Imagens
Nelson, no traço de Loredano. 2006.
Nelson, na entrevista a Mello e Souza, em 1980
Carta ao famoso, torpe, doce e pérfido Otto Lara Resende. Sem data.
Nelson, negando Otto, e colocando açúcar no cafezinho. Abril de 1975.
Uma de suas paixões, o Fluminense. Outubro de 1979.
Na redação. 4 de maio de 1965.
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 25/02/2008.
Quarto 'Arquivinho' da editora Bem-Te-Vi traz relíquias do anjo pornográfico, como fac-símiles de cartas e manuscritos, fotografias, seu Depoimento para a Posteridade, concedido ao MIS, e uma entrevista ao mineiro Otto Lara Resende.
A
Bem-Te-Vi Produções Literárias acaba de lançar mais um de seus Arquivinhos, dedicado ao mais carioca dos pernambucanos. Em seu quarto título, a coleção traz manuscritos, cartas, fotografias, desenhos, pinturas e cartazes, entre outras relíquias dos autores homenageados. Além disso, reúne textos especialmente preparados para os Arquivinhos, além de cronologia e bibliografia comentadas e reedição de textos fundamentais. Depois de Vinicius de Moraes (em 2002), Hélio Pellegrino (2004), e
Otto Lara Resende (2007), Nelson é lembrado em ensaios de Claudio Mello e Souza, Bárbara Heliodora, Sábato Magaldi, Armando Nogueira e Arnaldo Jabor, e no depoimento de Fernanda Montenegro.
Há ainda material multimídia, como a magistral entrevista - disponível no YouTube, e que você confere ao final deste texto - de Nelson a Otto Lara Resende, já lançada na caixa que homenageou o escritor mineiro (o que é uma pena, pois deve haver mais material inédito ou obscuro que poderia ter sido acrescentado), e o Depoimento para a Posteridade, concedido ao MIS em 1967. E ainda a reprodução de duas cartas para o amigo Otto, do cartaz da peça
Toda nudez será castigada e do programa original de
Beijo no asfalto.
Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife a 23 de agosto de 1912, na rua Dr. João Ramos. Mas, como ele mesmo gostava de afirmar, era "profundamente carioca, essencialmente carioca". Dos cinco anos que passou em Pernambuco, o que ficou foi o gosto de pitanga e caju, "a primeira lembrança que eu tenho de minha passagem terrena". O Rio, só deixou para visitar a terra natal uma única vez. "Fui e voltei. E nunca mais fiz viagem nenhuma", afirmou em 1967, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro. Esteve ainda por quatro vezes em Campos de Jordão, para tratar de quatro tuberculoses - doença que acabaria matando um de seus irmãos -, além de ter feito poucas viagens a São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Nunca deixou o país. Não gostava de aviões e recusou centenas de convites para rodar o planeta a trabalho. Preferia o Rio de Janeiro, e nisso lembra outras grandes nomes de nossas letras, que nunca ou pouco deixaram a cidade, caso de Machado de Assis e Lima Barreto. Se bem que no tempo de Nelson isso foi mais uma vontade deliberada, já que os convites abundavam. Mas o horror à viagem tinha uma justificativa para ele. "O sujeito deixa de existir, deixa de ser durante a viagem. Acho que a viagem é a mais empobrecedora e, direi mesmo, a mais burra das experiências humanas."
Ao chegar ao Rio, em 1916, a família Rodrigues logo se instalou na Rua Alegre, Aldeia Campista, ali entre Vila Isabel, Tijuca, Andaraí e Maracanã, onde permaneceria seis longos anos. Ali, Nelson tomou contato com o universo que iria povoar suas peças, crônicas, contos e romances. Sua vida, enfim. E como nos conta Claudio Mello e Souza, os incidentes corriqueiros da vizinhança nunca mais o deixariam: "Introjetados na criança, passaram a ter dolorosa dimensão dramática sobre o ainda infante; e uma pungente repercussão trágica no homem adulto: eram os adultérios, os pactos de morte entre namorados, a surpresa de flagrar a nudez ingênua da menina louca, as crises de ciúme, a condenação do canalha, as varizes envolvidas em gazes sanguinolentas, os velórios de crianças e os crimes passionais – enfim, toda uma gama de conflitos chocantes, detalhes repugnantes e tipos moralmente condenáveis que, tempos depois, seriam temas e personagens de suas peças".
É possível dizer que Nelson está hoje devidamente canonizado, ou a caminho. É o dramaturgo mais representado no país. Ruy Castro é um dos responsáveis por recuperar a memória, a vida e, sobretudo a obra jornalística de Nelson, esparsa e múltipla, como as inigualáveis crônicas futebolísticas, as trágicas e ligeiras crônicas de A vida como ela é..., os escritos memorialísticos, pungentes, e que magistralmente dão conta de uma vida permeada pela morte de parentes e outras pequenas tragédias cotidianas. É autor também da biografia sobre o anjo pornográfico, lançada nos anos 1990 pela Companhia das Letras, e organizou seus livros de crônicas, memórias, confissões e romances, publicados pela mesma editora. Atualmente, a Agir tem relançado a obra não-teatral de Nelson.
Sua obra dramatúrgica vem merecendo atenção dos críticos há mais tempo. Lugares comuns como o "grande responsável pelo nosso teatro moderno", entre outros, pipocam pelos textos que buscam analisá-la, e a Nova Fronteira lançou seu
Teatro completo há quatro anos. Para ficarmos com um dos seus maiores estudiosos, Sábato Magaldi: "Ninguém, antes de Nelson, havia apreendido tão profundamente o caráter do país. E desvendado, sem nenhum véu mistificador, a essência da própria natureza do homem. O retrato sem retoques do indivíduo, ainda que assuste em pormenores, é o fascínio que assegura a perenidade da dramaturgia rodrigueana. [...] Quando o alimento habitual do nosso palco eram as comédias de costumes e os dramas pseudofilosóficos, passando da apresentação ao desenvolvimento e ao desfecho de uma história, ele subverteu a técnica narrativa, para incorporar a flexibilidade do cinema e admitir as flutuações do subconsciente. Daí a constante ruptura da linguagem realista, embora ninguém melhor do que ele soubesse captar as réplicas vivas da fala popular".
Uma maravilha para todos aqueles que desejam conhecer um pouco mais da vida e ter contato com outras facetas para além da obra do autor propriamente dita. E, apesar de excelentes textos, como o de Mello e Souza, Jabor e Armando Nogueira, os dois últimos deixam um gosto de quero-mais, por extremamente curtos que são. Assim como o depoimento de Fernanda Montenegro. O que não diminui a importância do material; apenas comprova como Nelson Rodrigues está longe de ser explicado e decifrado. E de como o jornalista, cronista e dramaturgo ainda há de motivar a produção de extenso material a partir de suas criações e de sua vida.
Até porque, como afirma Jabor, Nelson nunca foi bem entendido. E segue sendo "criticado pelo que não é e pouco elogiado por suas maiores contribuições à literatura do país". Segundo o ex-cineasta, responsável por adaptar às telonas Toda nudez será castigada (em 1973) e o romance O casamento (1975), a obra de Nelson é vista como "suja", uma afronta a moral e àquela torpe moralidade esquizofrênica que impregnava a classe média suburbana carioca nos idos de 1930 e 1940. Na verdade, "NR foi genial nas peças, não pelo 'conteúdo' da estória, mas pela forma polifônica de narrar, como um sarapatel de emoções superpostas em cenas ao mesmo tempo trágicas, cômicas e desconstruídas numa metalinguagem invisível". Os tipinhos anônimos – prostitutas bondosas, cafajestes poéticos, canalhas reluzentes, vagabundos épicos, sobrenaturais de almeidas, adúlteras heróicas, a grã-fina das narinas de cadáver, o padre de passeata – que desfilavam em sua obra ganhavam proporções shakespeareanas.
A incompreensão, se cresceu durante a ditadura militar com a radicalização da esquerda, onde só se permitia a arte engajada, data de antes, com a desarmonia que ele causava com seus personagens "desvirtuados". E dá-lhe as pechas de tarado, obsceno, inconseqüente. Logo ele, um descrente do sexo sem amor, um defensor dos velhos e um crítico de primeira hora dos jovens. "Eu, aos 18 anos, era de uma burrice enciclopédica [...], não sabia nem dar um 'boa noite' a minha namorada", comenta na entrevista a Otto, que faz parte de ambos os Arquivinhos.
O mesmo Otto que Nelson acabaria por folclorizar e arrastar para sua obra dramatúrgica, inserindo-lhe inclusive no título de uma de suas peças:
Bonitinha, mas ordinária ou Otto Lara Resende, de 1962, onde aparece a hoje famosa frase "O mineiro só é solidário no câncer". Otto era um frasista primaz, um cano furado, a esbanjar espírito na conversa fiada, como o definia o dramaturgo. E muitos creditam a Nelson a publicidade em torno disso, sobretudo após tê-lo transfigurado ao teatro, e de ter sugerido que se pusesse alguém com um gravador em mãos 24 horas por dia atrás do "genial frasista de São João Del-Rei", na definição de Stanislaw Ponte Preta, a recolher as pérolas que ia soltando pelo caminho, para com elas abastecer uma "Loja de Frases".
O trágico sempre esteve muito próximo de Nelson Rodrigues, e não deixou de transbordar para sua obra. Em dezembro de 1929, seu irmão Roberto foi assassinado a tiros por Silvia Serafim, na redação de
Crítica, dirigido pelo pai, Mário Rodrigues. Após a publicação de uma matéria sensacionalista – que, junto com os crimes e o esporte, começavam a ocupar lugar cada vez maior na imprensa diária – sobre sua vida privada, Silvia dirigiu-se ao jornal com o intuito de matar o pai. Ao chegar à redação, perguntou a Nelson (que aos 13 anos já trabalhava na seção policial) onde ficava a sala do editor, que o menino lhe indicou. Nelson então ouviu os disparos que culminariam com a morte de Roberto dois dias depois. Em maio do ano seguinte, seu pai faleceu de derrame. Em seguida, Vargas empastelou o jornal, a família mudou-se do palacete onde morava em Copacabana, e chegou a passar fome. Roberto Marinho, que então administrava
O Globo (criado por seu pai, Irineu, que viria a falecer logo após o surgimento do jornal), ajudou a família Rodrigues, empregando Mário Filho e Jofre - irmãos de Nelson - além do próprio, ainda que os dois últimos nada recebessem inicialmente.
Em 1934 a primeira tuberculose ataca Nelson, e dura quase dois anos. Quando retorna, em 1936, seu irmão Jofre contrai a "peste branca", falecendo meses depois. Entre 1937 e 1939 mais duas tuberculoses o levam novamente ao Sanatorinho Popular, em Campos de Jordão. No ano seguinte, em decorrência das sucessíveis doenças, acorda um dia sem enxergar. A cegueira temporária passa, mas desde então nunca mais enxergou direito. Voltaria ao Sanatorinho mais uma vez, em 1945. Em 1966, perderia o irmão Mario Filho e, no ano seguinte, outro irmão, Paulo, a mulher os filhos não sobreviveriam às enchentes e enxurradas que derrubaram o prédio onde moravam.
Foi abstêmio a vida inteira, mas nunca largou o cigarro, Liberty, Yolanda ou Caporal Douradinho. Como consta da cronologia, citando Otto: "Tomava cafezinho com freqüência, sem açúcar. Deixava esfriar e ia tomando aos goles, enquanto trabalhava ou conversava. Falava com todo mundo, de maneira afetiva e muito delicada".
Como nunca usou óculos, no Maracanã, que começaria a freqüentar todo domingo a partir dos anos 1950, nada enxergava e sempre havia alguém ao seu lado para soprar o nome de fulano ou beltrano naquela jogada magistral. Mesmo assim, produziu as mais apaixonantes, épicas e delirantes crônicas esportivas. Aí, também inovou e recriava em sua coluna "À sombra das chuteiras imortais", à sua maneira, os jogos da véspera. Encharcado de paixão, pela seleção, pelo Fluminense, e pelos grandes craques que viu (viu?) desfilar, inventava personagens como o Sobrenatural de Almeida, a Viúva das Narinas de Cadáver, o Gravatinha, abusava das metáforas e fugia da fria matemática dos números para adentrar o universo transcendental e recriar o jogo, que ao mesmo tempo era e não era o que havia se sucedido em campo. Tudo isso se deu justamente na fase áurea do futebol canarinho, tempos de Didi, Pelé, Nilton Santos, Garrincha e mais algumas dezenas de craques únicos, responsáveis por três títulos mundiais em 12 anos.
No teatro, apesar de afrontar a moralidade, ser censurado pelas patrulhas morais, Nelson transbordava em questões sexuais, amorosas, mas, ao contrário do que muitos poderiam pensar de seu caráter, tinha uma aversão ao sexo sem amor. Entrou num rendez-vous aos 14 anos, como um anjo. Saiu um pulha, em suas próprias palavras. Sempre se considerou assim. "Nunca vi o sexo fazer um santo, um homem de bem. Ou ele faz um desgraçado, o que o normal, comum, ou faz um pulha", disse no depoimento ao MIS. No que Otto retruca: "Quer dizer que para você o sexo é uma coisa quase maldita?". "Eu acho o sexo uma coisa tranqüilamente maldita. A não ser quando se dá esse acontecimento inacreditável, do sujeito encontrar o amor. Mas para isso o sujeito precisa de 15 encarnações para viver um amor. Porque a mulher amada, nada a obriga a estar na cidade onde a gente mora, no bairro onde a gente mora, a cruzar o nosso caminho. De forma que encontrar a mulher amada é um cínico e deslavado milagre. Então o sujeito não tem o direito de usar o sexo, a não ser por amor. E dizer que isso é uma necessidade é uma das maiores burrices que se pode imaginar." No mínimo, curioso, mas também altamente de acordo com quem afirmava, através de seus personagens, coisas como: "Chego aqui e vejo o quê? Que ninguém ama ninguém, que ninguém sabe amar ninguém. Então é preciso trair sempre, na esperança do amor impossível. Tudo é falta de amor: um câncer no seio ou um simples eczema é o amor não possuído".
Ninguém fez igual, ninguém fez melhor.
> Confira a entrevista que um Nelson Rodrigues concedeu a Otto Lara Resende em 1977.
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