Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 29/01/2007.
Uma das revelações apontadas na oficina de literatura da Flip, a mineira Christiane Tassis lança
Sobre a neblina, pela nova editora Língua Geral (leia mais ao final da entrevista), romance que traça uma biografia fictícia a partir de cartas, entrevistas e listas.
"Queria que você escrevesse minha biografia. Um livro pra consultar, quando começar a me esquecer de mim. Você aceita?"
Claro que não. Já havia esquecido essa pessoa. Agora teria que relembrá-la? E, ainda por cima, lembrar por ela? Isso significaria enxertar em minha cabeça mais uma lembrança triste, que nem ao menos me pertence. Sua dor já foi minha – há muito tempo não é mais. Paguei caro pela minha memória, anos e anos tentando fazer dela meu órgão mais precioso. Por isso eu diria: "Não." E com minha voz baixa, tímida, do fundo do abismo, eu disse:
"Claro."
Por aí que se move o livro de estréia da mineira Christiane Tassis. O fotógrafo Henrique, ao ser diagnosticado com um tumor cerebral, decide contar a sua história e chama para a tarefa a narradora do livro, Lúcia, jornalista e sua ex-amante. Que tenta resistir, mas não consegue, e parte atrás das outras ex-mulheres de Henrique para tentar refazer sua trajetória. É sobre essa impossibilidade de escrever uma biografia sem se utilizar de elementos criados, selecionados, decididos, impostos por quem escreve – ainda mais quando se faz parte da estória que se quer contar – de que o livro trata, se utilizando também de cartas, listas, trechos da biografia que vai sendo escrita. E isso, apesar dos idiotas da objetividade, é impossível ser de outra maneira. Também "a memória e o amor não deixam de ser invenções e projeções", lembra Christiane. Confira a entrevista com a autora.
Você trabalha com alguns tipos de textos, intertextos, cartas, listas etc. para tentar traçar a vida de alguém, que vai se mostrando cada vez mais impossível, já que inventada, imaginada e idealizada.
Christiane Tassis. Me interessa observar o sujeito contemporâneo, que faz parte ou freqüenta o "meio cultural", que forma sua identidade a partir dos livros e filmes que gosta. São afinidades que unem as pessoas, que fazem com que nossa memória por vezes se assemelhe à de gente que mal conhecemos. Nossa personalidade é construída também por imagens, personagens e modelos que admiramos, e que por sua vez também foram inventados, ou seja, fazemos disso o nosso "real". Trabalhei com a memória como imaginação, das coisas que não aconteceram conosco, mas já estão incorporadas a nós: neste ponto, a vida de alguém pode ser inventada, imaginada, idealizada, como você diz. A memória e o amor não deixam de ser invenções e projeções.
Os personagens se unem e se afastam através disso, mas não conseguem estabelecer uma relação afetiva verdadeira, e, muitas vezes, não conseguem confessar/admitir isto diretamente. Ao mesmo tempo têm esta necessidade de confissão que se revela por meio de cartas, listas, diários, e se constroem a partir do olhar do outro.
Usei as entrevistas, as cartas, porque nelas "pensamos" mais, queremos nos mostrar mais interessantes, ou seja, é um discurso construído, somos o que pretendemos ser ou ter sido. No caso do diário – eu nunca tive um, mas me intriga que alguém queira se registrar e se expor assim, e que eles sejam usados como "verdades" – inclusive servem de provas policiais, como recentemente no filme do Woody Allen,
Match Point, onde se confirma a relação do sujeito como suspeito: e se tudo tivesse sido inventado? Não se duvida de um diário... A Lúcia, a narradora, está em busca de uma verdade para construir/desconstruir uma pessoa, e talvez o depoimento mais sincero tenha sido dado pelo diário de uma das personagens, mas que ela rejeita... porque muitas coisas ela não quer ver. Depois destas tentativas, ela tenta utilizar procedimentos enciclopédicos, as listas, isto vem de Borges: em um trecho de um tal "Empório celestial dos conhecimentos benévolos", onde ele tenta classificar o reino animal com as aproximações mais improváveis:
Os animais dividem-se em
a) pertencentes ao imperador,
b) embalsamados,
c) amestrados,
d) leões,
e) sereias,
f) fabulosos,
g) cães soltos,
h) incluídos nesta lista,
i) que se agitam como loucos,
j) inumeráveis,
k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo,
l) etc,
m) que acabam de partir o jarrão,
n) que de longe parecem moscas, [...]. (Jorge Luís Borges, "O idioma analítico de John Wilkins",
Prosa completa, v. 3, p. 111)
Tentei aplicar isso a um ser humano: como classificar alguém, se o tempo de hoje são todos os tempos juntos e as pessoas são fusões de tantas informações e influências, além de sua experiência e origem? A narradora quer conhecer, mas também tem seus limites, tem coisas que não quer saber e outras que preferia que fossem de outra maneira, inclusive a sua própria história. Então ela fica tentando se inserir, criar novos significados que a princípio ela julga que só ela percebe.
Você afirma também que é impossível traçar uma biografia sem se utilizar desses elementos, criados, selecionados, decididos, impostos por quem escreve.
Christiane Tassis. Na memória, como na escrita – e isso é um lugar-comum – tudo é um processo de edição, e no caso das biografias isso pode ser mais utilizado. Nunca fui uma leitora de biografias, não saberia dissertar sobre os autores que se dedicam a isto – quando admiro alguém público, costumo ler suas entrevistas e acho que ali consigo saber algo mais verdadeiro sobre ela. E, mesmo assim, sei que tudo continua a ser um processo de edição. A minha personagem, como jornalista, continua com este vício e esta necessidade quase imperativa de lidar com fatos, versões, interpretações, edições... e no meio disso o desejo de verdade que se choca com sua necessidade de ilusão e intensidade, ainda que seja através da leitura ou escritura do outro. Então a vida do outro é menos interessante do que imaginávamos? Como escrever sobre coisas que não entendemos? Ela opta pela invenção, ou por tentativas de. O que não indica que afirmo que é impossível traçar uma biografia fiel, significa apenas que há coisas que permanecem na cabeça e intimidade do biografado às quais ninguém nunca terá acesso.
Mas também há um dado muito relevante na construção deste romance: a personagem vê tudo sob lentes: a do amor, do ciúme, da nostalgia, do ressentimento, e isso amplia, deforma, reduz. Tudo de acordo com seus próprios registros emocionais e afinidades, entre a narradora, seu ex-amante e as outras. Ela quer detalhes, não quer generalizações, e acredito que só um amante não generaliza. Pode-se falar de qualquer pessoa de uma maneira geral, mas de alguém que você amou ou que foi importante na sua vida, sempre existirá um ponto de vista muito íntimo. Sempre imperarão os detalhes. Então, a narradora parte em busca de detalhes reveladores, o acessório é o principal, mas ela nem sempre tem coragem de perguntar, pois também não quer ouvir, não quer se colocar em condição inferior às outras. Por isso, por esta incapacidade de investigar o objeto amoroso, resulta tudo meio aleatório, meio dissolvido, parcial. O que é visto como fundamental para um, é quase irrelevante para o outro. Daí a impossibilidade de retratar a vida do seu biografado que, além de tudo, está morrendo. Ela tem compaixão, não quer que ele se veja mal. Não quer que ninguém se veja mal no que ela escreve porque isto seria também um testemunho de que ela não sabe escrever, e escrever é o único valor que lhe é atribuído, em princípio, na história. Mas ela quer viver a sua vida como um romance, como a maioria de nós.
E isso numa época em que as vidas importam tanto (ou mais) que a obra em si. O que a levou a tratar do tema? Como chegou até ele?
Christiane Tassis. Fala-se muito nisso, que, o valor da obra depende mais de como o artista se apresenta, mas não pensei nisso enquanto escrevia. Eu sempre pensei no outro, o que é o outro, principalmente nas relações afetivas: de onde surgem as escolhas, por que elas são feitas? Continuei sem entender nada. Acho que vou continuar escrevendo sobre o que não entendo, isto me move.
Eu penso que o outro, fora de sua intimidade, na maioria das vezes está representando. Mas sempre existem aqueles momentos em que a gente pensa que conseguiu "captar" uma pessoa. Já pensei ter entendido muitos desconhecidos e conhecidos: um gesto, um olhar, uma frase, e eu já penso que já sei qual é o seu universo, a sua essência. Mas logo aquilo se desconstrói. Na amizade ou na experiência amorosa, principalmente, em um dado momento você diz, "eu te conheço", e aí num outro momento ela vem com outro olhar, outra frase, outra opinião, que faz com que você se sinta completamente equivocado. Atualmente, esta (para mim, abominável) cartilha de conduta de que o sujeito deve ser seguro de si e dos acontecimentos, que deve sempre saber o que quer, o que faz e o que diz, mas eu não. Algumas vezes acho que ou você está em dúvida ou está muito mal informado. Ter dúvidas é uma condição humana e esta indefinição, esta complicação, esta insatisfação, esta neblina, é o que nos torna muitas vezes mais interessantes e individuais.
Você se viu em algum momento, como a personagem narradora, tentada a transfigurar-se, inserir-se no livro? Ou a intenção era apontar esse momento que vivemos nos dias de hoje, essa coisa meio egóica?
Christiane Tassis. A narradora não tenta se inserir na história por "ego", mas por necessidade de se sentir amada, de "pertencer". Ela não consegue se expor, por isto rejeita o diário, que é uma manifestação sincera, uma declaração que ela nunca conseguiu fazer.
Não penso que tenha tratado, pelo menos conscientemente, deste momento egóico, mas se o fiz, foi pelo seu oposto. Os egos dos personagens estão dissolvidos e conscientes de sua dissociação, e por vezes se revelam, sem poses, porque estão diante da morte de um ente querido. A proximidade da morte evidencia e legitima as fragilidades, é talvez um dos poucos momentos em que não precisamos nos defender delas.
Quanto a me ver tentada a me inserir no livro, gosto daquela frase do Faulkner, "um romance é a vida secreta que não vivi e por isto consigo expor"... mas ainda que não conte minha vida, estou inserida no livro, tem algumas histórias que são minhas, transformadas, e outras que ouvi de algumas pessoas... acho que escrever é um processo de autocriação e de apropriação – o que não vivi mas gostaria de ter vivido se insere em mim e passa a ser também parte de minha memória...
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Mundo lusófono
Criada no final do ano passado, a Língua Geral é a primeira editora nacional dedicada exclusivamente aos autores lusófonos. Pretende, com isso, promover um intercâmbio maior e aproximar o Brasil dos demais países de língua portuguesa. Criada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa, a produtora cultural portuguesa Conceição Lopes e a empresária brasileira Fátima Otero, a editora estreou com oito títulos, divididos em duas coleções – Mama África e Ponta-de-lança. "A Mama África pretende resgatar contos tradicionais africanos, recriados por alguns dos mais importantes escritores do continente e ilustrados por nomes igualmente marcantes das artes plásticas", conta Eduardo Coelho, convidado pelos sócios para ocupar a função de editor da Língua Geral. Já a coleção Ponta-de-lança vai privilegiar autores novos ou ainda pouco conhecidos do público, indicados por escritores como Luiz Rufatto e o próprio Agualusa.
A princípio os livros serão lançados no Brasil, mas devem sair também em Portugal ainda em 2007. Para este ano, a Língua Geral prepara novas coleções, uma delas coordenada por Luiz Ruffato e com a idéia de refletir sobre a história política e social do Brasil por meio de contos dos seus maiores escritores. Para março, está programada a coleção Sal na Língua, dedicada a autores clássicos. A estréia será com contos de Machado de Assis jamais reunidos em uma antologia, seguida de
As farpas, crônicas de Eça de Queirós. A coleção Língua-de-fogo também será lançada no primeiro semestre de 2007, reunindo pensadores de nossa cultura e sociedade e estréia com João Camillo Penna, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um observador crítico da violência urbana carioca e do modo como ela se manifesta na cultura. Ainda estão previstas as coleções Vidas em Português - com biografias de personalidades como a portuguesa Amália Rodrigues, a angolana Rainha Ginga (uma espécie de Zumbi dos Palmares africana) e Amilcar Cabral (considerado o pai da independência de Cabo Verde e Guiné Bissau) –, e outras duas que, a exemplo de Mama África, também abordarão lendas de países lusófonos.
Além deste
Sobre a neblina, da mineira Christiane Tassis, fazem parte da coleção Ponta-de-lança
Amor em segunda mão, da portuguesa Patrícia Reis,
Dicionário de pequenas solidões, do também mineiro Ronaldo Cagiano,
O Evangelho segundo a serpente, da portuguesa Faíza Hayat.
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