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A cidade de joão ninguém
 
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Tânia Du Bois, Itapema (SC) · 6/8/2009 · 269 votos · 28
por Tânia Du Bois

Você já ouviu falar na cidade de joão ninguém? É a cidade onde todos mandam, ninguém obedece e poucos respeitam.
Noel Rosa, em tempos passados, compôs uma letra com o nome de João Ninguém. O poeta teve sensibilidade para compreender o que estava acontecendo à sua volta; foi capaz de traduzir naquela música o seu tempo social. Trabalhou duro a palavra para tentar mostrar o que estava acontecendo em uma cidade saída da Revolução de 1930, num país carente da palavra; ele soube usá-la para definir o movimento das palavras para com a música:

“João Ninguém
Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Pra se esquecer do jantar
Esse João nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião.”

Mas, nos tempos atuais, é a cidade em que o povo escuta música em volume excessivo, nos carros, nas ruas, até altas horas; os carros são estacionados de qualquer maneira, em qualquer mão. Nas lojas, parece que cada dono faz o seu próprio horário de atendimento. Não há policiamento. As casas são assaltadas à luz do dia. A novidade é que, agora, os ladrões escalam prédios e até matam para roubar. Os supermercados fixam preços de acordo com a temporada; O saneamento básico é feito e refeito. E como é a cidade de joão ninguém, não são tomadas providências, nenhuma atitude sobre absolutamente nada. Tudo é permitido, tudo podem.
Álvaro Mutis, poeta colombiano, mostra-nos que a força das armas não contempla a permanência, ao contrário, leva à destruição e ao esquecimento; a ilusão do progresso como atos a reconfigurar a terra em novas formas de compartilhamento:

“Senhor das armas
ilusórias, faz tanto tempo
que o olvido trabalha
teus poderes
que teu nome, teu reino
e torre, o estuário
as areias e as armas
se apagaram para sempre...”

E como vivem os forasteiros nessa cidade? Eles entendem que a cidade de joão ninguém é protegida pela natureza. Que o Sol é glorioso e a Lua quando bate no mar reflete os sonhos. Que o entardecer se confunde com as telas de Ivan Freitas. Que o mar é verde como a esmeralda, como pinceladas de Sansão Pereira. Que os pescadores pertencem à tela de Elias Andrade.
E que, ainda, sentar no terraço e apreciar a paisagem na companhia de Mário Quintana, Jorge Luis Borges e Saramago faz com que consigam esquecer que essa cidade pertence a joão ninguém. A brisa chega com Cecília Meireles e cada momento de “Isto ou Aquilo” é desfrutado com muita sabedoria.
Assim vivem os forasteiros na cidade de joão ninguém, tentando unir as letras ao povo, dando-lhes lápis e papel para perceberem a realidade; desafiando a cidade a arranjar um amor, uma palavra, como em Pedro Du Bois:

“Ante todos
nenhuma resposta.

Entre todos
algumas promessas.

Tordos
pássaros existentes
em outras terras.”


tags: Itapema SC literatura


 
Muito bom, Tânia! Os seus artigos - sempre críticos e suaves - vêm mostrar como pode ser pincelada de poesia, uma literatura séria e atual. A poesia está na vida, sim, mas o escritor não pode fechar os olhos ao seu tempo: e sua palavra é aguardada. E você faz isso como maestria.
Parabéns!
Meu beijo e voto

sr · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2009 14:44
é assim para mim também, como disse sr acima!
beijos poéticos querida Tânia,

Nina Araújo · Campo Grande (MS) · 6/8/2009 15:04
Excelente, Tania e Pedro! Mostra belamente a realidade séria e precária da situação social atual e oferece uma fonte de reflexao importante sobre os valores e resonsabilidades frente a vida, a sociedade, o ambiente, o planeta. Com metáforas, metalinguagem, lembranças de grandes mestres ajuda a realçar os aspectos fundamentais de uma civilização que se diz humana. Estou lendo Germinal, do Zola, e o texto me lembrou a situação ilustrada nesse libro onde mineiros explorados , sem acesso a argumentos são levados ao desespero forçado da fome por uma luta pela vida, quase que`` empurrados`para a violência por falta de opções.

O artigo é um bom alerta pra que nunca precisemos chegar a tais extremos, que possamos refletir antes, mudar e agir antes quando se percebe um possível caos por vir.

beijos

Tania Montandon · Belo Horizonte (MG) · 6/8/2009 15:59
Votado. Um grande abraço,
Haron

Haron Gamal · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2009 16:02
Infelizmente é o que sabemos e presenciamos nos dias atuais: A cidade de João ninguém. E sofremos ante o descaso das autoridades, dos governantes corruptos e do próprio povo, semi-analfabeteo, sem visão do progresso e ordem... Até quando tudo isso? Creio que até chegar outra geração, outro povo, outro mundo.
Ótimo o seu artigo. Parabéns!
Abraço,
Paulo.

Paulo Valença · Recife (PE) · 6/8/2009 16:05
Tãnia

Existe somente uma cidade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-las a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.
Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade, sem medo, nem culpa de sentir prazer.
Lindo texto!
Não poderia ser diferente.

Beijos


erhi Araújo · Feira de Santana (BA) · 6/8/2009 16:38
Tânia Du Bois,
Quando vejo você e seu esposo nas pequenas fotos do site sinto uma vontade boa de conhecê-los. Ao ler sua escrita segura e suave percebo com nitidez uma pessoa bacana que quer viver a paz e a beleza da vida. E tudo combina e eu fico feliz por aqui torcendo por vocês. As vezes tenho um certo pudor de escrever porque sei que fico no avesso e talvez a minha carranca fique muito à mostra.
Então quando você escreve vejo suavidade nos seus escritos, vejo um espírito na letra, o que me alegra muito.
Mas não vou comentar o conteudo do texto, não por maldade, mas porque trabalho na segurança pública e já sou todo trauma com relação a esses assuntos. Entrei no blog do seu companheiro, (é assim mesmo que se diz?), e me diverti por lá, bacana e criativo.
Agradeço a sua confiança.
Que a luz seja o teu lar. abs.MF.

Milton Filho · Ribeirópolis (SE) · 6/8/2009 16:43
Parabéns pelo texto lúcido e bem fundamentado

Zacarias Martins · Gurupi (TO) · 6/8/2009 16:48
Infelizmente João Ninguém já atingiu dimensões continentais.
Mas as palavras ainda são instrumento. Um dia serão devidamente lidas, compreendidas, ouvidas. É o que nos cabe.

Abs. do

PARREIRA

Claudio Parreira · São Paulo (SP) · 6/8/2009 17:47
Tânia,

Ótima reflexão acerca das realidades e das possibilidades. Com lápis, papel, amor e sonho tudo é possível.

Abraços
Votado com prazer.

Sérgio Araújo · Salinas da Margarida (BA) · 6/8/2009 18:19
Amigos, como bem disse Sonia," a poesia está na vida" e Parreira, " as palavra ainda são instrumentos"; então não podemos deixar de observar e registrar os nossos sentimentos em relação a nossa realidade.Quema sabe algum dia um joão reflita...Obrigada pelas leituras e comentários. Abraços, Tânia

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 6/8/2009 19:14
Infelizmente já não é só a cidade: é o planeta de João Ninguém.
Ninguém mais sabe o que vai acontecer!
Estamos a beira de um colapso!
Nosso planetinha vai se vingar desse parasita cruel chamado ser humano.
E nós, todos os Joões Ninguém, iremos ninguém sabe pra onde!...

Só a poesia nos permite viajar um pouco e sair desta realidade louca retratada com elegância em seu artigo.
Votado!
Parabéns!

Abraços,
de um João Ninguém.

Alexandre Eduardo Weiss · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2009 20:43
Votado amiga.

Paola Rhoden · Brasília (DF) · 6/8/2009 21:29
Acho que está tudo ficando divertido. Desculpe meu cinismo, mas ainda temos muitas danças de desespero para dançar... juntos.

Hiago · São Paulo (SP) · 6/8/2009 21:32
Tânia,

Apreciei Muito o Artigo.

Forasteiros... Mas Nem Tanto, Não É Mesmo?

Também É Tarefa do Poeta e do Escritor Manter os Pés Fixos na Realidade, Defender Sua Terra que, Afinal, É Substrato para a Lavra.

Sou Otimista, Acredito que, Apesar de Altos e Baixos, a Evolução É a Sina da Humanidade. Mas Cada Coisa a Seu Tempo...

Um Beijo, Jorge X

Jorge Xerxes · São José dos Campos (SP) · 6/8/2009 23:09
Tânia,
Seu artigo faz uma denúncia sobre uma situação que todas as cidades de veraneio tem em comum: a falta de civilidade.
Texto bem estruturado.
Abraços

Betusko · São Paulo (SP) · 6/8/2009 23:26
Caros amigos Weiss, Paola ,Hiago e Xerxes obrigada pelas leituras e comentários. Vocês, para mim, são os reflexos da beleza da vida. Abraços, Tânia.

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 6/8/2009 23:38
Bom dia Tânia!
Sempre precisa nas suas críticas.
Colocou no seu texto não o momento de uma cidade, mas o Brasil inteiro.
Muito talentoso o seu texto.
Parabéns.
Votado.

TõeRoberto · João Pessoa (PB) · 7/8/2009 06:45
Caros Betusko e TõeRoberto, sem vocês não haveria razões para escrever. Suas leituras são fundamentais. Abraços, Tânia.

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 7/8/2009 11:35
Tânia,
estou aqui.
abs

Marcilio Medeiros · Recife (PE) · 7/8/2009 22:06
brasil contemporâneo: espiral de deumanizações e do caos.

jessebarbosa26 · Salvador (BA) · 8/8/2009 10:57
Tânia, na História trabalhamos com o mito do paraíso perdido. Cada geração considera seu tempo contemporâneo muito moralmente pior do que os tempos pretéritos. Este é o mito. A violência é própria do ser humano - infelizmente. Porque somos humanos, e essencialmente humanos, somos violentos, agressivos, desesperados. Está aí o "Ensaio sobre a cegueira", do Saramago que citas em teu texto. É este o "mal estar da civilização ocidental", sobre o qual escreveu Freud.
Abraço fraterno,
Viegas

Viegas Fernandes da Costa · Blumenau (SC) · 8/8/2009 13:14
Marcílio, Jessé e Viegas, obrigada pelas leituras e comentários. Acompanhados da literatura podemos viver a "paz e a beleza da vida", como escreveu Milton Filho.

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 8/8/2009 19:06
Tânia,

Transpondo para Salvador (Ba), tudo parece igual. Hoje é a cidade de João Ninguém. Agora, uma coisa é esta cruel realidade que você descreve no texto. Outra, esta sim bem agradável, é o jeito criativo como você fala da questão. Gostei muito do texto.
Votado.

Abraços,
Graça

Graça Filadelfo · Salvador (BA) · 9/8/2009 13:40
Graça, obrigada pela leitura e comentário; são palavras como as suas que engrandecem o meu trabalho . Abraços,Tânia

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 9/8/2009 15:34
Tania, ótimo artigo.

Priscila Magalhaes · São Paulo (SP) · 21/8/2009 17:06
Prazer em conhecê-la!Adorei ler essa crônica ,muito bem traçada,entremeada de belos e oportunos versos.Votado!

Mirokca · Salvador (BA) · 2/12/2009 20:20
Priscila e Mirokca agradeço a leitura e os comentários, vocês engrandecem o texto. Mirokca seja bem vinda! Abraços, Tânia

Tânia Du Bois · Itapema (SC) · 3/12/2009 12:52
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