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Maus
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 1/8/2008 · 75 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 31/01/06.

Toda palavra é como uma mácula
desnecessária no silêncio e no nada
. - Samuel Beckett

Histórias em quadrinhos já foram consideradas formas degenerativas de cultura. Até aí nada demais, pois seguem os mesmos processos que ocorreram/ocorrem com outras formas de arte, como os filmes de Hitchcock, o rock' n'roll e o samba, no século XX, e como o funk neste início de século XXI. Um livro recém-lançado, A guerra dos gibis (Companhia das Letras), trata da introdução dos gibis no país e do preconceito com que eram vistos. Assim como o samba, os quadrinhos foram sendo aceitos e, enfim, alcançaram o devido reconhecimento como uma nova forma de arte. Não foi fácil, aliás, nunca é fácil derrubar preconceitos. Como consta da apresentação do livro, "de febre juvenil e editorial, os quadrinhos passaram a ser duramente atacados por políticos, jornalistas, artistas, educadores, religiosos e toda sorte de palpiteiros, que enxergavam ali apenas 'monstruosidades e imoralidades', 'subliteratura infame', 'analfabetismo, pobreza intelectual', 'verdadeiras orgias de sadismo, pornografia e estupidez', 'corrupção de menores', 'mitologia truncada e monstruosa'".

Mas é fácil constatar que as histórias em quadrinhos vêm conquistando cada vez mais o seu merecido espaço. Basta dar uma espiada numa boa livraria para encontrar uma ampla gama de títulos, editados em português, com excelência gráfica única. E se as histórias em quadrinhos para o público infantil e juvenil ainda podem ser a maioria, os livros de HQs para adultos ocupam um espaço considerável, assim como já acontece há algumas décadas nas bancas de revistas. E tem para todos os gostos: quadrinhos eróticos, jornalismo em quadrinhos, memórias, quadrinhos rockenrou, bizarros, udigrudi... Depois de 50 anos, o que era um fetiche pré-adolescente finalmente vem sendo reconhecido como arte que é. Prova disso é que os quadrinhos finalmente chegam aos museus, como acontece com a mostra aberta dia 20 de novembro passado, em Los Angeles, Califórnia, "Master of American Comics", onde 900 trabalhos de 15 artistas escolhidos devido à linguagem visual própria que desenvolveram tentam traçar um panorama da nona arte nos Estados Unidos. Estão lá Peanuts (o popular Snoopy), de Charles Schulz; Dick Tracy, de Chester Gould; Spirit, de Will Eisner; a Mad, criada por Harvey Kurtzman, influência para outros mestres que iriam aparecer, como Robert Crumb e Art Spiegelman. Por sinal, quando Spiegelman ganha, em 1992, um prêmio dedicado ao jornalismo com uma obra em quadrinhos, definitivamente atrai muitos mais leitores para esta particular forma narrativa.

Art Spiegelman revolucionou a história em quadrinhos com Maus (relançada em 2005 pela Companhia das Letras). Responsável pelo primeiro Prêmio Pulitzer para uma história em quadrinhos, o filho de um sobrevivente dos campos de concentração foi fundo ao retratar a crueza inominável de Auschwitz, porém sem se render ao que Norman Finkelstein cunhou de indústria do Holocau$to, argumentando que, ao transformar o genocídio que eliminou milhões e milhões de judeus em evento único, incomparável, irrepetível e inalcançável, a elite judaica acabou desenvolvendo um mito. Finkelstein, judeu norte-americano com pais sobreviventes de Auschwitz, afirma que "as atrocidades nazistas transformaram-se num mito americano que serve aos interesses da elite judaica, sendo que nesse sentido, o holocausto transformou-se em Holocausto (com h maiúsculo), ou seja, numa indústria que exibe como vítimas o grupo étnico mais bem sucedido dos Estados Unidos e apresenta como indefeso um país como Israel, uma das maiores potências militares e nucleares do mundo, que oprime os não judeus em seu território e em áreas de influência". Não é preciso lembrar que os ciganos também foram dizimados na II Guerra e o período de escravidão acabou com a vida de centenas de milhões de negros, tampouco que genocídios continuam a acontecer, sobretudo na África, mas, segundo Finkelstein, somente o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra foi transformado em "uma representação ideológica que defende interesses de classe e sustenta políticas". Tema polêmico, sem dúvida, e o livro de Finkelstein merece texto a parte. Mas denuncia um mito ao qual Spiegelman não se rende, pois, ao narrá-lo não esconde as seqüelas que uma experiência como Auschwitz deixa nos sobreviventes, inclusive o mesmo racismo, como o que Vladek, pai de Art, sente pelos negros.

Relato pessoal, Maus começa com o pai de Art nos tempos da Polônia nos momentos que antecedem a II Guerra, o desenrolar dos anos e do dia-a-dia no seio de uma família judaica. Podemos perceber como, em alguns atos simples e corriqueiros já se desenvolvia a atitude anti-semita crescente dos alemães, mas não só destes, como também dos poloneses não-judaicos, ou ainda a atitude dos próprios judeus, que, de alguma forma, achavam que colaborando e entregando alguns estariam livrando a maioria.

A memória do pai vai conduzir a narrativa, misturando passado e presente, o momento em que Vladek conta a sua história, em 1978, e a época em que ela está acontecendo. A animalização, de forma sutil, transpôs com clareza para os quadrinhos como pessoas com culturas e nacionalidades diferentes se enxergavam em uma época que o racismo foi institucionalizado e justificado por um Estado que viria a se tornar totalitário e entrar para a história como o primeiro a industrializar e serializar a morte, assim como quem faz sabonetes. Não deixa de ser irônico, ao mesmo tempo em que mostra a dificuldade de se entender uma época sinistra, os judeus travestidos de ratos, os alemães de gatos, poloneses não-judeus como porcos, franceses como sapos e os americanos, cachorros. Demasiado humanos. A associação com os infectos bichinhos vem da época, como podemos observar em propagandas reproduzidas no documentário Arquitetura da destruição (1992), de Peter Cohen, sobre a arte e arquitetura nazista, quando, sem meias palavras, os judeus são comparados aos ratos, que proliferam na cena causando mesmo asco. Mas não só, a epígrafe que abre a segunda parte de Maus, tirada de um artigo de jornal da Pomerânia, de meados da década 1930, também indicava o recrudescimento do anti-semitismo: "Mickey Mouse é o ideal mais lamentável de que se tem notícia [...] As emoções sadias mostram a todo rapaz independente, todo jovem honrado, que um ser imundo e pestilento, o maior portador de bactérias do reino animal, não pode ser o tipo ideal de animal [...] Abaixo a brutalização do povo propagada pelos judeus! Abaixo Mickey Mouse! Usem a Suástica!".

Ao optar pelo tortuoso caminho de expor as feridas da família, Spiegelman demonstra que não é fácil, mas é possível, tratar de tema tão delicado sem cair na idealização nem condenação prévia. E ao incluir suas dúvidas e angústias na segunda parte, lançada em 1991 (a primeira saiu em 1986), depois do sucesso da anterior, e do forte assédio da indústria cultural/do Holocausto, ávida para lucrar e subverter uma história que só poderia ser contada em forma de história em quadrinhos, Art atinge o patamar raramente alcançado pelos HQs, com uma instigante narrativa que une passado e presente, usa com precisão a metalinguagem sem tentar analisar essa mácula da história do último século. No diálogo entre Art e seu psicólogo, reproduzido no livro, o autor cita Beckett: "– Samuel Beckett disse: "Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada. – É, responde o psicólogo. [...] – Por outro lado, ele FALOU isso".

Há histórias que precisam ser contadas. Maus é uma delas.


[+] leia mais:


Master of American Comics


Indy Magazine. Leia sobre Spiegelman e a RAW, revista underground criado por ele nos anos 80.

Raw Maganize. Veja as primeiras capas da RAW, onde também é possível comprar o primeiro número por US$ 315.

A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-64, de Gonçalo Junior. Leia o início do livro.


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