Enquanto por aqui no Brasil o acordo ortográfico já vem sendo posto em prática por jornais, revistas, portais, editoras, nos demais países lusófonos seguem as dúvidas quanto ao cronograma de implementação, sem falar que alguns dos principais países africanos sequer ratificaram a reforma.
A BBC Brasil vem publicando um especial em seu site, com textos e matérias multimídia para tentar mapear a situação do acordo nos demais países onde se fala o português.
Em Portugal,
um manifesto digital "em defesa da língua portuguesa, contra o acordo ortográfico" já ultrapassou as 100 mil assinaturas e deu origem ao blog
Em defesa da língua portuguesa, que traz notícias sobre o acordo, aqui e nos demais países lusófonos.
Mesmo assim, as mudanças devem começar a ser implementadas ainda este ano em Portugal, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Moçambique, Guiné-Bissau, Angola e Timor-Leste ainda não ratificaram o texto, informa a
BBC Brasil.
Segundo o assessor de imprensa do Ministério da Educação, Rui Nunes, ainda não foi tomada nenhuma medida para o ensino das novas regras ortográficas, tampouco há prazo definido para tal, embora deverá haver a formação dos professores para se adaptarem às mudanças.
Continua a
BBC Brasil:
"A necessidade da existência de uma comissão responsável por elaborar um vocabulário ortográfico comum - que normatize as mudanças previstas no acordo - foi acertada entre os países de língua portuguesa, mas não foi levada adiante.
O Brasil, que saiu na frente na adoção do acordo, decidiu produzir um vocabulário ortográfico próprio, que está sendo feito pelo gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras.
Para José Mário Costa, coordenador do
Ciberdúvidas - um site na Internet que há 12 anos responde dúvidas de português - o Brasil foi precipitado ao adotar a norma sem esperar pelos portugueses e sem criar estruturas comuns para resolver os casos deixados em aberto.
'É natural que o Brasil esteja mais avançado nesta questão, porque tem mais dinamismo e interesse pela língua. Mas o acordo não especifica uma série de grafias. Falta um vocabulário comum da língua portuguesa, em cruzamento com o que se fala e se escreve hoje nos países africanos', diz Costa.
Segundo ele, além dos termos não explicitados detalhadamente no acordo (como no caso dos hífens) uma área que pode gerar divergências e duplas grafias é a dos termos científicos e médicos.
Para o linguista João Malaca Casteleiro - que negociou o acordo por parte de Portugal - já que o propósito é unificar a ortografia, o ideal seria que todos os países tivessem implementado as mudanças simultaneamente.
'Creio que do ponto de vista da política da língua, é uma pena que não entre em vigor nos vários países ao mesmo tempo. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa elegeu como central a política da língua. Como se pode promover a língua portuguesa sem resolver esse problema (da divergência ortográfica), que está pendente há um século?'"
São questões que ainda vão levar algum tempo para serem respondidas.
O mirandês, a Biblioteca Joanina de Coimbra
O especial da BBC Brasil inclui reportagens multimídia, como uma que explora o
mirandês, outra língua oficial de Portugal, falada na região de Miranda do Douro, quase divisa com a Galícia e a Espanha, e onde se fala algo que lembra estes três idiomas, mas, na verdade, a língua mirandesa deriva do leonês, que era falado no antigo Reino de Leão.
> Assista a reportagem
Em outra reportagem, o diretor Carlos Fiolhais apresenta a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, cujo nome homenageia o Rei D. João 5º, e que reúne cerca de 60 mil livros. O monarca responsável pela construção da biblioteca ocupa o lugar central do prédio, em uma posição comparável a de um altar em uma igreja.
> Confira a reportagem
Por fim,
Ivan Lessa, colunista da BBC Brasil, comenta sobre as línguas que morrem. Segundo a Unesco e seu
Atlas Interativo das Línguas em Extinção, há 2.500 línguas em perigo ou "estado crítico". De um total de 6 mil línguas, 199 são faladas por menos de 10 pessoas.
No Brasil 190 línguas indígenas correm risco de desaparecer, sendo que 45 delas foram classificadas na categoria de risco mais elevado. Ocupamos a terceira posição entre os países com maior chance de perder algumas línguas. E a próxima a morrer poderá ser o kaixiná, falada pelo tribo amazônica de mesmo nome, com cerca de 200 pessoas. A tribo se foi, restou Raimundo Avelino, de 78 anos. Conclui Lessa: "Foram, os kaixinás, desta para melhor, sobrou o bom Raimundo. Nem foi preciso a reforma ortográfica dar uma chegada à região. Qualquer tentativa de reviver a língua perdida será prontamente reformada e acordada segundo os moldes e padrões atuais".
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