; (Ed. Record), de Evandro Affonso Ferreira</p>
<p>&#8220;O Que Deu Para Fazer Em Matéria De História De Amor&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Elvira Vigna</p>
<p>&#8220;O Sonâmbulo Amador&#8221; (Ed. Alfaguara), de José Luiz Passos</p>
<p>&#8220;Pauliceia De Mil Dentes&#8221; (Ed. Prumo), de Maria José Silveira</p>
<p>&#8220;Sôbolos Rios Que Vão&#8221; (Ed. Alfaguara), de António Lobo Antunes</p>
<p>&#8220;Solidão Continental&#8221; (Ed. Record), de João Gilberto Noll</p>
<p><b>POESIA</b></p>
<p>&#8220;A Casa Dos Nove Pinheiros&#8221; (Ed. Dobra Editorial), de Ruy Espinheira Filho</p>
<p>&#8220;A Cicatriz De Marilyn Monroe&#8221; (Ed. Iluminuras), de Contador Borges</p>
<p>&#8220;A Praça Azul E Tempo De Vidro&#8221; (Ed. Paes), de Samarone Lima</p>
<p>&#8220;A Voz Do Ventríloquo&#8221; (Ed. Selo Edith), de Ademir Assunção</p>
<p>&#8220;As Maçãs De Antes&#8221; (Ed. Biblioteca Do Paraná), de Lila Maia</p>
<p>&#8220;Caderno Inquieto&#8221; (Ed. Dobra Editorial), de Tarso De Melo</p>
<p>&#8220;Ciclo Do Amante Substituível&#8221; (Ed. 7 Letras), de Ricardo Domeneck</p>
<p>&#8220;Deste Lugar&#8221; (Ed. Ateliê Editorial ), de Paulo Elias Franchetti</p>
<p>&#8220;Engano Geográfico&#8221; (Ed. 7 Letras), de Marília Garcia</p>
<p>&#8220;Formas Do Nada&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Paulo Henriques Britto</p>
<p>&#8220;Meio Seio&#8221; (Ed. Língua Geral), de Nicolas Behr</p>
<p>&#8220;Mirantes&#8221; (Ed. 7 Letras), de Roberval Pereyr</p>
<p>&#8220;O Amor e Depois&#8221;, (Ed. Iluminuras), de Mariana Ianelli</p>
<p>&#8220;Ouro Preto&#8221; (Ed. Scriptum), de Mário Alex Rosa</p>
<p>&#8220;Píer&#8221; (Ed. 34), de Sérgio Alcides</p>
<p>&#8220;Porventura&#8221; (Ed. Record), de Antonio Cicero</p>
<p>&#8220;Quando Não Estou Por Perto&#8221; (Ed. 7 Letras), de Annita Costa Malufe</p>
<p>&#8220;Sentimental&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Eucanaã Ferraz</p>
<p>&#8220;Totens&#8221; (Ed. Iluminuras), de Sérgio Medeiros</p>
<p>&#8220;Trato De Silêncios&#8221; (Ed. 7 Letras), de Luci Collin</p>
<p>&#8220;Um Útero É Do Tamanho De Um Punho&#8221; (Ed. Cosac Naify), de Angélica Freitas</p>
<p><b>CONTO/CRÔNICA</b></p>
<p>&#8220;A Caneta E O Anzol&#8221; (Ed. Geração Editorial), de Domingos Pellegrini</p>
<p>&#8220;A Última Madrugada&#8221; (Ed. Leya), de João Paulo Cuenca</p>
<p>&#8220;A Verdadeira História Do Alfabeto&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Noemi Jaffe</p>
<p>&#8220;Ai Meu Deus, Ai Meu Jesus&#8221; (Ed. Bertrand Brasil), de Fabrício Carpinejar</p>
<p>&#8220;Aquela Água Toda&#8221; (Ed. Cosac Naify), de João Anzanello Carrascoza</p>
<p>&#8220;As Verdades Que Ela Não Diz&#8221; (Ed. Foz), de Marcelo Rubens Paiva</p>
<p>&#8220;Cheiro De Chocolate E Outras Histórias&#8221; (Ed. Nova Alexandria), de Ronivalter Jatoba</p>
<p>&#8220;Como Andar No Labirinto&#8221; (Ed. L&amp;Pm), de Affonso Romano Sant&#8217;anna</p>
<p>&#8220;Contos Inefáveis&#8221; (Ed. Nova Alexandria), de Carlos Nejar</p>
<p>&#8220;Copacabana Dreams&#8221; (Ed. Cosac Naify), de Natercia Pontes</p>
<p><strong>&#8220;Crônicas Para Ler Na Escola&#8221; (Ed. Objetiva), de Zuenir Ventura</strong></p>
<p><strong>&#8220;Diálogos Impossíveis&#8221; (Ed. Objetiva), de Luis Fernando Veríssimo</strong></p>
<p>&#8220;Essa Coisa Brilhante Que É A Chuva&#8221; (Ed. Record), de Cíntia Moscovich</p>
<p>&#8220;Jogo De Varetas&#8221; (Ed. 7 Letras), de Manoel Ricardo De Lima</p>
<p>&#8220;Livro Das Horas&#8221; (Ed. Record), de Nélida Piñon</p>
<p>&#8220;Manhãs Adiadas&#8221; (Ed. Dobra Editorial), de Eltania Andre</p>
<p>&#8220;Mistura Fina&#8221; (Ed. 7 Letras), de Vera Casa Nova</p>
<p>&#8220;O Tempo Em Estado Sólido&#8221; (Ed. Grua), de Tercia Montenegro</p>
<p>&#8220;Páginas Sem Glória&#8221; (Ed. Companhia Das Letras), de Sérgio Sant&#8217;Anna</p>
<p>&#8220;Shazam!&#8221; (Ed. 7 Letras), de Jorge Viveiros de Castro</p>
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		<title>Na boca dos vizinhos</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jun 2013 14:52:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ferreira Gullar</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas Gullar]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal]]></category>
		<category><![CDATA[Ferreira Gullar]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Ferreira Gullar, originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo em 09/06/2013. Gullar é colunista da Folha aos domingos.   Ao chegar à caixa do supermercado, a moça que ali atendia me falou: &#8220;É verdade que o senhor vai parar de escrever poesia? Não faça isso, poeta, por favor!&#8221;. Não acreditei no que ouvira. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Por Ferreira Gullar, originalmente publicado no jornal Folha de São Paulo em 09/06/2013. </em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Gullar é colunista da Folha aos domingos.</em></p>
<p style="text-align: right;"> </p>
<p>Ao chegar à caixa do supermercado, a moça que ali atendia me falou: &#8220;É verdade que o senhor vai parar de escrever poesia? Não faça isso, poeta, por favor!&#8221;. Não acreditei no que ouvira. Aquela moça, que mal conheço e passa o dia a cobrar pelas compras dos fregueses, sabe quem sou eu e lamenta que eu não vá mais escrever poesia! &#8220;Mas quem lhe disse isso&#8221;, perguntei, e ela: &#8220;Li naquele jornalzinho que o pessoal distribui de graça&#8221;.</p>
<p>Só então me lembrei da entrevista que havia dado a um jornal de bairro e que fora publicada com um título mais ou menos assim: &#8220;Gullar diz que não vai mais escrever poesia&#8221;.</p>
<p>- Não foi bem isso que eu disse &#8211;expliquei à moça da caixa. Afirmei foi que talvez não venha mais a escrever poesia. Não disse que decidi não escrever mais.</p>
<p>Peguei minhas compras e me dirigi para casa, um tanto surpreso com aquela conversa. A moça não apenas deu importância ao que saíra no jornal, como lamentara minha suposta decisão. Jamais pensara que minha poesia interessasse a uma caixa de supermercado. Na minha visão equivocada, às pessoas do povo o que importa são as novelas de televisão. Daí o meu espanto.</p>
<p>Mas o espanto não parou aí. Dias depois, ao atravessar a rua, uma senhora me interpela e me diz que seu filho de dez anos ficara muito triste ao saber que eu ia parar de escrever poesia. &#8220;Ele sabe seus poemas de cor.&#8221; Expliquei-lhe que não foi aquilo o que disse ao repórter. &#8220;Diga a seu menino que a poesia sopra onde e quando quer, ninguém manda nisso.&#8221;</p>
<p>E segui meu caminho, feliz de saber que um garoto de dez anos ama meus poemas. Só me resta agora pedir às Musas que me ajudem e não me deixem parar de fazer poemas.</p>
<p>De qualquer modo, vendo que a notícia se alastrara e que, para minha surpresa, há quem deseje que eu continue a escrever poesia, sinto-me na obrigação de esclarecer o assunto. A coisa<br />é a seguinte: escrever ou não escrever poesia não é coisa que se decida. Logo, não foi o que eu declarei àquela repórter do jornal de bairro.</p>
<p>Na verdade, sempre que termino de escrever um livro de poemas, tenho a impressão de que não vou escrever mais, de que a fonte secou. A primeira vez que isso aconteceu foi com &#8220;A Luta Corporal&#8221;, cujos últimos poemas datam do começo de 1953.</p>
<p>Ao escrever o poema &#8220;Roçzeiral&#8221;, em que desintegrava a linguagem, achei que não iria escrever mais. Naquela vez, pelo menos havia uma razão efetiva, já que, ao desintegrar o discurso poético, tornava inviável seguir escrevendo. Mas a coisa se repetiu, anos depois, quando publiquei &#8220;Barulhos&#8221;, quando publiquei &#8220;Muitas Vozes&#8221; e, recentemente, ao dar por concluído &#8220;Em Alguma Parte Alguma&#8221;.</p>
<p>Creio que isso se deve ao fato de que não planejo nada, muito menos meus livros de poemas. De repente, descubro um tema novo, um veio que passo a explorar até esgotá-lo. Isso demora anos, porque, também, ao concluir cada poema, tenho a impressão de que o veio se esgotou.</p>
<p>Sim, pois do contrário, não daria por findo o poema. Mas chega um momento em que o veio se esgota mesmo, percebo que não há mais nada a retirar dali. Dou o livro por concluído e aí vem a sensação de que não escreverei mais. Sim, porque se não descobrir outro veio, não terei o que escrever. E enquanto não o descubro, essa sensação se mantém até que, de repente, um belo dia, a poesia volta a me iluminar.</p>
<p>Os fatos têm mostrado que acabo por descobrir um veio novo e volto a escrever. Pelo menos foi o que aconteceu até então. Sucede que o último poema do meu último livro &#8220;Em Alguma Parte Alguma&#8221; data de novembro de 2009, e até hoje, três anos e sete meses depois, não voltei a fazer nenhum poema.</p>
<p>Nunca fiquei tanto tempo sem escrever poesia. E não me sinto motivado a escrever. Sempre digo que meus poemas nascem do espanto, ou seja, de algo que põe diante de mim um mundo sem explicação. É essa perplexidade que me faz escrever. Pode ser que, aos 82 anos de idade, já nada mais me espante na vida.</p>
<p>Mal escrevo essas palavras e chega Maria, empregada minha há mais de 20 anos, que nunca leu um poema meu e nunca tocou nesse assunto durante todos esses anos, e me diz:</p>
<p>- Seu Gullar, é verdade que o senhor resolveu não escrever mais poesia? É o que o pessoal anda dizendo por aí.</p>
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		<title>Touradas</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Jun 2013 20:09:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luis Fernando Veríssimo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas 2013]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal Verissimo]]></category>
		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>

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		<description><![CDATA[Texto de Luis Fernando Verissimo, originalmente publicado no jornal O Globo em 02/06/2013. A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Texto de Luis Fernando Verissimo, originalmente publicado no jornal O Globo em 02/06/2013.</em></p>
<p>A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. Ainda não se chegou a um acordo sobre o quê, exatamente, toureiro e touro simbolizam.</p>
<p>A metáfora não é clara. Razão x instinto? Cultura x natureza? Civilização x força bruta? Ou — como li em algum lugar — tudo não passa de um ritual de sedução, com o Homem subjugando a Mulher, a Besta Primeva e todos os seus terrores, numa espécie de tango sangrento em que não falta uma penetração no fim?</p>
<p>Ou o toureiro gracioso é a mulher estilizada e o touro resfolgante uma paródia de homem? Enfim, seja o que for que se decide numa arena de touros, os espanhóis terminam o ritual, os portugueses deixam pra lá.</p>
<p>Na Argentina, os líderes militares da época da repressão foram processados e as atrocidades cometidas pela ditadura punidas, ou pelo menos amplamente discutidas. No Chile, aos poucos a história ainda mal contada do governo Pinochet se incorpora à história oficial do país — para ser reconhecida e expiada, para que reconciliação não signifique absolvição e para que nunca mais se repita.</p>
<p>No Brasil, a repressão foi menos assassina do que na Argentina e no Chile — se é que se pode falar em graduações de barbaridade — e ninguém ainda teve que dar muitas explicações. No caso, a simpática irresolução portuguesa desserve a História. Pois, se o touro continua vivo, o que há para expiar? Aqui, até agora, venceu o deixa-pra-lá-ismo.</p>
<p>Já que temos que ser ibéricos, o que é melhor, ser português ou espanhol? Os espanhóis parecem viver mais perto do coração selvagem da vida. Os portugueses preferem menos drama e menos sangue.</p>
<p>Voltando ao touro: uma tourada espanhola sempre acaba com o animal morto, com uma resolução. Uma tourada portuguesa pode ser um espetáculo emocionante, mas o touro sobrevive e nada se resolve. E ainda se discute se convém irritar o touro.</p>
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		<title>Crônica de hospital</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Jun 2013 11:21:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Zuenir Ventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas Zuenir]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque Principal Zuenir]]></category>
		<category><![CDATA[Zuenir Ventura]]></category>

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		<description><![CDATA[Texto de Zuenir Ventura, originalmente publicado no jornal O Globo, em 01/06/2013. Já constitui uma espécie de subgênero de autoajuda o relato de experiências com doenças e hospitais — quando, bem entendido, se sobrevive para contar. Rubem Braga falou do pulmão que perdeu para o câncer: “Quem quiser que se fume.” Veríssimo contou como foi [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em>Texto de Zuenir Ventura, originalmente publicado no jornal O Globo, em 01/06/2013.</em></p>
<p>Já constitui uma espécie de subgênero de autoajuda o relato de experiências com doenças e hospitais — quando, bem entendido, se sobrevive para contar. Rubem Braga falou do pulmão que perdeu para o câncer: “Quem quiser que se fume.”</p>
<p>Veríssimo contou como foi parar numa emergência com uma infecção generalizada. João Ubaldo descreveu como escapou por milagre de uma pancreatite. Eu mesmo publiquei aqui há tempos a crônica “Com o autor na UTI”, onde lembrava como em menos de uma semana fora parar duas vezes na Unidade de Tratamento Intensivo da Casa de Saúde São José, com direito ao susto de uma septicemia, por causa de uma pedrinha no rim.</p>
<p>A lição era: “para qualquer sinal de alteração no organismo, o melhor remédio é procurar um médico correndo. Nada de automedicação ou de protelação, de deixar para amanhã.”</p>
<p>Agora, foi a vez do colega Denis Cavalcante, de Belém do Pará, com o texto “Sírio &amp; Libanês 1211”, relatando suas peripécias durante o mês em que esteve hospitalizado. Sua pressão chegou a 6 x 3, ficou doze dias em jejum, as “dores atrozes” só passavam com morfina e emagreceu doze quilos, mas tudo bem: “Quanto mais excesso de bagagem, mais curta a viagem.”</p>
<p>Ele seguiu à risca o princípio de que um cronista pode perder até parte do estômago, parte do intestino, mas não pode perder o humor. A exemplo de um companheiro de corredor, com quem travou o seguinte diálogo:</p>
<p>— Você sabia que esse andar é o dos pacientes desenganados? Qual foi a sua cirurgia?</p>
<p>— Operei o intestino — respondeu Denis.</p>
<p>— Fala sério! Isso é fichinha. O intestino eu fiz no Natal. Agora retirei o baço, um pedaço do pâncreas e outro do fígado.</p>
<p>“Tudo num hospital de grande porte”, ele escreveu, “se resume a uma abominável palavra: protocolo. Um simples cotonete pode demorar horas para chegar. Um picolé de abacaxi nem se fala! Em contrapartida, recebia regularmente um catatau de antibióticos e medicamentos de última geração, a fim de evitar uma infecção que, naquele momento, poderia ser fatal.”</p>
<p>Denis termina sua crônica pra cima. “Uma coisa é certa: em momento algum ousei desistir. Grande parte da cura é o desejo de ser curado.” Quem já passou por experiência parecida sabe o quanto isso é verdadeiro. A vontade pode não resolver tudo, mas ajuda muito.</p>
<p>- &#8211; - &#8211; - &#8211; -</p>
<p>A Justiça tarda, mas não falha. Demorou, mas mandou soltar quatro réus do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria. O advogado deles comemorou, debochando dos que reclamaram da decisão: “Isso é choro de perdedor.” De fato, é o choro indignado dos que perderam 242 inocentes, vítimas da irresponsabilidade dos acusados.</p>
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