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Mia Couto
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 26/8/2008 · 53 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 25/09/2007.

Confira a entrevista com Mia Couto, vencedor do V Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura, que trata de sua escrita e da situação da literatura em seu país, Moçambique.


Um país com 11 livrarias, que edita cerca de de 30 a 40 títulos por ano, onde o português, apesar de ser a língua oficial, é falado por apenas 10% da população. A dependência de Portugal, resquício do recente passado colonial, ainda vivo na memória do povo, a importância da criação literária em língua portuguesa produzida na África, que, de alguma forma, vem sendo conhecida e reconhecida para além do continente africano. Mia Couto, premiado pelo romance O outro pé da sereia (Companhia das Letras), nos revela um pouco deste universo e de seu país, Moçambique, na entrevista coletiva que concedeu no dia seguinte ao anúncio do prêmio, no final de agosto, em Passo Fundo, durante a 12. Jornada Literária. Confira:


[Primeira parte]

Mia Couto.
Sou muito pessimista em relação aos prêmios. Aliás, costumo não pensar nisso, porque senão são eles que começam a pensar em mim. Quando o escritor começa a agir em função dos prêmios, para mim é o fim da escrita.

O que o prêmio pode representar para Moçambique e para a literatura produzida lá, tanto internamente como no exterior?

Mia Couto.
Externamente, como tu sabes, Moçambique funciona quase que como uma ilha, é um país distante, que não tem laços nem pontes, e portanto tudo o que pode dar maior proximidade ao país é alguma coisa que eu acho que pode ser importante. O Brasil, em particular, tem um desconhecimento profundo em relação às coisas da África. E mais grave, pensa que conhece, e isso é mais grave que a ignorância. A imagem da África é muito mistificada, em certos níveis, muito folclorizada – nem sempre, mas folclorizada –, e, portanto, há que se vencer isso. E tem que ser vencido pelos próprios africanos, não se pode pedir aos brasileiros que façam isso por eles mesmos. Então acho importante que, por via da criação literária, da criação artística, a África se posicione de uma maneira mais real e mais digna perante o resto do mundo. E esses prêmios ajudam de fato a criar esta potência para conhecer o outro de uma maneira mais profunda.

E sobre o conhecimento da arte brasileira em Moçambique? Quando recebeu o prêmio o senhor falou que alguns de seus grandes mestres foram os escritores brasileiros. Como é essa recepção?

Mia Couto.
Do ponto de vista estritamente literário, o conhecimento que Moçambique tinha do Brasil já foi maior, nas décadas de 1960 e 1970. Estranhamente, com a nossa ditadura colonial e a ditadura aqui, havia mais intercâmbio. Agora há menos. É uma coisa que obedece a outras leis, leis de mercado, de como o Brasil se posiciona do ponto de vista estratégico em relação à África. Portanto, nós não conhecemos agora o que se passa no Brasil do ponto de vista literário. Mas os moçambicanos, em geral, estão atentos ao que se passa no Brasil, conhecem algo daqui, desde que seja aquilo que o Brasil mais exporta, como as telenovelas, conhecem alguma coisa da música brasileira, da realidade brasileira, do futebol. Não conhecem aquilo que vocês queriam mais que fosse conhecido, mas conhecem, conhecem.

A literatura brasileira no anos 1960 e1970 era mais engajada, talvez seja essa a razão...

Mia Couto.
Eu creio que sim, mas também havia uma circunstância mais particular. Os autores brasileiros tinham uma grande pujância. Jorge Amado foi uma espécie de bandeira para Moçambique também. O que acontecia é que esses autores eram proibidos em Portugal, mas a circulação dos livros era permitida em Moçambique e na África. Tinha-se essa ilusão de que os africanos não lêem e, portanto, não era importante proibir esses autores. Havia razões de ordem política, sim, mas também havia uma razão de que os autores moçambicanos e angolanos precisavam de uma refêrencia nova, de alguém que mexesse na língua portuguesa de uma maneira não portuguesa, quer dizer, que tratassem de outra cultura no domínio dessa língua, que é nossa também.

Qual seria hoje a literatura mais presente em Moçambique?

Mia Couto.
Acho que agora é a literatura africana de língua portuguesa, mas via Portugal. É uma situação estranha, tipicamente colonial, porque continuamos a ter uma relação com os nossos países irmãos – Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau – via Portugal. Mas Portugal cumpre essa função, essa vocação, de ser uma espécie de porta giratória para que as literaturas que as pessoas escrevem em português na África possam se conhecer e ser publicadas, e possam sair para o mundo. Acho que cheguei ao Brasil também por via dessa porta de Portugal.

Qual o atual panorama da literatura de língua portuguesa da África que vem conseguindo algum reconhecimento, com você, com José Agualusa?

Mia Couto.
Nós ainda somos alguns, só, algumas figuras que estão emergindo, mas há vários outros autores. Há uma literatura que não se pode resumir a um, dois autores, ou três, e que não é ainda conhecida. Há, de fato, várias correntes, e acho que hoje, provavelmente, um dos grandes centros de gravidade da criação literária em língua portuguesa está na África. E esse conhecimento tem que ser partilhado, o Brasil tem que conhecer isso. Portugal já conhece algo, de alguma maneira, e, portanto, o que falta é essa terceira perna, o que seria o lado brasileiro.

Dos autores que não chegam ao Brasil, quais o senhor destacaria?

Mia Couto.
De Moçambique temos, por exemplo, Paulina Chiziane, que é uma mulher que escreve sobre o universo feminino, da mulher rural, temos o Ungulani Ba Ka Khosa, que escreve sobre o texto histórico, reescreve aquilo que é o mito da história moçambicana, temos vários poetas, o maior deles é o Eduardo White. Há vários nomes que têm todo o mérito para serem reconhecidos fora de Moçambique.

Você acha que o projeto de unificação da língua portuguesa vai ajudar nesse intercâmbio?

Mia Couto.
Não tem diferença. Não faço guerra contra o acordo ortográfico, mas acho que algumas grafias não atrapalham a leitura. Sempre li os livros do Brasil sem nenhuma dificuldade, tendo até o gosto de encontrar alguma coisa que é diferente. Quando os meus livros começaram a ser publicados no Brasil, esta opção foi posta, se eu queria transpor para a grafia brasileira aquilo que era a minha escrita e eu não aceite, porque penso que também para o leitor brasileiro essa noção de estranheza e, ao mesmo tempo, de familiaridade coloca o livro no seu lugar devido.

Quantas livrarias há em Moçambique?

Mia Couto.
É uma boa pergunta. Posso dizer que só há livrarias em duas cidades. Na capital, deve ter umas dez livrarias, e na outra, que é minha cidade natal, Beira, que tem uma livraria.

Como que é a relação dos autores com as livrarias locais? Aqui, temos a dificuldade pelo tamanho do país, como se dá isso lá?

Mia Couto.
Temos uma relação estranhíssima. Agora estou ajudando a criar uma livraria nova numa terceira cidade, com mais outros escritores. E sem ter propriamente nenhum laço comercial com isso, nem interesse financeiro. Mas nós tentamos apoiar sempre que nos deslocamos a essa outra cidade – a maior parte dos escritores vive na capital – nós fazemos sessões de autógrafos na livraria e tentamos apoiar o livreiro, que é uma peça fundamental para que o livro possa ser distribuído, possa chegar lá.


[Segunda parte]


Os moçambicanos lêem você, a sua obra? Eles conseguem entender o que você quer dizer?

Mia Couto.
Sim, aqueles que lêem, lêem os meus livros e os de meus colegas e provavelmente eu estarei entre os que mais vendem em Moçambique, os que têm maior circulação. É preciso entender o seguinte: que, no nosso caso, apenas 10% da população tem como língua materna o português. Então entendem, não só tecnicamente, mas também do ponto de vista cultural, daquilo que são referências, que estão no subtexto.

Tu comentaste que é interessante essa mescla do português do Brasil com o português de Moçambique. Poderia falar mais sobre os autores que te influenciam?

Mia Couto.
Já falei que a geração que me antecedeu e a minha geração foi muito marcada por autores brasileiros, muito mais que autores portugueses ou de outra nacionalidade. E isso tinha a ver com o fato de nós nos identificarmos realmente com essa referência e experiência de tomar a língua e fazer com que ela correspondesse a outra cultura. Os grandes autores que tiverem influência na minha geração e na geração anterior foram Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz – estes foram os maiores, digamos. No meu caso pessoal, sempre fui mais tocado por Guimarães Rosa. E depois, pelos poetas – eu venho da poesia, faço uma coisa que tem a ver com poesia –, o Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado, Manoel de Barros. Essas são referências importantes para mim.

Você começou na poesia, foi pros contos, crônicas e romances. Como foi essa trajetória, essa transformação literária?

Mia Couto.
Eu acho que continuo na poesia, no fundo, porque esta classificação em gêneros foi inventada por alguém que não era escritor, certamente. Mas, mesmo que a consideremos, eu que comecei na poesia em um momento de convulsão no país – nessa altura, eu fazia parte do Movimento de Libertação de Moçambique –, a poesia era uma espécie de ferramenta privilegiada para cantar um país sonhado. A exaltação dessa utopia, e aí acho que a poesia serve melhor. Depois houve um momento diverso, quando nós temos a independência, é preciso criar raízes, quer dizer, não era tão importante ter asa para voar, mas sim encontrar nossas raízes. E aí a prosa funcionou melhor, e também encontrei na prosa um instrumento para ganhar essa dimensão mais profunda de ligação com a terra, que era preciso reivindicar neste momento.

Poderia falar um pouco da importância da oralidade, não só em Moçambique, mas na África, e como é essa relação com a literatura?

Mia Couto.
Este é o grande desafio: fazer com que essa fronteira entre a escrita e a oralidade seja uma fronteira repensada, questionada em África, uma vez que a oralidade, de fato, é absolutamente dominante. E é dominante, mas não só. É importante dizer que a oralidade não é a ausência da escrita, enquanto técnica, mas é um esquema de pensamento, é uma outra lógica, outra maneira de ver o mundo. E ela comanda os por centos da comunicação, da busca da interioridade, são marcados pela oralidade. As pessoas pensam em função de histórias, não contam uma história como uma ilustração, como alguma coisa simplesmente decorativa em relação ao pensamento. Elas pensam através de histórias. Vou dar um pequeno exemplo. Tivemos, pela primeira vez, eleições democráticas em 1994. Fazia um trabalho como biólogo, no campo, em uma pequena aldeia, e chegou um político, de um partido novo – era uma coisa absolutamente nova em Moçambique – e ele fez um discurso, anunciando que se o partido dele ganhasse aquela aldeia ia ser salva, porque iam construir escolas etc., todo esse discurso. E ele repetia várias vezes "eu venho cá salvar-vos". E aí o velho disse "ficamos felizes que você veio de longe para nos salvar, faz me lembra a história do macaco e do peixe". E não disse mais, sentou-se. A única pessoa que não sabia a história do macaco e do peixe era eu e o político, que tinha vindo da cidade. E ele perguntou "que história é essa?". A história conto aqui porque acho que é exemplar. Um macaco está passeando num rio, vê um peixe e pensa: "Este animal está morrendo afogado, vou salvá-lo". E aí mete a mão dentro da água, tira o peixe, e o peixe está se batendo. E ele olha pro peixe e conclui: "Quanta felicidade". E o peixe morre, e ele diz, concluindo outra vez: "Se eu tivesse chegado mais cedo, eu teria salvo este peixe". Esta é uma pequena história, uma fábula, mas é uma maneira muito certeira de denunciar a demagogia do político, e eu não seria capaz de fazer melhor. E, portanto, esta é uma fonte de inspiração permanente que o escritor tem, é um grande privilégio viver num país em que as pessoas se autorizam a pensar dessa outra maneira, fazendo recursos à poesia permanentemente e tendo outra dimensão do mundo que me parece muito feliz.

Como é proporção de negros e brancos em Moçambique? Como escritores, os negros têm a mesma penetração?

Mia Couto.
Se tu estás a falar dos brancos moçambicanos – porque há os brancos estrangeiros – são em porcentagem mínima, em uma população de 20 milhões, nós seríamos menos de 10 mil, certamente. Os outros brancos, estrangeiros que vivem em Moçambique – portugueses, italianos, gregos etc. – serão 40, 50 mil. Os escritores são quase todos negros, conheço alguns escritores brancos, dois, três mulatos. A maioria é de negros que tem a língua portuguesa como língua materna e escrevem em português. Oficialmente, o país tem uma língua só, o português, a língua oficial, de comunicação, de ensino, da informação. Mas depois mais de 25 línguas africanas, que não estão fixadas na escrita. Algumas delas correm o risco de desaparecerem rapidamente. Quer dizer, essa é uma preocupação, de que a língua portuguesa é ao mesmo tempo um marco, uma espécie de instrumento de construção da nacionalidade, mas ela está crescendo e expulsando as outras línguas que têm que sobreviver.

Como você relaciona o trabalho de biólogo com o de escritor?

Mia Couto.
É que sou muito mau biólogo [risos]. Agora falando sério, sou mau cientista no sentido de que não tenho crenças. Para mim, a ciência é só uma maneira de dar respostas a algumas coisas. E eu busco a poesia para procurar explicação científica. Porque a ciência também se transformou numa coisa muito pouco científica, hoje em dia os cientistas interrogam-se pouco, grande parte deles é de funcionários, são assalariados de empresas e empreendimentos. Então, para mim, não há conflito, estou procurando a mesma coisa enquanto biólogo... Porque, enquanto biólogo, em África, é impossível que tu olhes para uma árvore e vejas na árvore simplesmente um ser biológico. Em África, a árvore é, ao mesmo tempo, várias outras coisas, é uma residência de espíritos, é um altar para a cultura religiosa, é um cruzamento de histórias, sobretudo onde eu trabalho, em uma zona de fronteira. Cruzamento entre o mítico e o científico, entre a oralidade e a escrita, entre o meu lado europeu e o meu lado africano, entre a minha religião – que não é nenhuma, tenho certa aptidão para a religiosidade sem ter nenhuma religião. Mas é esta outra religião africana que nem tem nome. É impossível compreender África se não compreender muitas coisas. A distância faz os mitos sobre África, como se África fosse só entendida na questão política, econômica. As pessoas não entendem que há uma religião africana que não se pode resumir a práticas e a cerimônias. É um sistema filosófico, é uma maneira de entender, de sentir o mundo. E se não se conhece isso, nunca se vai compreender a África. Eu não posso compreender o Brasil se não entender nada sobre a religião católica, todo esse catolicismo ibérico, que marca muito o comportamento dos brasileiros hoje. A mesma coisa se passa com África.

Queria falar uma coisa só. Normalmente se fala das influências do escritor como se ela fosse sempre literária. Obviamente, o escritor tem outras influências e, no caso, a de cantores brasileiros, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, todo esse movimento, Milton Nascimento, marcou muito, a mim e a minha geração, não só pela qualidade da música e da canção, mas era porque havia uma maneira de fazer com que a poesia se casasse com a canção.

Como essa música chegava lá?

Mia Couto.
Nós passávamos isso em cassete, em gravações quase piratas. Bom, havia um nível mais popular, antes mesmo da independência, por exemplo, e o que era mais conhecido do Brasil era Roberto Carlos, Roberta Miranda, esse tipo de canção. Estou a falar de outro tipo de canção, mais restrito, que ia beber numa outra fonte. Mas Roberto Carlos era, de fato, um fenômeno em Angola, em Moçambique, muito popular. Mas falo de outro tipo de música que teve muita influência em mim, não foi tanto a do Roberto Carlos.

Há muitos livros traduzidos do inglês em Moçambique?

Mia Couto.
Nós não traduzimos nada em Moçambique. É preciso dizer que em Moçambique, até cinco anos atrás, nós produzíamos um total de, talvez, 12 livros por ano, ou seja, um livro por mês. E eram os nossos próprios autores. Você pode imaginar que há vários jovens que têm pressa em publicar, e os consagrados também querem publicar. Agora nós crescemos um bocadinho, provavelmente temos uma edição de 30, 40 livros por ano. Mas publicamos somente o que é nosso, o resto, vamos buscar as publicações do Brasil e de Portugal.

Você falou que a ciência dá algumas respostas. E a poesia?

Mia Couto
. A poesia dá outras. O problema é exatamente ver onde que é o limite de uma coisa, e de outra. Na base das duas está uma coisa que é comum, que é uma inquietação interior, uma procura daquilo que por vezes não tem resposta porque nem sequer sabemos fazer corretamente a pergunta, essa que é a questão. Então o segredo é casar essas sabedorias, e casá-las de uma maneira que seja uma recusa do folclore, de certa romantização do que é o não-científico também.

Os 30 anos de guerra são muito determinantes na sua obra. De que maneira isso afetou a tua vida?

Mia Couto.
Muito, muito. A guerra é – há um personagem meu que diz – uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Isto quer dizer que ela entra no fundo da nossa alma e acho que ela não se desaloja nunca. Vivi mais da metade da minha vida em guerra e hoje acredito que, provavelmente, outras nações vivem em guerra sem saber. Guerras que não são declaradas, silenciosas. E que ocorrem até em certas zonas do Brasil, com a criminalidade. São outras formas de guerra, esse estado de intranqüilidade profunda permanece para sempre. Eu, hoje, e todos os moçambicanos, quando acabou a guerra, não acreditávamos que estávamos em paz. Depois de 16 anos de guerra, de uma guerra absurda, de uma guerra que tinha feito um milhão de mortos, de uma maneira estranha, assim como não entendemos porque houve guerra – temos idéia, mas não entendemos completamente –, também não entendemos porque que depois houve paz. E de fato, houve, fomos capazes de construir a paz. A guerra é hoje pouco provável em Moçambique.

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