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Brinquedos de Guimarães Rosa
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 9/9/2008 · 45 votos · nenhum
  
Reprodução
Publicado originalmente por Ana Lúcia Tsutsui em 08/06/2006.

"Um dia ainda hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos", prometeu certa vez João Guimarães Rosa, um dos escritores mais estudados da literatura brasileira. A tarefa ficou inconclusa, mas serviu de inspiração para a excelente exposição Meninos Quietos, no SESC Pinheiros, em São Paulo.


Nascido em 1908, o mineiro João Guimarães Rosa costuma ser lembrado pela complexidade de sua linguagem; pelas metáforas, paradoxos e ambigüidades de seus textos, pelo aspecto universal de seu regionalismo. Autor de obras-primas como Sagarana (1946), Grande sertão: Veredas (1956) e Primeiras estórias (1962), sua obra já foi analisada sob diversos prismas: filosófico, psicanalítico, metalingüístico, histórico, geográfico, sociológico etc. Poucas vezes, entretanto, foi dada atenção ao menino do interior que morou no coração do escritor, anterior ao médico ou ao diplomata Guimarães Rosa.

Joãozito, como os familiares o chamavam, gostava de colecionar borboletas, tanajuras, besouros. Passava horas fiscalizando o vaivém das formigas e a arquitetura dos cupinzeiros. Deliciava-se com a sinfonia teimosa das cigarras. Seu interesse pela história natural o levava também a alterar o curso dos fiozinhos d'água que vinham do trabalho árduo das lavadeiras. Cada fiozinho era um rio, Danúbio ou São Francisco, e passava por cidades imaginárias. A propósito de seus primeiros anos, diria mais tarde o escritor: "Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, estragando os prazeres.[...] Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia: de prender formiguinhas, em ilhas que eram pedras postas num tanque raso e, unidas por pauzinhos, pontes para formiguinha passar, de armar alçapões para apanhar sanhaços e depois tornar a soltá-los: uma maravilha. Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro. Pena era não dispor de tinta para desensabugar um boi verde. [...] Um dia ainda hei de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos".

A promessa não foi cumprida, mas serviu de inspiração para a exposição Meninos Quietos, que acontece gratuitamente até o dia 4 de junho, de terça a domingo (inclusive feriados), no SESC Pinheiros – SP. Nela estão reunidos os brinquedos das crianças do sertão de Minas Gerais e presentes na literatura de João Guimarães Rosa.Trazidos do local onde o escritor nasceu e se inspirou para escrever sua obra, esses brinquedos revelam uma cultura primitivamente universal, presente não somente no dia-a-dia das crianças que vivem nesta região e interagem com a natureza ainda viva do cerrado, mas também no imaginário infantil como um todo.

A concepção cenográfica, assinada pela artista plástica Anne Vidal, traduz em sete núcleos – Brincar de pensar, Brincar de sensações, Brincar de criar, Brincar de olhar, Brincar de geografia, Brincar de colecionar e Brincar de segredos – o universo infantil com o intuito de sensibilizar as pessoas para a importância das criações do cotidiano e despertar o gosto pela preservação de suas memórias mais simples.

Os visitantes penetram um ambiente mágico onde seus sentidos e sentimentos são estimulados por meio de cantigas e histórias populares; bonecas e bichos feitos de milho, cabaça e pano; fotografias; pinturas; esteiras de palha; banquinhos de madeira; sementes, gravetos e pedrinhas. Arte e brinquedo se confundem na exposição.

O trabalho é fruto de uma longa pesquisa, desenvolvida por uma menina que tem os olhos verdes de Diadorim. Um dia essa menina encontrou-se perdida entre livros e ficou fascinada pelo mundo de Guimarães Rosa. Ela é Selma Maria, arte-educadora e pesquisadora que há dez anos estuda os brinquedos da cultura brasileira.

Desde o dia em que esse encontro ocorreu, ela passou a perseguir um objetivo: resgatar entre as crianças do sertão "receitas de vida quieta". A seguir, em entrevista concedida ao Portal Literal, ela fala do trabalho que desenvolveu no interior de Minas e de sua relação com a obra de Guimarães Rosa.


Há quanto tempo você trabalha com o tema dos brinquedos? Como tudo começou?

Selma Maria.
Desde 1986, quando entrei na faculdade de artes plásticas, viajo pelo interior do Brasil me encantando com as crianças do sertão de vários lugarejos. Agora pesquisando a fundo os brinquedos comecei em 2001, no curso "A arte do brincante para os educadores", cujo contato com os mestres de brinquedos Lydia Hortélio e Adelsin me mostraram que existia um estudo efetivo da cultura da criança pelos sertões do mundo inteiro.

Qual o primeiro contato que você teve com a literatura de Guimarães Rosa?

Selma.
A primeira vez que li Guimarães e fiquei muito sensibilizada com o que ele dizia foi numa carta que minha amiga Regina escreveu quando faleceu seu marido. Agradecendo pela ajuda moral que havia recebido dos seus amigos, ela colocou uma frase do Guimarães em que ele diz que Deus tira as pessoas queridas de nosso caminho para sabermos se conseguimos ser felizes sozinhos. Isso foi muito forte naquele momento de tristeza, me tocou muito. Fiquei muitas semanas pensando naquela frase e, depois de um bom tempo, minha amiga Anne (responsável pela cenografia da exposição) me falou de uma cidade chamada Morro da Garça, onde desenvolvia um trabalho com a comunidade de resgate das receitas tradicionais de caiação. Disse que esse lugar era citado num dos contos de Guimarães. Ela, uma francesa apaixonada pelo Brasil, falava aquilo tudo com tanto brilho nos olhos que eu decidi ir com meus filhos para lá ver o que esses dois recados tão diferentes (um de morte e outro de vida) queriam me mostrar.

Por que ele foi escolhido como objeto do seu trabalho?

Selma.
Muitas pessoas dizem que não somos nós que escolhemos o autor, mas é o Guimarães que escolhe a gente. E eu estou começando a acreditar nisso porque não consigo mais me imaginar sem conviver com as pessoas que vivem nos lugares onde ele se inspirou para escrever sua obra.

Desde quando você trabalha especificamente com este tema?

Selma.
Há três anos comecei a participar das semanas culturais promovidas pela prefeitura de Morro da Garça, Cordisburgo e Três Marias (na comunidade de Andrequicé). Esse contato começou com a Anne Vidal que me apresentou à Maryli Bezerra, uma cineasta que promove muitos eventos ligados à obra de Guimarães na cidade de Morro da Garça. Primeiro foram as viagens para o sertão de Minas, onde ele nasceu e se inspirou para escrever sua obra. Daí veio o encantamento pelas pessoas que moram nesses lugares, seu carinho, as crianças brincando e criando seus brinquedos com buritis e muitas outras plantas do cerrado.

Quais foram as etapas da pesquisa?

Selma. Fui ouvindo as histórias contadas pelos Miguilins de Cordisburgo. Depois conheci uma pessoa fundamental: o Brasinha, grande contador de estórias e primo distante de Guimarães que me relatou tudo o que conhecia sobre a infância do escritor. Visitei vários lugares onde Guimarães Rosa viveu sua infância, o que me fez encantar mais ainda pelo sertão. Muitas pessoas me ajudaram nesse processo todo. O trabalho foi feito de gente que teve a paciência de me mostrar sua vida, abrir suas casas, seu coração e sua boca para me explicar tanta coisa.

Você entrevistou personagens vivos da famosa viagem de Rosa pelo sertão?

Selma.
Só a Dona Antonieta, que ainda mora em Cordisburgo. Ela é uma senhora que faz doces deliciosos, tem uma linda horta e é muito vaidosa. O Guimarães, quando esteve na sua casa, falou que ela era muito bonita, e essa é a lembrança que ela conta para as pessoas com bastante orgulho. E é verdade porque até hoje ela é muito bonitinha.

E personagens presentes na obra "fictícia" do escritor, você conseguiu identificar?

Selma.
Muitos. O sertão não muda como o litoral, que tem uma cultura de apreciação, de novidades. O sertão, por essência, não é feito de "globalização". A cultura que é citada na obra ainda está lá, no modo de viver das pessoas. Encontrei no Lica de Morro da Garça e no seu Joaquim de Cordisburgo o "Tio Terez" fazendo flauta de canudo de mamão. A "menina de lá" mora em Três Marias, fica sentada fazendo bonecas e falando palavras de sentimento. Quando estava no porto do De-Janeiro, encontrei um homem pedindo carona para Três Marias que se chamava Reinaldo. Na hora da despedida, ele pegou na mão do Brasinha e disse: "Olha, é convite de coração. Quando vocês vierem pra cá novamente, venham na minha casa". O Dito, para mim, é o Paulinho de Morro da Garça. É um menino muito especial, um artista!

Como você definiria seu trabalho?

Selma.
O meu trabalho tem o olhar da artista plástica que se encanta pela forma dos brinquedos e da natureza do sertão. Tem a humanista que mostra o espelhinho para as pessoas se olharem e encontrarem a poesia que mora dentro delas. Tem a antropóloga que fica cavando a memória de todo mundo, enchendo-os de perguntas, pedindo para eles lembrarem como é que faz e toca a flauta de canudo de mamão, onde que tem almecêga, que é uma árvore do cerrado que aparece na estória do Miguilim e no Grande sertão: Veredas com o Riobaldo brincando com a resina para fazer bolinhas. Tem a jardineira que quer plantar Rosa no jardim da infância de todo mundo. E tem também a menina nada quieta que quer com seu trabalho jogar uma bomba; não a rosa do Japão, mas a Rosa do sertão para as pessoas verem o que um escritor como o Rosa pode fazer em suas vidas quando elas se apaixonarem por sua literatura.

Você se identifica na obra de Guimarães Rosa? Em quais pontos?

Selma.
Me identifico com os momentos de quietude dos personagens, que soltam frases lindas como "olhava nuvens, as esculturas efêmeras do céu". Esse é um brinquedo que todos nós já tivemos algum dia.

O que mais a encanta na obra dele?

Selma.
O que me encanta em Guimarães Rosa é a infinita poesia presente em sua obra. E como ele apresenta a alma infantil. Falo sempre que o dia em que as crianças descobrirem que Rosa não é só nome de cor e flor, mas também de um escritor que soube falar sobre o que elas sentem, vão ser mais felizes. Ele sabe falar como ninguém de todas as angústias, alegrias e tristezas que acompanham a infância.

Você se considera uma menina quieta?

Selma.
Me considero. Quando criança me confundiam com uma menina tímida. Não tinha outro nome para colocar, então colocavam esse. Só depois de conhecer o sonho genial do Guimarães de escrever um tratado de brinquedos para meninos quietos é que fui entender o equívoco que as pessoas cometem ao considerar qualquer pessoa que não gosta de ficar se expondo como uma pessoa tímida. Chico Buarque, por exemplo, é uma pessoa que a vida inteira teve que lidar com essa confusão por ser um menino quieto e não tímido. É um outro tipo de expressão. O artista precisa ficar quieto para criar. Isso também serve para as pessoas que têm uma personalidade mais inquieta. Todo mundo já precisou ficar quieto em algum momento da vida para ouvir o canto de passarinho. É isso: a gente precisa saber observar... para poder brincar de imaginar, para conseguir pensar, filosofar.

Como surgiu a idéia da exposição?

Selma.
Como disse, eu me convidei para ir com a Anne para o sertão. Viajamos juntas muitas vezes. Ela desenvolvendo o trabalho com caiação e eu sempre envolvida com os brinquedos, com as crianças. Um dia a Marily Bezerra falou da idéia do Guimarães de escrever o livro de brinquedos para meninos quietos. Isso foi em Andrequicé, durante a "Semana Manuelzão". Alí caiu a bomba na minha cabeça, a "Rosa do sertão" de que eu falei. Pensei: "vou escrever esse livro!". Foi assim que nasceu o projeto. Não consegui patrocínio para a edição, mas surgiu a proposta da exposição Meninos Quietos em abril de 2005. Falei para o pessoal do Sesc que eles foram os únicos que apoiaram o projeto e agradeci dizendo que "só os pinheiros acreditaram nos buritis". Outra pessoa importante foi o Willian da Elástica que tirou a idéia do papel e conseguiu deixar a exposição tridimensional. Para finalizar, o José Midlin, que me apoiou nos momentos difíceis, me acalmando quando eu achava que "minha frágil vereda ia ser engolida pelos eucaliptos", que é o que ocorre com o cerrado hoje em dia.

O que você gostaria que as pessoas sentissem ou levassem consigo depois de visitá-la?

Selma.
A simplicidade. Que a vida pode ser melhor se for baseada na simplicidade dos momentos efêmeros de felicidade. E que elas descubram aonde foi parar o menino quieto que mora dentro de cada uma delas.

Quais os projetos futuros?

Selma.
Publicar o Pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos. Estou devendo essa "lição de casa" para o Guimarães Rosa. Além disso, levar a exposição para itinerar e começar um novo projeto com brinquedos e literatura. Viajar para outro sertão atrás de outras estórias.


Serviço

Meninos Quietos. Até 04/06.
Grátis. De terça à sexta, das 13h às 21h30.
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30.
Sala das Oficinas, 2º andar.
SESC Pinheiros. Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros SP
Telefone: 11.3095.9400



tags: São Paulo SP literatura guimaraes-rosa brinquedo brinquedos exposicao minas-gerais crianca entrevista


 
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