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Por trás da crueldade e da sujeira, homens-bestas sabem o quanto vale um amigo
 
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Wilame Prado, Maringá (PR) · 28/7/2009 · 157 votos · 5
Divulgação
Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos
Quem ler “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” (Record, 2009), lançamento da escritora carioca Ana Paula Maia, 31, provavelmente se perguntará como uma jovem mulher arrumou tanta criatividade para escrever sobre homens cruéis e sujos; sobre sangue e violência; sobre a baixeza humana que ultrapassa atitudes irracionais de bichos; sobre cachorros, porcos, lixo e esgoto.

Na obra, estão reunidas duas novelas curtas. A primeira, com título homônimo ao do livro, trata o cotidiano do abatedor de porcos Edgar Wilson e seu amigo Gerson, que sofre de cálculo renal. A segunda novela, “O trabalho sujo dos outros”, leva ao leitor um pouco da rotina de Erasmo Wagner, lixeiro, Alandelon, operador de britadeira, e Edivardes, desentupidor de latrinas, pias, ralos, tanques, esgotos, canos, colunas de prédios e conduítes.

Algo em comum transita pela vida de quase todos os personagens das novelas. São homens-bestas, como a própria autora os denomina na apresentação do livro, “que trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida e, em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros”.

Mas, será mesmo que “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” se resume ao relato sobre histórias de homens infelizes? Pessoas que realizam algumas das tarefas mais sujas e fedidas que há na sociedade, assim como é matar animais (ou homens), catar lixo e fezes dos outros ou então destruir os próprios tímpanos com o som brutal provocado por uma britadeira ligada o dia todo? Fosse “apenas” isso, a escritora Ana Paula Maia já mereceria aplausos por conseguir descrever tão bem cotidianos, comportamentos e atitudes que, definitivamente, não fazem parte de sua rotina diária.

Entretanto, o mais louvável na obra talvez esteja um tanto quanto obscurecido pelo sangue dos porcos e de pessoas abatidas por Edgar Wilson, ou então pelo cheiro do lixo que Erasmo Wagner não recolheu das ruas em função da greve dos lixeiros. O modo como a escritora, provavelmente sem pretensão, contou uma bonita história de amizade entre homens toscos é o que realmente comove nas duas novelas. Faz o leitor lembrar que pessoas marginalizadas e embrutecidas pela vida também precisam conviver socialmente com os demais, e juntos tomar um café da manhã na padaria ou, por que não, abrir porcos, torcer por cachorros em rinhas e desentupir uma caixa de gordura, cheia de filhotes de baratas.

Ademais, quando narra cenas fortes de violência e morte, Ana Paula beira um realismo cruel e trágico. A exemplo do dia em que Edgar Wilson ajuda Gerson a tirar o rim que doara à irmã prostituta no passado. E isso sem anestesia, apenas com um canivete, já que o abridor de latas e a colher que encontraram no apartamento dela não seriam suficientes para o abate humano.

Esses e outros relatos de violência extrema, o leitor encontrará rotineiramente pelas 160 páginas do livro. E para descrever cenas fortes como essas, Ana Paula utilizou bastante diálogos e parágrafos e orações curtas, tornando o texto aprazível. Não é preciso consultar dicionário para entender aonde quer chegar a escritora e seus personagens tristes e sujos. Para entender a desgraça humana, poucas palavras bastam.

Quem gosta, por exemplo, dos filmes “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, “Old Boy”, de Park Chan-wook, ou “Amores brutos”, de Alejandro González Iñárritudo, gostará também de ler o não menos valoroso, violento e instigante “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”. Um soco bem dado na boca do estômago.

Literatura na Internet

Mesmo jovem, Ana Paula Maia já tem dois romances publicados: “O habitante das falhas subterrâneas” (7 letras, 2003) e “A guerra dos bastardos” (Língua geral, 2007). Com o sucesso do último livro, e com maior divulgação de seu trabalho (já que entrou para uma das grandes editoras do Brasil), a escritora vem sendo convidada com certa frequência a participar de palestras e workshops sobre literatura. Isso se deve também pelo fato de Ana Paula ter sido a autora, em 2006, do primeiro folhetim pulp da internet brasileira.

E por falar em internet, para quem estiver interessado em ler “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” e não tem R$ 29 para comprar, a autora está realizando em seu blog (www.killing-travis.blogspot.com) um concurso e vai premiar o vencedor com um exemplar do livro. Basta enviar uma ilustração ou foto que tenha relação com as novelas. A imagem deve ser acompanhada de um pequeno texto, com no máximo 300 caracteres.

Serviço
Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos
Autora: Ana Paula Maia
Editora: Record
Páginas: 160
Preço: R$ 29

Fragmento de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, de Ana Paula Maia

Edgar Wilson sabia que sob influência da lua nova, Chacal fervia pelas entranhas e de suas patas saíam faíscas. Ele certamente lucraria o triplo da aposta, e talvez ganhasse o suficiente para pedir a mão de Rosemery em casamento, que exigia uma geladeira nova para selarem o compromisso definitivamente. O problema é duvidar da fidelidade de Rosemery, que nos últimos tempos estava sempre alegando precisar dormir na casa da patroa, porque a mesma exigia que a faxina fosse feita bem cedo, nas terças e quintas. Mas não pensar muito sobre o que quer que seja faz parte de sua personalidade. Sempre acreditou que a Providência Divina se encarrega do fardo por demais pesado E na providência divina, Edgar deposita toda sua fé. “Pra que se colocar ansioso se isso não acrescenta nem um côvado em sua altura, nem torna um fio de cabelo preto em branco?”, era o que dizia padre Guilhermino Anchieta .

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, Edgar Wilson não reclama da vida.

O distante ronco de um motor lhe faz apagar um cigarro sobre uma porção de formigas que reúnem-se ao redor de seu último escarro. Percebe uma coloração avermelhada e teme por algum tipo de mazela. Verifica as horas, calça suas botas de borracha e se coloca de pé. Vê a caminhonete se aproximar, dirige-se até o telefone atrás do balcão e liga para Gerson, seu ajudante, que alega estar sofrendo de uma crise renal.


tags: Maringá PR literatura resenha pulp


 
Artigo coerente. Votado.

Paola Rhoden · Brasília (DF) · 28/7/2009 11:41
Wilame,
Valeu pela divulgação deste artigo.
Lido e votado.
Um abraço.
Arimatéia - www.arimateia.com

Arimatéia Macêdo · Gurupi (TO) · 28/7/2009 14:15
Mais Ana Paula Maia aqui no Literal:

> De olho neles

> Literatura sem papel

> Quanto mais pulp melhor

> Barbudos cretinos e suas histórias canalhas (trecho)



Bruno Dorigatti · Rio de Janeiro (RJ) · 28/7/2009 17:34
Wilame,

Instigante e interessantíssomo, o seu artigo.

Kafka com leite · Belo Horizonte (MG) · 29/7/2009 09:58
Muito interessante

JuliaBrito · Cabo Frio (RJ) · 30/7/2009 01:13
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