Entrar
Novo no Literal? Registre-se
Os irmãos Karamázov
 
1
Haron Gamal, Rio de Janeiro (RJ) · 12/5/2009 · 205 votos · 13
Relutei se falaria ou não sobre Dostoiévski, mas a caixa com os dois volumes da nova edição de Os irmãos Karamázov sobre a mesa, destacando-se dos outros livros, e a lembrança de Dimitri, Ivan e Alieksiêi insistiam em impelir-me adiante. Daí me vi na iminência de ter de renunciar à minha vida de resenhista, caso não escrevesse sobre o livro.

Dostoiévski viveu de 1821 a 1881, deparou-se com os principais problemas de seu tempo e de sua Rússia, teve uma vida cheia de peripécias, inclusive foi condenado por crime político, quando jovem, à morte, junto com alguns companheiros. O grupo teve a pena comutada, minutos antes da execução, para trabalhos forçados na Sibéria.

Como todo grande escritor, a obra do autor russo foi crescendo pouco a pouco. De contos e novelas chegou à fase (alguns criticam essa palavra) do seu grande romance, com Crime e Castigo, O idiota, Os demônios e Os irmãos Karamázov. Dostoiévski também foi viciado em jogo, vida retratada no romance O jogador, escrito para saldar dívidas e a própria obra. Também teve de deixar São Petersburgo e a Rússia. O motivo: a implacável perseguição de seus credores.

O que há nesse volumoso romance, de quase mil páginas? Seria simplificar em demasia querer achar a linha principal da narrativa. O escritor discute nessa obra todos os assuntos que dizem respeito à natureza humana, sobretudo o amor, a crueldade e a esperança. Há personagens tipos, há personagens humanos, demasiadamente humanos. Talvez seja isso que nos fascine em Dostoiévski: seus personagens são capazes de cometer todas as loucuras a que nós, seres humanos, estamos sujeitos.

No prólogo, há os seguintes dizeres: “romance em quatro partes com epílogo”. Mas o que cada uma das partes aborda? Embora isso esteja escrito e o autor procure fazer a divisão para que a narrativa se desenvolva de forma mais didática, seria impossível setorizar os acontecimentos. Os personagens vão surgindo e crescendo gradativamente, a vida na pequena aldeia se desenrola, percebe-se que a tragédia se avizinha e suspeita-se de um terrível equívoco. Nós, como leitores, torcemos para que o erro seja corrigido, mas não se trata de um livro romântico, o destino é inexorável.

Quando Dimitri Karamázov é acusado de parricídio, o personagem não é julgado apenas pelo crime que supostamente cometeu, mas por seu modo de ser, pela maneira como encarava a vida e a vivia. Dimitri é julgado por seu desregramento.

O romance trata da vida da família Karamázov. Os três irmãos são de índoles diferentes; o mais velho, Dimitri, é irmão dos outros dois apenas por parte de pai, e é o mais temerário.

Um dos pontos interessantes do romance é outro assunto polêmico: os pais poderiam ser renegados pelos filhos caso estes sobrevivessem ao abandono a que foram submetidos na infância? Mas esse assunto é apenas adjacente. O que vemos é um pai, chamado Fiódor Pávlovitch Karamázov preocupado apenas consigo, ludibriando os filhos na questão da herança deixada pela esposa e disputando com Dimitri a mesma mulher, Agrafiena Ivánovna Svietlova, a insuperável Gruchenka. Daí vai promover tudo o que for possível para tê-la nos braços. Mas não consegue o seu intento. Acaba morrendo e Dimitri é acusado de matá-lo.

Ivan Karamazov é o irmão do meio. Dostoievski impregna nesse personagem tamanha intelectualidade, que sintetiza nele questões do próprio escritor. Ivan discute também a existência ou não de Deus e da imortalidade da alma. Em determinado momento, diz: “Se não existe Deus nem a imortalidade da alma, tudo é permitido”. Pensamento que parece livrar o irmão Dimitri de um certo peso. Eis alguns trechos interessantes do capítulo “A revolta”, quando Ivan conversa com Aliócha: “nunca consegui entender como se pode amar o próximo. A meu ver, é justamente o próximo que não se pode amar, só os distantes é possível amar. [...] Ainda se pode amar o próximo de forma abstrata e às vezes até de longe, mas de perto quase nunca. [...] Raramente o homem aceita reconhecer o outro como sofredor. [...] De fato às vezes se fala da crueldade “bestial” do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel. O tigre simplesmente trinca, dilacera, e é só o que sabe fazer. Não lhe passaria pela cabeça pregar orelhas das pessoas com pregos por uma noite, mesmo que pudesse fazê-lo.”

Dostoiévski soube falar sobre o homem comum, sobre as pessoas que habitavam as vilas e as cidades da Rússia e dar-lhes alma. Soube explorar a universalidade dessas pessoas e mostrar que gente assim existe em todos os lugares; na verdade, constituem a humanidade.

A relação de amor que Dimitri mantém com Gruchenka toma vulto no momento em que ele faz todas as loucuras para tê-la novamente em seus braços, quando mostra a ela que é capaz de tudo para mantê-la junto a si, chegando a ameaçar de morte o pai.

Certa vez, o escritor brasileiro Nelson Rodrigues falou numa entrevista: “brasileiro tem mania de cachorro vira-lata.” O dramaturgo talvez tenha dito tal frase porque lia Dostoiévski e encontrava nos personagens do autor russo a grandiosidade no homem da esquina, no bêbado, no louco, na mulher julgada por todos como prostituta, enquanto nossa tendência seria não valorizar aquilo que nos é próximo ou que nos parece vulgar.

Dostoiévski ainda desenvolve sua concepção religiosa através do stárrietz Zossima e do discípulo do hiremonge, Alieksiêi Karamázov, o irmão caçula e o mais equilibrado entre os três.

É pungente a última cena do livro, em que esse personagem se reúne com os meninos. Todos estão regressando do sepultamento de um companheiro recém-falecido, e Aliócha os alerta sobre o futuro, sobre a esperança e sobre a amizade.

Portanto, ler Os irmãos Karamázov é perceber um mundo que sempre esteve ao nosso lado e nós, muitas vezes, relutamos em enxergá-lo.

Os irmãos Karamázov
Fiódor Dostoiévski
Tradução direta do russo por Paulo Bezerra
Editora 34; 999 páginas

tags: Rio de Janeiro RJ literatura literatura-universal-classicos-universais-romance-seculo-xix-literatura-russa-fiodor-dostoievski


 
Haron, consistente resenha. parabéns. votamos, Pedro e eu. abraços, Tânia.

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 12/5/2009 15:41
Yexto devidamente votado.

Zacarias Martins · Gurupi (TO) · 12/5/2009 21:27
Já li Dostoiévski, mas ainda não cheguei aos Irmãos K.
Assim que puder, irei apreciar essa leitura.
ótimo texto!

Beatriz Vieira · Criciúma (SC) · 13/5/2009 09:38
Belo texto! Parabens,

victorvapf · Belo Horizonte (MG) · 13/5/2009 18:01
Freud adorava esse livro. Por causa do parricídio, édipo e todo aquele blablablá. Enfim, Os Irmãos Karamázov é uma das melhores coisas que já li. Tem um papo do Ivan, ele atocha a matemática no meio do lero-lero existencial, é muito interessante, queria ter marcado pra reler. Sem falar no encontro com o diabo. Um pobre diabo, fala sério...

Gustavo Krawser · Belo Horizonte (MG) · 13/5/2009 20:09
Haron, parabéns por sua resenha. Gosto muito de Dostoiévski. Fui catapultado por sua obra ainda na adolescência e foi fundamental para minha formação enquanto leitor. É um autor que eu considero imprescindível.
Volto para votar.
Abraços


Betusko · São Paulo (SP) · 15/5/2009 00:30
Haron:
Lido e apreciado...
Parabéns!
Abs
Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br

gustavodourado · Brasília (DF) · 17/5/2009 12:53
Valeu Haron,
mais um texto precioso.
Votado
abraços

Alexandre Eduardo Weiss · Rio de Janeiro (RJ) · 17/5/2009 20:58
belo texto...parabens

Fao Carreira · Botucatu (SP) · 22/5/2009 13:41
Bela resenha! Faz lembrar de partes muito importantes da obra - uma obra monumental.

Isabel Furini · Curitiba (PR) · 19/6/2009 21:53
Impossível não falar de Dostoiévski e não se empolgar.
Não sei se há alguma resenha sua à esse respeito, mas poderia comentar sobre o livro " Crime e Castigo".
Suas resenhas nos instigam á conhecer mais a obra.
Abraços.

Tatiane · São Paulo (SP) · 31/7/2009 19:06
Excelente texto para falar de um dos nomes mazgistrais da literatura;seus personagens são eternos,e,ao mesmo tempo ,corriqueiros,cada ser humano tem um pouco de cada um deles.
Abraços

Mirokca · Salvador (BA) · 16/10/2009 17:05
Li há cerca de uns 10 anos, me deu até água na boca para reler, mas tenho que resistir a tentação e seguir adiante! Ah! realmente um dos 3 melhores livros da minha vida! Parabéns pelas elucubrações! Votado! Abraços!

Andri Carvão · São Paulo (SP) · 4/3/2010 18:32
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Portal Literal, e adicione seus comentários em seguida.



visite nossa seção de perguntas mais freqüentes
DivulgaçãoPromoção: Hotel Novo Mundo
Há alguns dias demos destaque ao lançamento de Alameda Santos (Iluminuras)...
10 cariocas ficam bilíngües
De plágios e processos
serrote # 4
                                 
Termos de uso | Expediente | Privacidade | Alerta
Salvo indicação em contrário, todo o conteúdo (c) 2009 Portal Literal e seus autores