O Museu de Imagens do Inconsciente (MII) originou-se a partir dos ateliês de pintura e de modelagem da Seção de Terapêutica Ocupacional, no Centro Psiquiátrico Pedro II, organizada por Nise da Silveira. O ano era 1946 e como a produção dos ateliês crescia vertiginosamente, surgiu a idéia de organizar um museu que pudesse reunir o trabalho dos internos. Em 20 de maio de 1952 o MII foi inaugurado numa pequena sala, passando a ocupar instalações mais amplas em setembro de 1956.
Como relata Cecilia Giannetti: "Os trabalhos expostos no Museu acabaram por despertar a atenção de outros meios além do médico por sua qualidade artística. A crítica destaca, até hoje, pacientes como Fernando Diniz e Emydgio de Barros. '
Emydgio de Barros é um dos raros gênios da pintura brasileira', afirma Ferreira Gullar, que conheceu a Dra. Nise e o Museu de Imagens do Inconsciente através de Mário Pedrosa. 'No começo de 1952 ele me convidou pra ir até lá conhecer os trabalhos de Emydgio, Raphael... Passei a conversar com Nise sobre arte e política e escrevia sobre as exposições', conta o poeta e crítico. Para Gullar, 'há bons pintores e há maus pintores, independente de serem loucos. Eu olhava os trabalhos como expressão de artistas'."
Gullar é autor do perfil
Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde (Relume-Dumará, 1996), onde narra a história da psiquiatra, fala do seu trabalho e relata uma esplêndida entrevista com ela.
Leia a seguir a entrevista com o poeta e crítico de arte, sobre o trabalho de Nise.
Poderia falar sobre a importância do trabalho que a dra. Nise desenvolveu e acabou por dar origem ao Museu de Imagens do Inconsciente?
Ferreira Gullar. O interesse da dra. Nise pela ocupação terapêutica dos pacientes nasceu de um impasse: ela se negava a seguir os métodos de tratamento que lhe pareciam desumanos e o diretor do hospital, sem alternativa, a pôs para trabalhar junto aos pacientes que se ocupavam da limpeza dos quartos e banheiros, da arrumação dos leitos etc. Ela, então, ampliou esse tipo de trabalho criando as oficinas de encadernação, modelagem e pintura. O surgimento surpreendente de artistas como Emygdio, Rafael, Diniz e Carlos, entre outros, abriu o caminho para aprofundar a experiência. A leitura das obras de Jung alimentou sua visão teórica da experiência nova.
A dra. Nise introduziu a produção artística como método de comunicação e expressão dos esquizofrênicos. Qual o limite entre arte e loucura, se é que existe?
Gullar. Não há, no meu entender, relação causal entre arte e loucura. Não é a loucura que torna a pessoa artista. Ela é artista, ainda que louca. A loucura pode influir na sua expressão mas não é a fonte da criação artística. Há muitos doentes mentais que fazem pintura medíocre.
O que faz da pintura uma forma tão interessante de expressão dos loucos?
Gullar. A pintura se adéqua à expressão do esquizofrênico, dada a sua natureza de linguagem não-verbal. Em geral, a doença mental implica confusões conceituais e dificuldades em lidar com as formas lógicas do pensamento. A pintura fala através de imagens e símbolos, que dispensam a lógica conceitual. Por isso, através dessas formas ele pode expressar-se à margem de seus conflitos, dos “grilos” que dificultam seu relacionamento com o mundo dito normal.
Na pintura dos esquizofrênicos, as mandalas são muito presentes. Arriscaria uma explicação para o aparecimento destes signos nestes trabalhos?
Gullar. As mandalas estão ligadas à teoria de Jung do inconsciente coletivo. Não acredito que exista inconsciente coletivo, trata-se de uma contradição em seus termos. O fato de surgirem em comunidades primitivas distintas e em épocas diferentes formas redondas ou circulares (que Jung chamou de mandalas) pode ter outra explicação que essa de surgirem do inconsciente coletivo. Por exemplo, a Lua é redonda e existem outras formas redondas na natureza que podem ter inspirado os círculos que aparecem na expressão e diferentes comunidades.
O último livro da Dra. Nise chama-se Gatos, Emoção de Lidar. Ela tinha uma forte relação com os felinos, assim como William Burroughs, que escreveu um livro a respeito, e o senhor, que dedicou uma obra ao Gatinho. Haveria alguma relação entre artistas e gatos?
Gullar. Não creio que haja uma relação específica entre artistas e gatos. Conheço artistas que têm horror a gatos.
Nestes quase dez anos de ausência da Dra. Nise, qual o legado de seu trabalho? E o que ainda precisa ser retomado, que ainda não recebeu a devida atenção?
Gullar. O caminho aberto pela dra. Nise é fecundo, de grande valia para a recuperação do doente mental. Seria lamentável se não se levassem adiante as conquistas já obtidas ao longo de sete décadas. Acresce ainda que a manutenção dos ateliês para os artistas esquizofrênicos, além de ajudá-los a enfrentar a doença, possibilita o surgimento de talentos que poderão enriquecer, ainda mais, o patrimônio artístico do país.
EXCLUSIVO:
> Confira a entrevista de Bernardo Carneiro Horta, autor da biografia recém-lançada sobre a Nise da Silveira
> Leia textos de Bernardo Carneiro Horta sobre a Dra. Nise:
- ‘Em 2009, difusão de vida e obra de Nise da Silveira remete à senha para a construção da identidade brasileira: memória...’,
AQUI!
- ‘O Centenário de Nise da Silveira’, publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2005,
AQUI!
- ‘Nise da Silveira gênio do cotidiano’,
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>>> Assista a entrevista em vídeo com Dra. Nise da Silveira, concedida ao professor Edson Passeti,
AQUI!
>>> Conheça o livro
Nise - Arquéóloga dos Mares, de Bernardo Carneiro Horta,
AQUI! E leia o primeiro capítulo.
>>> Conheça o
Museu Imagens do Inconsciente e a
Casa das Palmeiras.
>>> Leia textos de Nise da Silveira,
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