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De olho neles | João Filho
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 26/8/2008 · 20 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por Marcelino Freire em 01/04/05.

Baleia pequena. Minúscula.

Digo da editora, aqui de Sampa, que publica livros assim, feitos para "encalhar". Como bem brinca o seu editor, Nelson Provazi, cheio de vontade oceânica.

João Filho foi publicado por lá. A sua estréia foi no ano passado com o livro de contos "Encarniçado".

Pedi a João para explicar como foi essa aventura (veja rápida entrevista, logo abaixo). Como foi que ele, de tão distante, chegou às margens de cá. Ele e a sua linguagem glauberiana. Sua fonte rio-franciscana e saravá!

Na verdade, bem sei como foi. Acompanhei de perto, pois, o aparecimento desse João, Filho de Bom Jesus da Lapa, cidadezinha do interior baiano.

Quem primeiro me falou dele foi o escritor Ademir Assunção, que publicou trecho do "Encarniçado" na revista Coyote. Algo tipo baião, xaxado e xote. Oralidade que eu bem conheço, de berço. Não há nada parecido.

E há.

Algo que faz lembrar uma mistura dos mineiros Evandro Affonso Ferreira (autor de "Araã!", entre outros, que assinou a orelha da edição) e Guimarães Rosa.

"Guimarães com Marquês de Sade, ora", completa o escritor Sebastião Nunes, fã da prosa do João.

Eta danado!

Prosa sonora, canto de carranca. Cantoria tântrica, aboio de orixá! Inclusive, Sérgio Sant'Anna é outro que se desdobra em elogios à obra do cabra, "uma escritura endemoniada". Encarnação encarniçada, sei lá. Só lendo para ouvir. E acreditar.

Depois de tê-lo lido na Coyote, o convidei para publicar pela Ateliê Editorial. Até que apareceu a editora Baleia, igualmente interessada no "Encarniçado". Sem pestanejar, o aconselhei a mergulhar com o Nelson Provazi, gente rara, dessas que catam tesouros no fundo do mar e maravilha! Se quiser conhecer, de perto, esse que é uma das grandes promessas da nossa literatura, é só esperar pela FLIP em julho.

Explico: João Filho já está confirmado como uma das estrelas da próxima Festa Literária Internacional de Parati. Isso mesmo: as águas de Parati. Baleia pequena, que vai longe. Vale a pena conferir.



Ele por Ele

João Filho é o meu nome, nasci nos cafundós, Bom Jesus da Lapa, interior da Bahia. Publiquei em 2004, pela Editora Baleia o livro de contos "Encarniçado". Mantenho muito mal mantido o blog-blefe www.cabezamarginal.org/joaofilho. Sou um colunista bissexto do site www.patife.art.br e tenho inúmeras publicações pela Net, confesso que perdi a conta. Na Net, publiquei mais como poeta.

Minha mulher me suporta há 14 anos; filhos é melhor não tê-los nem sabê-los. Fui balconista, vendedor de um monte de coisas, redator e locutor de rádio, também de impressa marrom, tudo lá pelo interior mesmo. Já fui um bom lateral esquerdo, mas desisti. Brigava demais. Sou também letrista. Participei de dois CDs coletivos, recitando. E já fiz gente chorar... de raiva tocando violino em casamentos.




EU E ELE
Leia uma conversa rápida entre mim e João Filho


EU - De onde vem essa sua linguagem assim, virada na gota? Essa invenção de sons? Esses delírios bons?

ELE - É uterina, Marcelino. É aquele vagido primitivo do qual não pude nem poderia ignorar. Sempre digo que a literatura me escolheu e não o contrário. Sempre tive uma dificuldade enorme em escrever prosa. Na verdade, nunca tinha tentado; quando tentei, deu nisso aí. Pois minha preocupação primeira foi a poesia. Em prosa não consigo escrever: "Ela atravessou a rua". Tenho que infundir meu ritmo troncho, meus descompassos.

EU - Você já leu a obra de Guimarães Rosa de cabo a rabo, é verdade? Onde tem Rosa no seu sotaque?

ELE - Li e reli muito Rosa, não todo ainda, mas uns 90%. Fiz isso para não copiá-lo. Quando fazem referência ao que escrevo com a obra dele é apenas a inventividade da linguagem, é aí que identificam um certo sotaque. Claro, fico honrado ao ser comparado com um autor que construiu um universo singularíssimo. Agora, meu tema não é o Sertão propriamente dito. No "Encarniçado", procuro apagar o território. Penso que tema e território pouco importam para a encenação do drama e afins.

EU - Fala um pouco acerca de onde você nasceu e mora. À margem do Rio São Francisco, longe do eixo Rio/São Paulo. Eta danado!

ELE - Bom Jesus da Lapa é uma cidade com 55 mil habitantes e está entre as 10 maiores romarias do país. Não é fácil nascer lá (estou tentando morar em Salvador) e ficar a par das referências sobre arte. Hoje temos Internet, é facílimo. Mas antes da Net chegar?!! Biblioteca pública era e é piada. Então fui como um náufrago, me apegando ao que aparecesse. Conversando com o poeta Donizete Galvão, que nasceu em Borda da Mata, Minas, ele disse a mesma coisa. Meu pai viveu e vive do comércio, que nós chamamos de venda, aquelas do interior onde se encontra um pouco de tudo. Então nessa venda fui balconista durante muito tempo, conheci e convivi com várias das minhas personas. Então posso dizer de mim o que disseram de João Antônio, que ele tinha autenticidade vivencial.

EU - Sei como se deu a publicação do seu primeiro livro, mas reconta aí como foi. De que forma você foi conhecendo os novos autores, palavreando com eles?

ELE - A publicação do "Encarniçado" começa com o Ademir Assunção, que levou o texto até você, Marcelino, e através de você chegou até o Nelson Provazi, editor da Baleia. O primeiro autor que realmente tive contato, contato com a obra, foi nosso Cego Telepata, o Glauco Mattoso. Isso se dá na década de oitenta, através da revista Chiclete com Banana que, não sei como, chegava para aquelas bandas. Com Glauco veio o Roberto Piva. Bela dupla, não? Muito tempo depois descubro, na única banca da cidade, a revista Cult, chego até Ademir e Joca Reiners Terron. Quando li essa resenha do Ademir sobre o livro de poemas do Joca, pensei: é por aqui o caminho. E realmente era. Então a Net para este poeta-perrengue foi um milagre, me desbundei.

EU - Quem você lê? O que você quer com o que você escreve? Leitor, é? Para quê?

ELE - Leio muita coisa ao mesmo tempo. Ultimamente, estou lendo "A Condição de Homem" de Lewis Mumford; "A Origem da Linguagem", de Eugen Rosenstock Huessy. Procuro ler obras fundamentais dentro de áreas que me interessam. Acompanho as colunas de Olavo de Carvalho e do Janer Cristaldo. Um cristão e o outro ateu. Acompanho o máximo que posso o pessoal da minha geração. O que realmente desejo com escrita, Marcelino? Ganhar o Nobel. Está de bom tamanho, não?


ELE E O TEXTO DELE
Leia, em primeira mão, trecho de romance inédito "Açougue-Soul", de João Filho.


AÇOUGUE-SOUL
Confessa dum Dedu-Durango
Para Itamar Assumpção que disse:
"(...) a gente sofre tanto
vive muito mal
espero que você não se esqueça
(...) eu quero andar nas ruas da cidade agarrado contigo
vivendo em pleno vapor
felicidade contigo."

toda educação é doença. sentida ou técnica é o mesmiço malogro. a minha foi lixo-luxurienta, em termos depurativos, vejamos – grão-de-brasa na íris. se me pego da palavra para exortá-la é vaidade, vã, inócua talvez – nem federá nem cheirará, entretanto para um eguinho maléfico fomentará quimeras. tais, os piores da prole.

podemos empolar esse itinerário e dizer que tive uma trashion-dental education, mas não escapo do lixo-luxurienta. deriva daí o Açougue-Soul, descarnadouro.

adianto: o texto auto-dedurável é improvável. grafá-lo é perdê-lo. os tomos todos atravessados a contrapelo; os francos – sonoridade têm, mas o roer do rrrr lingüodental não convence. arcaicos e excessivos, de grafismos adornados. veremos:

1º deduragem –

Cabral casquetou – cogitas o quê, bostinha? décadas de coió e pretendes a lábia? desembuxa! do camburão no aperto. cataram-me na porta de casa, Xotinha inda encostou e França rosnou – circula, circula. dei de mal. também só apareceu patente: tenente dois, major um, pra me pegar. sexta'carnavalesca, eu mão na massuda, tirando anos, enroupando um e as patentes fecho'cercaram – se esticar no pé, esticado fica, seu bostinha! obedeço. a mana'caçula vacilou numa quebra do Morro, o degas-bostinha aqui que deu a presença e se samba-treiteou. peguei purga. a mana e a amiga, necas.

2º sacode –

eu dedu-durango agouríssimo entre três samangos – França, Cabral e Major, engolindo cascudo. – dá a dica ou adoece!, Cabral late. ninguém irmão de ninguém, do sangue?! não movedice não... que falece. – ajoelhe e encolhe!, Major vomita. rodei de boi-de-piranha, otário-ternura, só que quem não na palmilha tinha as sendas todas?! de bôquêro, malacomano, menores-mores, as chinfras, as putas todas?! sambei meu sacode. deixei estar, bostinha também desencarna.

3º baculêjo –

circularam de sol-posto até caladas com o moleque-milagre aqui com quengo ardendo de surdão cascudo e estalo'gatilho, susto-na'prensa, tô no Distrito, "sim sinhô dôtô delegado" sou da limpa, nem cinzinha sou. é código-coió?! é signo-gambé?! colemerma?! é não, grandissíssimo, quem desgoverna é quem pretenso realizar busca a custosa tarefa de trafegar pelo mitofísico, por'isso toda educação é doença, Baby. enterneço-me e tomo cascudão. moído sou posto em penitência na porta de casa. entregado.
(...)



tags: Bom Jesus da Lapa BA literatura marcelino-freire joao-filho de-olho-neles


 
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