Publicado originalmente em 01/03/2007.
Folhetim pulp. Escrito por Ana Paula Maia.
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Cap.1
O lixo está por todo lugar e são de várias espécies: atômico, espacial, especial, hospitalar, industrial, radioativo, orgânico e inorgânico; mas Erasmo Wagner só conhece uma espécie de lixo. Aquele que é jogado pra fora de casa. A imundície, o podre, o azedo e o estragado. O que não presta pra mais ninguém. E serve apenas para os urubus, ratos, cães, e pra gente como ele. Trabalha no caminhão de lixo parte do dia. Larga às quatro da tarde. Conhece o conteúdo de alguns sacos só pelo cheiro, formato e peso. Já teve tétano. Já teve tuberculose. Já foi mordido por rato e picado por urubu. Conhece a peste, o espanto e o horror; por isso é ideal pra profissão que exerce.
Revende em casa aquilo que acha em bom estado: Colchão, estrado de cama, vaso sanitário, portas, armários, grades, cofres, cadeiras, canos e o que mais puder ser aproveitado. Lucra metade de seu salário com a venda do lixo.
Não pensa nos miseráveis dos aterros sanitários que também poderiam lucrar com o que há de melhor no lixo. Ele realmente não se importa. Assim, como quem está acima dele, não se importa também. Na escala decrescente de famintos e degenerados, ele ocupa um posto pouco acima dos miseráveis. É como levar um tiro de raspão.
No itinerário de Erasmo Wagner, são recolhidas mais de vinte toneladas de lixo por dia. A riqueza de uma sociedade pode ser medida pela sua produção de lixo. Vinte toneladas num itinerário consideravelmente pequeno, o faz pensar no tanto que se gasta. No tanto que se transforma em lixo. Mas tudo vira lixo, inclusive ele é um lixo para muitas pessoas, até para os ratos e urubus que insistem em atacá-lo. Mas não liga, esses agem por instinto. Sentem seu cheiro podre e avançam. Os outros, seus semelhantes, não avançam, eles recuam para longe. Como fazem com os detritos que jogam pra fora de casa, os restos contaminados. O seu cheiro afasta as pessoas pra bem longe.
Sua vida não é um lixo. Sua vida é muito lixo. Seu olfato está impregnado com o aroma do podre. Seu cheiro é azedo, suas unhas imundas e sua barba crespa e falhada é suja. Ninguém gosta muito de Erasmo Wagner. Dão meia-volta quando está trabalhando e ele prefere assim. Prefere os urubus, os ratos e a imundície, porque isso ele conhece. Isso o sustenta. As pessoas em geral, lhe dão náuseas e muita vontade de vomitar.
Sua namorada, a Suzete, não se importa. Suzete é faxineira de banheiro público. Ela cheira a mijo, bosta e pinho.
___Como assim estenderam o itinerário? ___grita Erasmo Wagner ensopado de chuva para o motorista do caminhão.
___ A gente tem que cobrir mais dois quarteirões ___responde o homem.
___ Mas por quê?
___ O outro caminhão quebrou no meio da coleta. A gente precisa terminar o serviço deles.
Erasmo Wagner não gosta de fazer o trabalho sujo dos outros. Joga mais dois sacos na caçamba do caminhão e sobe em seguida agarrando-se a uma barra de ferro. Ele já está bem acostumado a se segurar ali. De pé, mesmo em curvas fechadas, consegue cochilar.
___ A gente recolhe o lixo extra, mas não vai receber mais por isso, né? __ pergunta Valtair, o trabalhador novato.
___ Pode apostar que não. A gente tinha que ganhar por tonelada que recolhe. E o pior é que sempre tem um lixo extra.
O caminhão barulhento pára a cinco quadras dali e iniciam a coleta do lixo extra.
___ Não gosto de rua de gente rica ___ diz Erasmo Wagner. ___ Tem muito mais lixo.
___ Eles têm mais dinheiro pra gastar, é isso ___ responde Valtair.
A chuva engrossou nos últimos minutos. O tempo escureceu. No meio da tarde, eles avistam trevas. Vestem uma capa preta de plástico. Parecem mercadores da morte recolhendo sacos pretos e despejando conteúdos nojentos de latões de lixo direto na boca da "esmagadora".
___ Dinheiro sempre vira lixo. Lixo e bosta ___ diz Erasmo Wagner. ___ Meu primo Edivardes trabalha desentupindo esgoto. Isso sim é um trabalho de merda. Você precisa ver o esgoto das áreas mais ricas. É uma bosta densa.
Erasmo Wagner corre para apanhar um saco de lixo grande que caiu na rua. Chuta um vira-lata que abocanhou uma cabeça de galinha. O bicho foge grunhindo sem largar o pedaço de carne podre. Joga o saco na caçamba do caminhão.
___ Bosta pesada? ___ pergunta Valtair rolando um latão.
___ Isso. É merda concentrada. Comida boa faz isso. Merda de pobre é rala e aguada. O Edivardes conhece a pessoa pela merda que produz. Ninguém engana ele não. Ele sabe das coisas.
Eles correm de um lado para o outro recolhendo sacos grandes e pequenos. Disputam a chutes com os cachorros, o lixo que precisam recolher, e a tapas, com os mendigos que buscam o que comer. Valtair espera que um mendigo termine de vasculhar um dos sacos de lixo. Erasmo Wagner, puxa o saco e joga no caminhão. Valtair sente-se desolado.
___ Daqui a uma semana, você vai tratar todo mundo igual. Cachorros e mendigos ___ diz Erasmo Wagner. ___ O cheiro podre faz isso. Daqui a um tempo você só vai sentir esse cheiro.
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