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Religião, cinismo e loucura fecham o Quarteto Áspero de Raimundo Carrero
Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 22/10/2009 · nenhum
Divulgação
A jovem e solitária Camila deseja ser santa, pois assim poderia desfilar no exército das onze mil virgens do Paraíso. Ela conhece o pastor e saxofonista Leonardo, criador da seita Os Soldados da Pátria por Cristo, e talvez com ele consiga realizar seu desejo. Sem saber, é seqüestrada (seqüestrada?) e seus pais pouca bola dão ao seu paradeiro. Em uma Recife dos dias de hoje, entre a miséria e o forte misticismo, ambos vagam pela cidade, em meio à solidão, o desapego material e a loucura.

Assim, se inicia o novo romance do escritor pernambucano Raimundo Carrero, A minha alma é irmã de Deus (Record, 2009), volume que fecha a tetralogia do Quarteto Áspero. O premiado autor, com 17 romances já publicados, além de dois livros sobre o ofício de escritor, recorre à metáfora de uma geração que precisa sobreviver, mas não encontra empregos nem ajuda, e tem que lutar sozinha para alcançar alguma posição social. Recorrendo a outros romances seus, Carrero, retrabalha textos, personagens e situações. "Minha obra é uma experiência única, um só bloco, que se desenvolve através de temas, histórias, personagens e textos, entrecruzando-se. E, não raras vezes, se repetindo, embora de forma renovada. Proposital. Sempre proposital", comenta Carrero, em nota sobre o Quarteto Áspero, ao final deste último livro. Além do intratexto, o escritor recorre a outros autores, como já fez em romances anteriores, e entrecruza Shakespeare, Conrad, Monteiro Lobato, Drummond, Jorge de Lima e a Bíblia.

“A religião é um tema que me persegue e não me abandona, afinal, sou sertanejo, e nenhum sertanejo se livra da religião, mesmo quando quer. Ainda sou torturado por Deus. Além do mais, convivemos com a loucura todos os dias, todos os momentos, todos os instantes”, conta Carrero, nesta entrevista ao Portal Literal, sobre dois dos temas de sua tetralogia.

“O cinismo, a loucura, e o capitalismo sem sentido. A violência contra as mulheres e as crianças. Tudo isso teria que ser áspero, embora tratado com sofisticação, que, aliás, é a principal tarefa do escritor – sofisticação com simplicidade”, diz, sobre o romance, retrato cru e ao mesmo tempo fraterno de pessoas deslocadas e um tanto perturbadas.

Na entrevista, Carrero comenta o seu contato com Gilberto Freyre e Ariano Suassuna, fala da importância do teatro e da música em seu trabalho, das Oficinas Literárias que ministra país afora (inclusive deu uma aqui no Portal Literal, base para o recém-lançado A preparação do escritor (Iluminuras, 2009), e do seu Quarteto Áspero.


Raimundo, você teve como mestres Gilberto Freyre e Ariano Suassuna. Como foi a aproximação com eles e como era essa relação?

Raimundo Carrero
. Quando comecei a perceber que estava para sempre condenado à literatura procurei conversar com escritores de verdade. É o que chamo hoje de oficina informal. Então um sociólogo amigo, Pessoa de Moraes, me levou até a casa de Gilberto e ele foi muito generoso comigo. Começamos a conversar sobre ficção, tivemos vários encontros para discutir breves textos meus, algo muito enriquecedor. Mais tarde procurei Ariano Suassuna, através de uma cunhada minha. Ariano me recebia para longas conversas, até mesmo aos domingos, quando eu chegava lá às nove da manhã e só saía às nove da noite. Uma loucura. Ariano me orientava mesmo. Me mostrava como trabalhar uma cena em Joyce, por exemplo. Ou em Kazantzakis, um escritor grandioso, autor de Zorba, o grego, por exemplo. Sempre elogiava minha linguagem. Até que escrevi um conto "O bordada – a pantera negra", que ele adaptou para um folheto de cordel, e mais tarde escrevi também a minha primeira novela - A história de Bernarda Soledade - A tigre do Sertão, que passou a integrar o Movimento Armorial. Foi meu aprendizado mais importante.

Você escreveu inicialmente para o teatro e, além disso, é jornalista e músico. Como a literatura apareceu nesse contexto? E como estas atividades influenciam e se refletem em sua literatura?

Carrero
. Na verdade, passei minha infância e adolescência lendo peças de teatro, na loja do meu pai, em Salgueiro, sertão de Pernambuco, onde ele vendia tecidos e chapéus. As peças eram uma espécie de herança cultural que meu irmão Francisco deixou embaixo do balcão, quando viajou para São Paulo, como fazia a maior parte dos sertanejos. Ele era ator de circo. Ali comecei a escrever peças de um ato, depois representadas pelos meus amigos. Mais tarde escrevi uma peça chamada Anticrime, já adulto e casado, que perdi e não quero nem procurar. Percebi logo, porém, que meu caminho era a prosa e, embora Ariano seja um grande teatrólogo, a gente nem falava em teatro. Sem esquecer, todavia, que na pequena biblioteca do meu irmão também havia romances que li com grande entusiasmo. Conheci José Lins do Rego e Graciliano Ramos ali, ainda menino. Então é natural que tudo isso tenha me influenciado e participe da minha obra que já é bastante vasta, com 17 livros publicados. Sem contar que o universo sertanejo já estava ali, à minha frente, com toda a força que ele tem. Passava horas no sábado, dia da feira, conversando com toda aquela gente, com meu pai, que era uma figura extraordinária. Tudo isso participa da minha formação.

A música foi e é muito importante na minha vida. Estudei música, levado pela minha mãe, Maria, à Banda Filarmônica de Salgueiro. Aos dez anos de idade já tocava clarinete e requinta. Depois fui para a banda do Colégio Salesiano, onde estudei no internato. No Interior, formei outra banda, chamada "Os cometas", mas foi em "Os tártaros", uma banda profissional, onde vivi os meus melhores momentos. Ali toquei sax-tenor, o que faço até hoje, só por diversão. Meus personagens Leonardo e Jeremias, ambos alter-egos, são músicos e se divertem muito. E o jornalismo foi uma exigência profissional. Eu precisava fazer alguma coisa para sobreviver. Trabalhei no Diário de Pernambuco, no Jornal Universitário e na Televisão Universitária, órgãos da Universidade Federal de Pernambuco. Uma experiência extraordinária.

Como começaram as oficinas literárias? E por que realizá-las?

Carrero
. Comecei a realizar oficinas literárias em 1989, porque queria discutir técnicas com formação diferente da minha. Mas somente em 1999 me tornei um profissional nesta área. Hoje tenho dois livros sobre o assunto: Os segredos da ficção (Agir, 2005) e A preparação do escritor (Iluminuras, 2009), tenho uma oficina com quatro turmas aqui no Recife e viajo o país inteiro dando aulas. A oficina, é preciso lembrar, funciona como uma ferramenta, uma auxiliar no processo criativo. E necessário porque nós escritores perdemos o hábito de discutir literatura. É incrível, mas os escritores brasileiras não gostam do debate literário. Faz tempo procurei escritores para discutir a formação intelectual de um jovem, por exemplo, e todos se negaram. Veio a necessidade da oficina. E ela funciona muito bem. Graças a Deus.

Quais as diferenças entre seus dois livros sobre o ofício da escrita, Os segredos da ficção (Agir, 2005) e A preparação do escritor (Iluminuras, 2009)?

Carrero
. Os segredos da ficção, digamos, é um livro mais abrangente, com muitos assuntos e muitos debates. A preparação do escritor considera o escritor e o leitor, a partir da teoria da duração psicológica do leitor, que nasce ainda com Edgar Allan Poe, desde "O corvo", cujo processo criador ele revela em A filosofia da composição. Acredito, sinceramente, que os dois podem ajudar o aprendiz de escritor, que não acredita em inspiração, por exemplo. Tanto quanto a poesia, o romance – a narrativa longa – é também "cosa mentale" e todo escritor precisa ter consciência do que faz.

Você acaba de lançar A minha alma é irmã de Deus (Record, 2009), que finaliza o ciclo Quarteto Áspero, de Maçã agreste (1989) Somos pedras que se consomem (Iluminuras, 1995) e O amor não tem bons sentimentos (Iluminuras, 2007). Poderia comentar essa aspereza que permeia os romances?

Carrero.
Desde Maçã agreste, percebi que havia material para uma série de romance, cujo título central ainda não tinha. Apesar de ser um escritor técnico, que se preocupa mais com a estética do que com o social, por exemplo, vi que poderia fazer uma longa reflexão, nos meus quatro romances, sobre o Brasil do final do século XX e princípio do século XXI. Então fui reunindo material e distribuindo os temas em cada um dos romances, até chegar a A minha alma é irmã de Deus, que concentra os três romances anteriores e é uma espécie de ciranda de personagens e temas. O tema central é o cinismo que atingiu o Brasil nos últimos anos. O cinismo, a loucura, e o capitalismo sem sentido. A violência contra as mulheres e as crianças. Tudo isso teria que ser áspero, embora tratado com sofisticação, que, aliás, é a principal tarefa do escritor - sofisticação com simplicidade. Com certeza, embora algumas pessoas não vejam simplicidade nas minhas técnicas. Mas é assim e pretendo continuar.

Em A minha alma é irmã de Deus (Record, 2009), a memória e um narrador não-confiável tomam a perspectiva, em um enredo que envolve religião e loucura. Por que abordar estes temas?

Carrero.
A religião é um tema que me persegue e não me abandona, afinal, sou sertanejo, e nenhum sertanejo se livra da religião, mesmo quando quer. Ainda sou torturado por Deus. Digo ainda porque as pessoas se admiram muito com isso. Não vejo problema. E, mesmo num momento de absoluto materialismo, continuo me debatendo. Quando você esquece Deus também esquece o humano. Um é conseqüência do outro. Não vejo outra saída. Não é só uma coisa pessoal, da solução dos meus problemas. Espero que as pessoas compreendam e se debatam com isso. Precisamos de Deus, sempre. Sem caretismo, sem exibição de falsa religião, mas como tema de debate e análise. E por isso. Além do mais, convivemos com a loucura todos os dias, todos os momentos, todos os instantes. E eu procuro a sustentação num assunto que é também a minha técnica, e a minha motivação. Mas às vezes desconfio que não é só loucura. Aliás, a loucura pode ser uma desculpa para tudo. Então quero entender o que leva o homem à loucura.

O livro ganha uma versão em curta-metragem ao mesmo tempo do seu lançamento. Como foi isso, inclusive sua participação como roteirista e ator?

Carrero.
É verdade, me transformei num roteirista quando nem pensava nisso. Mas quando a Bienal do Livro de Pernambuco resolveu me homenagear, pensei também em alguma coisa que significasse a minha homenagem à Bienal. Então procurei Luci Alcântara, minha amiga, procurando saber se ele queria dirigir o filme, que também se chama A minha alma é irmã de Deus (Confira imagens do filme). Foi quando ela me pediu para escrever o roteiro. Mais tarde ela me convidou para fazer o papel do pai de Camila. Aceitei e terminou saindo melhor do que eu pensava. Até porque já havia uma experiência minha, direta ou indiretamente. Uma bela experiência. Sem dúvida.

Como é essa sua obsessão pela linguagem? Como vê a batida questão de forma e enredo?

Carrero.
Embora sejam conceitos batidos, a gente não tem como escapar disso. É possível também que sejam palavras apenas. Mas estou sempre atento. Por exemplo, não trabalho com enredo, no sentido tradicional do termo, que vem do verbo enredar, não é mesmo? Por isso a busca até radical por uma linguagem ficcional. Faço isso sempre, faço sempre, mas preciso procurar a pulsação do personagem para encontrá-la. Sem repouso. Sem descanso. Então trabalho obstinadamente. É isso.

Trinta anos de carreira, e essa homenagem da Bienal de Pernambuco. Como é olhar pra trás? E o que essa homenagem representa?

Carrero.
Sim, olho para atrás, vejo o que já consegui e espero alcançar muito mais. Não é apenas uma questão de estar satisfeito ou insatisfeito. Sei que fiz alguma coisa. Se, por acaso, morrer agora, não morro triste – sei que realizei uma obra. Boa ou má, não quero classificação, mas realizei. Tanto realizei que recebi esta homenagem da Bienal do Livro em Pernambuco. Algo profundamente emocionante. Você não faz idéia do que isso representa no meu sangue. É um grande momento. Sem dúvida. Espero, no entanto, continuar perseguindo os meus objetivos. E já tenho plano para um novo romance, que pode se transformar numa trilogia. Vamos em frente. Com certeza.


Raimundo Carrero no Portal Literal

> Leia o trecho inicial de A minha alma é irmã de Deus (Record, 2009)

> Oficina Literária on-line com Carrero no Literal, de 2006

> A solidão oca, entrevista de Heloisa Buarque com o escritor

> Leia o conto "Pálido e gelado", de Carrero

> Raimundo Carrero na Flip, em 2005. Entrevista em vídeo. Ouça um trecho dessa entrevista.

> Raimundo Carrero passado a limpo, entrevista a Rafael Dias




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